Parnaso de Além-Túmulo · Autores diversos · Chico Xavier

Capítulo 24 de 58

Casimiro de Abreu

Poeta fluminense, desencarnou aos 18 de outubro de 1860, com 21 anos de idade, na cidade de Nova Friburgo, acometido de tuberculose pulmonar. Figura literária das mais típicas do seu tempo, o autor malogrado de Primaveras ainda aqui se afirma no seu profundo quão suave nativismo lírico. Suas composições possuem “um saboroso estilo colorido, sensível e personalíssimo”, disse Ronald de Carvalho. À minha terra

1 Que terno sonho dourado Das minhas horas fagueiras, No recanto das palmeiras Do meu querido Brasil! A vida era um dia lindo Num vergel cheio de flores, Cheio de aroma e esplendores Sob um céu primaveril.

2 A infância, um lago tranquilo Onde começa a existência, Onde os cisnes da inocência Bebem o néctar do amor. A mocidade era um hino De melodias suaves, Formadas de trinos de aves E de perfumes de flor.

3 O dia, manhã ridente, Numa canção de alvorada; A noite toda estrelada Após o doce arrebol; E na paisagem querida, Os ramos das laranjeiras E das frondosas mangueiras Douradas à luz do Sol!

4 Oh! que clarão dentro dalma, Constantemente cismando, O pensamento sonhando E o coração a cantar, Na delicada harmonia Que nascia da beleza, Do verde da Natureza, Do verde do lindo mar!

5 Oh! que poema a existência De infância e de mocidade, De ternura e de saudade, De tristeza e de prazer; Igual a um canto sublime, Como uma estrofe inspirada Na noite e na madrugada, Na tarde e no amanhecer.

6 De tudo me lembro e quanto! A transparência dos lagos, As carícias, os afagos E os beijos de minha mãe! Dos trinos dos pintassilgos, Da melodia das fontes, As nuvens nos horizontes Perdidos no azul do além.

7 Quando eu cruzava as campinas, Sem sombras de sofrimento, Descalço, com o peito ao vento, Num tempo doce e feliz! Os pessegueiros floridos, As frondes cheias de amora, O manto de luz da aurora Os pios das juritis!

8 Se a morte aniquila o corpo, Não aniquila a lembrança: Jamais se extingue a esperança, Nunca se extingue o sonhar! E à minha terra querida, Recortada de palmeiras, Espero em horas fagueiras Um dia poder voltar. A Terra (Aos pessimistas)

1 Se há noite escura na Terra, Onde rugem tempestades, Se há tristezas, se há saudades, Amargura e dissabor, Também há dias dourados De sol e de melodias, Esperanças e alegrias. Canções de eterno fulgor!

2 A Terra é um mundo ditoso, Um paraíso de amores, Jardim de risos e flores Rolando no céu azul. Um hino de força e vida Palpita em suas entranhas, Retumba pelas montanhas, Ecoa de Norte a Sul.

3 Os sonhos da mocidade, As galas da Natureza, Livro de excelsa beleza Com páginas de esplendor, Onde as histórias são cantos De gárrulos passarinhos, Onde as gravuras são ninhos Estampados no verdor;

4 Onde há reis que são poetas, E trovadores alados, Heróis ternos, namorados, Gargantas de ouro a cantar, Saudando a aurora que surge Como ninfa luminosa, A olhar-se toda orgulhosa No espelho do grande mar!

5 Onde as princesas são flores, Que se beijam luzidias Perfumando as pradarias Com seu hálito de amor; Desabrochando às centenas, Na estrada onde o homem passa, Oferecendo-lhe graça, Sorrindo, cheias de olor.

6 O dia todo é alvorada De doces encantamentos; A noite, deslumbramentos Da Lua, em seus brancos véus! A tarde oscula as estrelas, Os astros o Sol-nascente, O Sol o prado ridente, O prado perfuma os céus!…

7 Quem vive num éden desses, É sempre risonho e forte, Jamais almeja que a morte Na vida o venha tragar; Sabe encontrar a ventura Nesse jardim de pujanças, E enche-se de esperanças Para sofrer e lutar.

8 Se há noite escura na Terra, Abarrotada de dores, De lágrimas e amargores, De triste e rude carpir, Também há dias dourados De juventude e esplendores, De aromas, risos e flores, De áureos sonhos no porvir!… Lembranças

1 No sacrário das lembranças, Revejo-te, trigueirinha, De negras e longas tranças, Moreninha.

2 Teus lindos pés descalçados, Pisando de manhãzinha A verde relva dos prados, Moreninha.

3 Os primorosos cabelos Enfeitados, à tardinha, De miosótis singelos, Moreninha.

4 De olhar sedutor e insonte, Quando o teu passo ia e vinha Em busca da água da fonte, Moreninha.

5 Teu vulto de camponesa Era o porte de rainha, Rainha da Natureza, Moreninha.

6 Inda ouço os sons primeiros Da tua voz na modinha Modulada nos terreiros, Moreninha.

7 Lavando a roupa às braçadas, Os fios d’água fresquinha, Sob as mangueiras copadas, Moreninha.

8 Os teus risos adorados, Desferidos à noitinha, Nos bandos de namorados, Moreninha.

9 A tua oração ditosa, Nas missas da capelinha, Tão faceira! Tão formosa! Moreninha.

10 A placidez do teu rosto Com teus modos de avezinha, Fitando a luz do sol-posto, Moreninha.

11 O teu samburá de flores Que levavas à igrejinha, Enchendo a nave de odores, Moreninha.

12 O vestidinho de chita, De rosas estampadinha, Fazendo-te mais bonita, Moreninha.

13 O nosso idílio encantado, Quando te achavas sozinha, Sob o luar prateado, Moreninha.

14 Que terna recordação De minhalma se avizinha! De saudade, de paixão, Moreninha.

15 Ai! Ai! meu Deus, quem me dera Rever-te, doce rainha, Rainha da Primavera, Moreninha.

Recordando

1 Meu Deus, deixai que eu me esqueça Da minha vida de agora, Que apenas o meu passado Eu possa alegre rever; Deixai que me identifique Com os raios da luz de outrora, Daquela risonha aurora Do meu passado viver.

2 Que eu sinta de novo a vida Na infância linda e ditosa, Na alegria inalterável Do lugar onde nasci; Quero rever novamente A paisagem luminosa, Sentir a emoção grandiosa De tudo o que já senti!…

3 Ah! que eu possa hoje olvidar Imensidades, Esferas, Concepções mais perfeitas No progresso que alcancei; Que das ruínas, dos escombros, Minh’alma retire as heras, E contemple as primaveras Da vida que já deixei.

4 Quero aspirar os perfumes Dos cendais cheios de flores, Na fresca sombra dos vales, Sob a luz do céu de anil! Rever o sítio encantado Da minha estância de amores, Meus sonhos encantadores, Minha terra, meu Brasil!

5 Escutar os sinos calmos Sob a alvura das capelas, Enchendo as longes devesas, De convites à oração; Sentar-me no prado agreste, Beijar as flores singelas, Mirar a luz das estrelas, Ouvir a voz da amplidão!

6 Correr sob o sol-nascente Até que chegue o luar, Procurando os passarinhos E as borboletas tafuis. Que esperança, que ventura! Viver, sofrer, e amar A campina, o Sol, o mar, Campas verdes, céus azuis…

7 Ser homem e ser criança, Toucar-se a alma das galas Da poesia inexprimível, Da alvorada e do arrebol… Oh! Natureza da Terra, Que tesouros não exalas, Na carícia dessas falas Do passarinho e do Sol!

8 Eu gozo de quando em quando, Revendo essa claridade, Da existência transcorrida Guardada no coração; E dos cimos desta vida, Na excelsa Imortalidade, Verto prantos de saudade À luz da recordação. Casimiro de Abreu