Parnaso de Além-Túmulo · Autores diversos · Chico Xavier
Capítulo 53 de 58
Rodrigues de Abreu
Poeta nascido em Capivari, S. Paulo, a 17 de setembro de 1899, e desencarnado, tuberculoso, em Campos do Jordão, aos 24 de novembro de 1927. Publicou Casa Destelhada, Noturnos e Sala dos Passos Perdidos, além de inúmeros trabalhos esparsos na imprensa do seu Estado. Foi cognominado — “o poeta triste das rimas róseas.” Vi-te, Senhor!
1 Eu não pude ver-Te, meu Senhor, Nos bem-aventurados do mundo, Como aquele homem humilde e crente do conto de Tolstoi.
2 Nunca pude enxergar As Tuas mãos suaves e misericordiosas, Onde gemiam as dores e as misérias da Terra; E a verdade, Senhor, É que Te achavas, como ainda Te encontras, Nos caminhos mais rudes e espinhosos, Consolando os aflitos e os desesperados… Estás no templo de todas as religiões, Onde busquem Teus carinhos As almas sofredoras, Confundindo os que lançam o veneno do ódio em Teu nome, Trazendo a visão doce do Céu Para o olhar angustioso de todas as esperanças… Estás na direção dos homens, Em todos os caminhos de suas atividades terrestres, Sem que eles se apercebam De Tua palavra silenciosa e renovadora, De Tua assistência invisível e poderosa, Cheia de piedade para com as suas fraquezas.
3 Entretanto.
Eu era também cego no meio dos vermes vibráteis que são os homens, E não Te encontrava pelos caminhos ásperos…
4 Mocidade, alegria, sonho e amor, Inquietação ambiciosa de vencer, E minha vida rolava no declive de todas as ânsias…
5 Chamaste-me, porém, Com a mansidão de Tua misericórdia infinita. Não disseste o meu nome para não me ofender; Chamaste-me sem exclamações lamentosas, Com o verbo silencioso do Teu amor, E antes que a morte coroasse a Tua magnanimidade para comigo, Vi que chegavas devagarinho, Iluminando o santuário do meu pensamento Com a Tua luz de todos os séculos!
6 Falaste-me com a Tua linguagem do Sermão da Montanha, Multiplicaste o pão das minhas alegrias E abriste-me o Céu, que a Terra fechara dentro de minhalma…
7 E entendi-Te, Senhor, Nas Tuas maravilhas de beleza, Quando Te vi na paz da Natureza Curando-me com a Dor.
1 Eu ainda não era um homem, Quando subi aos elevados promontórios da esperança, Divisando os países da beleza.
Meu coração pulou com um ritmo descompassado E desejei a luz das cidades distantes, O perfume das florestas prodigiosas Onde cantavam as aves da mocidade e da glória.
2 Tudo sonhei contemplando o horizonte!…
3 Na embriaguez da ansiedade e do desejo, Não vi o cântaro de mel Que minha mãe deixara com o seu beijo Na prateleira humilde de minhalma.
Gotas de mel, palavras de oração — «Pai Nosso que estais no Céu…» «Ave Maria, cheia de graças…» Gotas do mel de amor, do coração.
4 Tudo esqueci, por infelicidade, E andei como um fauno louco pelos mares remotos e pelas ilhas desconhecidas… Eu era dono do mundo inteiro Porque era senhor dos sonhos absolutos, Adormecendo à sombra enganadora Da árvore da ilusão, onde quase todos os frutos apodrecem. E quando quebrava os últimos altares, Na inquietação da carne e do desejo, Chegou ao país de minhalma um romeiro triste dos Céus, Falando como Jeremias sobre a Jerusalém de minhas ânsias:
5 «A sombra da ilusão envenena-te a vida… «Eu corrijo as paisagens interiores, «Trago-te o pão dos grandes amargores. «Sou a Dor, ficarei sempre contigo.
«Guarda as minhas verdades, meu amigo, «Manda o Senhor que eu seja a companheira «De tua vida inteira…
«Irás comigo a mundos ignorados, «Dar-te-ei maravilhas «Ao sol dos meus castelos encantados…»
6 Eu não sei explicar o mistério Daquela personagem enigmática Que se intrometia, afoitamente, Na minha estrada de alegria.
7 Seu olhar parecia A claridade estranha de toda a resignação e de todo o padecimento.
8 E, desde esse momento, Casou-se comigo a Dor, de tal maneira, Que a senti junto a mim, a vida inteira:
9 Roubou-me todas as glórias da Terra Fez fugir-se-me a noiva idolatrada, Deixou-me só na lôbrega jornada, Afastou-me a alegria da saúde, Apodreceu meu coração em sua mão, Deu-me as sombras dos Campos do Jordão, Fez de meu sonho a casa destelhada, Onde as chuvas de todas as misérias Caíram sem cessar desde esse dia; Crestou-me a flor ditosa da alegria, Tudo levou-me a dor incontentada…
10 Mas oh! suave milagre de ventura, Ela deu-me os palácios encantados Onde brilham as luzes d’Aquele que se sacrificou na cruz por todos os homens!… Pela sua porta estreita, Encaminhou-me à sensação perfeita De Tua inefável presença, ó Senhor de Bondade. Nas grandezas de Tua claridade, Cala-se o meu verso humilde, Porque com a Dor Sinto que Te compreendo, meu Senhor, E abençoo contente As mágoas que me deste antigamente…
Pois agora é que eu sei Banhar-me todo nessa fonte imensa Da paz, doce e balsâmica da crença, Enxergando na tamareira da esperança, A cuja sombra o espírito descansa, Pelos desertos áridos do mundo, O único fruto eterno, bom e fecundo…
11 Fruto que é o Teu amor E a Tua caridade, meu Senhor, Sustentando a infeliz Humanidade, Desde as pedras da Terra Aos jardins de esplendor da Eternidade!… Rodrigues de Abreu