Parnaso de Além-Túmulo · Autores diversos · Chico Xavier
Capítulo 52 de 58
Raul Leoni
Fluminense, nascido em Petrópolis em 1895 e desencarnado em Itaipava, com apenas 31 anos de idade. Bacharel em Direito, foi deputado estadual e posteriormente Secretário de Legação. Entre os talentos da chamada nova geração, a sua afirmativa nos domínios da Arte Poética pode considerar-se das mais fulgurantes. Além de Ode a um poeta morto, dedicada a Olavo Bilac, de quem foi amigo dileto, deixou Luz Mediterrânea, considerada como seu livro de ouro. Luta
1 Aí na Terra, as bem-aventuranças São o sonho que o Espírito agasalha, Mas, mesmo após a morte, a alma trabalha Buscando o céu das suas esperanças.
2 Muita vez, quando pensas que descansas, Além te espera indômita batalha, Onde o suposto gozo se estraçalha Sob o guante acerado das provanças.
3 Para cá do sepulcro a dor antiga, Que nos traz o desânimo, a fadiga, Sob a luz da verdade se atenua;
4 A febre das paixões desaparece, O Espírito a si mesmo reconhece. Mas a luta infinita continua. Na Terra
1 Renascendo no mundo da Quimera, Ao colhermos a flor da juventude, É quando o nosso Espírito se ilude, Julgando-se na eterna primavera.
2 Mas o tempo na sua mansuetude, Pelas sendas da vida nos espera, Junto à dor que esclarece e regenera, Dentro da expiação estranha e rude.
3 E ao tombarmos no ocaso da existência, Nós revemos do livro da consciência Os caracteres grandes, luminosos!…
4 Se vivemos no mal, quanta agonia! Mas se o bem praticamos todo o dia, Como somos felizes, venturosos…. Soneto
1 Não te entregues na Terra à indiferença. Cheio de amor e fé trabalha e espera; Nos domínios do mal, nada há que vença A alma boa, a alma pura, a alma sincera.
2 No pensamento nobre persevera De servir, sempre alheio à recompensa; O desejo do Bem dilata a esfera Das luzes sacratíssimas da Crença.
3 Vive nas rutilantes almenaras Dos castelos do amor de essências raras, Aspirando os olores da Pureza!…
4 Terás na Terra, então, a vida calma. E a morte não será, para a tua alma, Jamais medonha e trágica surpresa. Nós…
1 Nós todos vamos pela vida em fora Deixando no caminho os mesmos traços, Em Deus buscando a Perfeição que mora No cume inatingível dos Espaços!…
2 Cada instante de dor nos aprimora. Desatando os grilhões, rompendo os laços Dessa animalidade atrasadora, Que procura tolher os nossos passos.
3 Heróis de novas lendas carlovíngias, O Sonho imanta as nossas almas, cinge-as, Na Luz Ideal — o nosso excelso escudo;
4 Buscando o Indefinível, o Insondado, Deus, que é o Amor eterno e ilimitado E a gloriosa síntese de tudo. “Post mortem”
1 Depois da morte, tudo aqui subsiste, Neste Além que sonhamos, que entrevemos, Quando a nossa alma chora nos extremos Dessa dor que no mundo nos assiste.
2 Doce consolação, porém, existe Aos amargosos prantos que vertemos, Do conforto celeste os bens supremos Ao coração desalentado e triste.
3 Também existe aqui a austera pena À consciência infeliz que se condena, Por qualquer erro ou falta cometida;
4 E a Morte continua eliminando A influência do mal, torvo e nefando. Para que brilhe a Perfeição da Vida. Soneto
1 Se todos nós soubéssemos na vida A Verdade grandiosa e soberana, Não faltaria o gozo que promana Dos sentimentos da missão cumprida.
2 Mas na Terra a nossa alma empobrecida, Presa dessa vaidade toda humana, De desgraças e de erros se engalana Numa incerteza amarga, irreprimida…
3 Vamos passando assim a vida inteira, Sem esposar a crença imorredoura, A fé demolidora de montanhas,
4 Quase imersos na treva da cegueira, Sem vislumbrar a luz orientadora, Nessa noite de dúvidas estranhas!… Raul de Leoni [As mensagens: Sonetos I e II; Post-mortem e Nós… foram publicadas também em 2010 pela editora VL na 3ª Parte do livro “Chico Xavier: O Primeiro Livro” e encontram-se devidamente relacionadas no Anexo A.]