Parnaso de Além-Túmulo · Autores diversos · Chico Xavier
Capítulo 50 de 58
Pedro de Alcântara
(Relação das poesias)
Meu Brasil No exílio Rogativa Soneto Página de gratidão Oração ao Cruzeiro Bandeira do Brasil Brasil do Bem Brasil O último imperador deixou alguns sonetos, que, bem o sabemos, há quem diga não serem da sua lavra. Ignoramos porque D. Pedro II, alma boníssima, vibrátil, e espírito culto, não pudesse fazer o que fizeram e fazem tantos outros patrícios nossos, a ponto de ser correntio o conceito de que todo brasileiro é poeta aos 20 anos. De qualquer forma, entretanto, o que se não poderá negar é a estreita afinidade destes sonetos com os que, de D. Pedro, conhecemos. Meu Brasil
1 Longe do meu Brasil, triste e saudoso, Bastas vezes sentia, mal desperto, Com o coração pulsando estar já perto Do pátrio lar risonho e bonançoso.
2 E deplorava o rumo escuro e incerto, Do meu desterro amargo e desditoso, Desalentado e fraco, sem repouso, O coração em úlceras aberto.
3 Enviava, a chorar, na aura fagueira Minhas recordações em terna prece Ao torrão que adorara a vida inteira;
4 Até que a acerba dor, enfim, pudesse Arrebatar-me à vida verdadeira, Onde a luz da verdade resplandece. No exílio
1 Pode o céu do desterro ser tão belo, Quanto o céu do país em que nascemos; Nada faz com que o nosso desprezemos, Acalentando o sonho de revê-lo.
2 Todo o nosso ideal pomos no anelo De regressar, e voando sobre extremos, Com o pensamento ansioso percorremos Nosso amado rincão, lindo ou singelo.
3 Jaz no desterro a plaga da amargura, De acerba pena ao pobre penitente, De amaro pranto da alma torturada;
4 A alegria no exílio é desventura, É a saudade na ânsia mais pungente De retornar à pátria idolatrada. Rogativa
1 Magnânimo Senhor que os orbes cria, Povoando o Universo ilimitado, Que dá pão ao faminto e ao desgraçado, E ao sofredor os raios da alegria,
2 Se, de novo, no mundo, desterrado, Necessitar viver inda algum dia. Que regresse ditoso ao solo amado Da generosa pátria que eu queria;
3 Se é mister retornar a um novo exílio. Seja o Brasil, lá onde eu desejara Ter vertido o meu pranto derradeiro.
4 Que, novamente viva sob o brilho, Da mesma luz gloriosa que eu amara, Na alcandorada terra do Cruzeiro. Soneto
1 No exílio é que a alma vive da lembrança, Numa doce saudade enternecida, Tendo chorosa a vista que se cansa De procurar a pátria estremecida;
2 Com dolorosas lágrimas avança, Do sonho que teceu e amou na vida, Para a morte, onde tem sua esperança, Na celeste ventura prometida.
3 E Deus, que os orbes cria, generoso, Na vastidão dos céus iluminados, Concede a paz ao triste e ao desditoso
4 Na clara luz dos mundos elevados, Onde, do amor, reserva o eterno gozo Para as almas dos pobres desterrados. Página de gratidão
1 Tangendo as cordas da harpa da saudade, Venho ao Brasil buscar a essência pura Do amor da pátria minha, da doçura Da flor cheia do aroma da amizade.
2 Prende-me o coração a suavidade Desse arroubo de afeto e de ternura Dalma do povo meu, que de ventura E de alegria o espírito me invade.
3 Do misterioso aquém da morte, eu vejo, Sentindo, essa onda intensa e luminosa Da afeição, que idealiza o meu desejo:
4 E tendo a gratidão por companheira. Volvo ao pátrio torrão de alma saudosa. Amando mais a Terra Brasileira. Oração ao Cruzeiro (No cinquentenário da Abolição)
1 Luminosas estrelas do Cruzeiro, Iluminai a terra da Esperança, Na doce proteção de um povo inteiro Onde a mão de Jesus desce e descansa.
2 Símbolo sacrossanto de aliança De paz e amor do Eterno Pegureiro, Guardai as claridades da Bonança Na vastidão do solo brasileiro.
3 Constelação da Cruz, cheia de graças, Transfundi numa só todas as raças, No país da esperança e da bondade.
4 Que o Brasil, sob a luz da tua glória, Possa escrever, no mundo, a grande história Das epopeias da Fraternidade. Bandeira do Brasil
1 Bandeira do Brasil, símbolo da bonança, Enquanto a guerra estruge indômita e sombria, Sê nos Planos de luta o sinal de harmonia, Espalhando no mundo as bênçãos da Esperança.
2 Assinalas, na Terra, o país da Alegria, Onde toda a existência é um hino de abastança, Guardas contigo a luz da bem-aventurança, És o florão da paz, marcando um novo dia.
3 Nasceste sob a luz de um bem, alto e fecundo, Nunca te conspurcaste aos embates do mundo, Buscando iluminar as lutas, ao vivê-las…
4 É por isso que Deus, que te ampara e equilibra, Deu-te um corpo auri-verde onde a paz canta e vibra, E um coração azul, esmaltado de estrelas. Brasil do Bem
1 Eis que o campo de sombra se esfacela No doloroso e amargo cativeiro Da guerra que ameaça o mundo inteiro Qual furacão no auge da procela.
2 Mas na amplidão do solo brasileiro Outra expressão de vida se revela Nalma cariciosa, heroica e bela, Que se engrandece ao brilho do Cruzeiro.
3 Grande Brasil do Bem e da Abastança, Deus te guarde os tesouros da esperança, Desde as luzes dos céus à luz dos ninhos!
4 Segue à frente do mundo aflito e errante E alça o pendão pacífico e triunfante. Como a doce promessa nos caminhos!… Brasil
1 Sopra o vento do Ódio e da Vingança, Aniquilando a Paz do mundo inteiro, Embora o Amor Divino do Cordeiro Seja a fonte da Bem-aventurança.
2 Mas a terra ditosa da Esperança Vive nas claridades do Cruzeiro, Onde o Evangelho é o Doce Mensageiro Das bênçãos da Verdade e da Bonança.
3 Meu Brasil, guarda a luz dessa vitória, Que é o mais belo florão de tua glória Nos caminhos da espiritualidade.
4 Ama a Deus. Faze o bem. Todo o problema Está na compreensão clara e suprema Do Trabalho, do Amor e da Verdade. Pedro de Alcântara