Parnaso de Além-Túmulo · Autores diversos · Chico Xavier

Capítulo 49 de 58

Olavo Bilac

(Relação das poesias)

Jesus ou Barrabás? Soneto No Horto O beijo de Judas A crucificação Aos descrentes Ideal Ressurreição O livro Brasil Natural do Rio de Janeiro, nasceu em 16 de dezembro de 1865 e aí faleceu em 1918. Considerado, ao seu tempo, o Príncipe dos Poetas Brasileiros. Sócio fundador da Academia Brasileira de Letras. Jesus ou Barrabás?

1 Sobre a fronte da turba há um sussurro abafado. A multidão inteira, ansiosa se congrega, Surda à lição do amor, implacável e cega, Para a consumação dos festins do pecado.

2 «Crucificai-o!» — exclama… Um lamento lhe chega Da Terra que soluça e do Céu desprezado. «Jesus ou Barrabás?» — pergunta, inquire o brado Da justiça sem Deus, que trêmula se entrega.

3 Jesus! Jesus!… Jesus!… — e a resposta perpassa Como um sopro cruel do Aquilão da desgraça, Sem que o Anjo da Paz amaldiçoe ou gema…

4 E debaixo do apodo e ensanguentada a face, Toma da cruz da dor para que a dor ficasse Como a glória da vida e a vitória suprema. Soneto

1 Por tanto tempo andei faminto e errante, Que os prazeres da vida converti-os Em poemas das formas, em sombrios Pesadelos da carne palpitante.

2 No derradeiro sono, instante a instante, Vi fanarem-se anseios como fios De ilusão transformada em sopros frios, Sobre o meu peito em febre, vacilante.

3 Morte no teu portal a alma tateia, Espia, inquire, sonda e chora, cheia De incerteza na esfinge que tu plasmas!..

4 Impassível, descerras aos aflitos Uma visão de mundos infinitos E uma ronda infinita de fantasmas. No Horto

1 Tristemente, Jesus fitando os céus, em prece, Vê descer da amplidão o Arcanjo da Agonia, Cuja mão luminosa e terna lhe trazia O cálix do amargor, duríssimo e refece.

2 — «Se puderdes, meu Pai, afastai-o!…» — dizia, Mas eis que todo o Azul celígeno estremece; E do céu se desprende uma doirada messe De bênçãos aurorais, de Paz e de Alegria.

3 Paira em todo o recanto a vibração sonora Do Amor e o Mestre já na sede que o devora, De imolar-se por fim nas aras desse Amor,

4 Sente a Mão Paternal que o guia na amargura, E sublime na fé mais vívida, murmura: — «Que se cumpra no mundo o arbítrio do Senhor!…» O beijo de Judas

1 Ouve-se a voz do Mestre ungida de ternura: — «Amados, eu vos dou meus últimos ensinos; Na doce mansidão dos seres pequeninos, Trazei a vossa vida imaculada e pura!

2 O Amor há-de vos dar todos os dons divinos; Eterna irradiação que atinge a mais escura Estrada de aflição, de dor e desventura, — Raio de eterno sol na senda dos destinos.

3 Derramai com piedade a lágrima terrestre!» Mas eis que Judas chega e lhe diz: — «Salve, Mestre!» E toma-lhe das mãos, osculando-lhe a fronte…

4 E Jesus abençoando aquelas almas cegas, Responde humildemente: — «É assim que tu me entregas?» Vendo as coortes do Céu nas fímbrias do horizonte… A crucificação

1 Fita o Mestre, da cruz, a multidão fremente, A negra multidão de seres que ainda ama. Sobre tudo se estende o raio dessa chama, Que lhe mana da luz do olhar clarividente.

2 Gritos e altercações! Jesus, amargamente, Contempla a vastidão celeste que o reclama; Sob os gládios da dor aspérrima, derrama As lágrimas de fel do pranto mais ardente.

3 Soluça no silêncio. Alma doce e submissa, E em vez de suplicar a Deus para a injustiça O fogo destruidor em tormentos que arrasem,

4 Lança os marcos da luz na noite primitiva, E clama para os Céus em prece compassiva: «— Perdoai-lhes, meu Pai, não sabem o que fazem!…» Aos descrentes

1 Vós, que seguis a turba desvairada, As hostes dos descrentes e dos loucos. Que de olhos cegos e de ouvidos moucos Estão longe da senda iluminada,

2 Retrocedei dos vossos mundos ocos, Começai outra vida em nova estrada, Sem a ideia falaz do grande Nada, Que entorpece, envenena e mata aos poucos.

3 Ó ateus como eu fui — na sombra imensa Erguei de novo o eterno altar da crença, Da fé viva, sem cárcere mesquinho!

4 Banhai-vos na divina claridade Que promana das luzes da Verdade, Sol eterno na glória do caminho! Ideal

1 Na Terra um sonho eterno de beleza Palpita em todo o espírito que, ansioso, Espera a luz esplêndida do gozo Das sínteses de amor da Natureza;

2 É ansiedade perpetuamente acesa No turbilhão medonho e tenebroso Da carne, onde a esperança sem repouso Luta, sofre e soluça, e sonha presa.

3 Aspirações do mundo miserando, Guardadas com ternura, com desvelos, Nas lágrimas de dor do peito aflito!…

4 Mas que o homem realiza apenas, quando, Rotas as carnes, brancos os cabelos, Sente o beijo de glória do Infinito!… Ressurreição

1 Extinga-se o calor do foco aurifulgente Do Sol que vivifica o Mundo e a Natureza; Apague-se o fulgor de tudo o que alma presa Às grilhetas do corpo, adora, anela e sente;

2 Tombe no caos do nada, em túrgida surpresa, O que o homem pensou num sonho de demente, Os mistérios da fé, fulcro de luz potente, O templo, o lar, a lei, os tronos e a realeza;

3 Estertore e soluce exausto e moribundo, Debilmente pulsando, o coração do mundo, Morto à míngua de luz, ambicionando a glória;

4 O Espírito imortal, depois das derrocadas, Numa ressurreição de eternas alvoradas, Subirá para Deus num canto de vitória. O livro

1 Ei-lo! Facho de amor que, redivivo, assoma Desde a taba feroz em folhas de granito, Da Índia misteriosa e dos louros do Egito Ao fausto senhoril de Cartago e de Roma!

2 Vaso revelador retendo o excelso aroma Do pensamento a erguer-se esplêndido e bendito, O Livro é o coração do tempo no Infinito, Em que a ideia imortal se renova e retoma.

3 Companheiro fiel da virtude e da História, Guia das gerações na vida transitória, É o nume apostolar que governa o destino;

4 Com Hermes e Moisés, com Zoroastro e Buda, Pensa, corrige, ensina, experimenta, estuda, E brilha com Jesus no Evangelho Divino. Brasil

1 Desde o Nilo famoso, aberto ao sol da graça Da virtude ateniense à grandeza espartana, O anjo triste da paz chora e se desengana, Em vão plantando o amor que o ódio despedaça,

2 Tribos, tronos, nações… tudo se esfuma e passa. Mas o torvo dragão da guerra soberana Ruge, fere, destrói e se alteia e se ufana, Disputando o poder e denegrindo a raça.

3 Eis, porém, que o Senhor, na América nascente, Acende nova luz em novo continente Para a restauração do homem exausto e velho.

4 E aparece o Brasil que, valoroso, avança, Encerrando consigo, em láureas de esperança, O Coração do Mundo e a Pátria do Evangelho. Olavo Bilac Os sonetos: No Horto; O beijo de Judas e A crucificação foram publicadas também em 2010 pela editora VL na 3ª Parte do livro “Chico Xavier: O Primeiro Livro” e encontram-se devidamente relacionadas no Anexo A.