Parnaso de Além-Túmulo · Autores diversos · Chico Xavier

Capítulo 23 de 58

Casimiro Cunha

(Relação das poesias) Na eterna luz Anjinhos Ascensão Quadras Supremacia da Caridade Versos Símbolo Pensamentos espíritas Sombra e luz O beijo da morte O engano Flores silvestres Ao meu caro Quintão Espiritismo Aos companheiros da Doutrina Poeta vassourense, nasceu aos 14 de abril de 1880 e desencarnou em 1914. Pobre, ao demais espírita confesso, não teve maior projeção no cenáculo literário do seu tempo, mau grado à suavidade da sua musa e inatos talentos literários. Há, na sua existência terrena, uma triste particularidade a assinalar, qual a de haver perdido uma vista aos 14 anos, por acidente, para de todo cegar da outra aos 16. Órfão de pai aos 7 anos, apenas frequentou escolas primárias. Era um espírito jovial e forte no infortúnio, que ele sabia aproveitar no enobrecimento da sua fé. Se tivesse tido maior cultura, atingiria as maiores culminâncias do firmamento literário. Na eterna luz

1 Quando parti deste mundo Em busca da Imensidade, A alma ansiosa da Verdade, Do azul imenso dos céus, Fugi do pesar profundo, Lamentando os sofrimentos, As mágoas, os desalentos, Confiado no amor de Deus.

2 Mal, porém, abrira os olhos Em meio de luzes puras, Nas radiantes alturas, Em célico resplendor, Compreendi que os abrolhos Que a Terra me oferecera, Eram mesmo a primavera Do meu sonho todo em flor.

3 Disseram-me então: — «Ó crente Que chegais a estas plagas, Fugindo das grandes vagas Do mar revolto das lutas, Aportai serenamente Nesta estância do Senhor, Pois aqui existe o amor Nestas almas impolutas!

4 Aqui existe a pureza A meiga flor da Bondade, O aroma da Caridade Perfumando os corações; Não se conhece a torpeza Da lâmina — hipocrisia, Que mata toda a alegria, Provocando maldições.

5 Aqueles que já sofreram No dever nobilitante, Cujo peito sempre amante Só conheceu dissabores; Aqueles que conheceram As feridas dolorosas, Dessas mágoas escabrosas De um triste mundo de dores,

6 Encontram nestas moradas Tão formosas, resplendentes, Os clarões resplandecentes De afetos imorredouros! As almas imaculadas São flores das boas-vindas, Luminosas, sempre lindas Ofertando-lhes tesouros:

7 Os tesouros peregrinos Formados de amor e luz Do Mestre Amado — Jesus, Arauto do Onipotente; Os reflexos divinos Quais lírios iluminados, Alvos, belos, deificados, Penetrarão sua mente.

8 Acordai, pois, ó vivente, Contemplai-vos nesta vida, Que vossa alma ensandecida Procure a luz que avigora. O Senhor sempre clemente, Concede-vos neste instante A bênção dulcificante Do seu amor — doce aurora.

9 Sacudi o pó da estrada Que trilhastes na amargura, Pois agora na ventura Fruireis consolações; Nesta Esfera iluminada, Que aportais neste momento, Não vereis o sofrimento Retalhando os corações.

10 Só vereis clarões de luz A despontar nestas almas, Tornadas em belas palmas Das mansões do Criador! Bendizei, pois, a Jesus, O Mestre da Caridade, O Luzeiro da Bondade, O grande mestre do Amor!»

11 Então, eu vi que na Terra Em meio da iniquidade, Na tremenda tempestade Das dores e expiações, A nossa alma que erra, Tão longe das grandes luzes, Só aproveita das cruzes, Das amargas provações.

12 Venturoso, abençoei A dor que amaldiçoara, Que renegar eu tentara Como os míseros ateus, E feliz então busquei As bênçãos, flores brilhantes, Alvoradas fulgurantes Do amor imenso de Deus. Anjinhos

1 Ó mães que chorais na vida Os vossos ternos anjinhos, Que quais meigos passarinhos Cindiram o espaço azul, Deixando-vos sem conforto, O peito dilacerado, O coração desolado, A alma tristonha e exul,

2 Reconhecei que na Terra Só se conhecem as dores, Os prantos, os amargores, As frias noites sem luz; E os vossos filhinhos ternos, Quais centelhas luminosas, São as flores mais formosas Das moradas de Jesus.

3 São mensageiros felizes Nas radiantes alturas, Em meio das luzes puras, De outras rútilas Esferas. Resplandecendo imortais Nos Espaços deslumbrantes, Quais reflexos brilhantes Das celinas primaveras.

4 Visitam os vossos lares Como gênios protetores, Ofertando-vos as flores Do seu afeto eternal; Osculam-vos ternamente, Insuflando-vos coragem, Ao transpordes a voragem Do abismo negro do mal;

5 Alegrai-vos, pois, ao verdes Quando partem sorridentes, Venturosos inocentes, Como fúlgidos clarões; Eles farão despertar As alvoradas formosas De luzes esplendorosas Dentro em vossos corações. Ascensão

1 Perguntai à flor virente, De pétalas multicores, Que com mágicos olores Perfumam vosso ambiente,

2 O que fazem cá no mundo, Tão viçosas, perfumadas, Pelas sendas desoladas Deste abismo tão profundo.

3 Como sorrisos dos Céus, Essas flores perfumosas Responderiam formosas: — «Nós marchamos para Deus!»

4 À ave que poetiza Com seus cânticos maviosos Vossos campos dadivosos Em beleza que harmoniza,

5 Se perguntásseis também, Ela vos retrucaria: — «Caminhamos na alegria, Para a Luz e para o Bem.»

6 Tudo pois, em ascensão, Marcha ao progresso incessante, À alvorada rutilante Da sublime perfeição.

7 Segui pois irmãos terrenos, Nessas trilhas luminosas, Caminhai sempre serenos, Entre lírios, entre rosas;

8 Entre os lírios da Bondade Entre as rosas da Ternura, Espargindo a caridade, Consolando a desventura.

9 Só assim caminharemos Nessa eterna evolução, E no Bem conquistaremos A suprema perfeição. Quadras

1 Ser cego e nada ver Na triste noite escura E ver depois a luz Da aurora de ventura;

2 Chorar na escuridão Em dores mergulhado, E após o sofrimento Ter gozo ilimitado;

3 Sorver dentro da treva O fel das amarguras, Depois, buscar o amor Nas lúcidas alturas;

4 É possuir tesouros De paz, de vida e luz, No sacrossanto abrigo Do afeto de Jesus.

Supremacia da Caridade

1 A fé é a força potente Que desponta na alma crente, Elevando-a aos altos Céus: Ela é chama abrasadora, Reluzente, redentora, Que nos eleva até Deus.

2 A esperança é flor virente, Alva estrela resplendente, Que ilumina os corações, Que conduz as criaturas Às almejadas venturas Entre célicos clarões.

3 A caridade é o amor, É o sol que Nosso Senhor Fez raiar claro e fecundo; Alegrando nesta vida A existência dolorida Dos que sofrem neste mundo!

4 A fé é um clarão divino, Refulgente, peregrino, Que irrompe, trazendo a luz; A caridade é a expressão Da personificação Do Mestre Amado — Jesus!

5 A esperança é qual lume, Ou capitoso perfume Que nos alenta na dor; A caridade é uma aurora Que resplende a toda hora, Nada empana o seu fulgor.

6 Seja, pois, abençoada Essa fúlgida alvorada A raiar eternamente! Caridade salvadora Pura bênção redentora Do Senhor Onipotente. Versos

1 Vivi na mansão das sombras, Desterrado; Na noite das trevas densas, Sepultado.

2 Entrei no sepulcro escuro, Nascendo; E dele fugi feliz, Morrendo.

3 É que a vida material É a prisão Onde a alma é encarcerada Na aflição;

4 E a vida da alma é a nossa Liberdade, Onde as luzes recebemos Da Verdade.

Símbolo

1 Sobre a lama de um monturo Um branco lírio sorria, Alvo, belo, delicado, Perfumando a luz do dia.

2 Vendo essa flor cariciosa No pantanal sujo e imundo. Via o símbolo do Bem Entre os males deste mundo.

3 Pois entre as trevas e as dores Da vida de provações, Pode existir a bondade Irradiando clarões.

4 E o coração que cultiva A caridade e o amor, É a flor cheia de aromas, Cheia de viço e frescor.

5 Que mesmo dentro da treva Do mundo ingrato, sem luz, É lírio resplandecente Do puro amor de Jesus. Pensamentos espíritas

1 Dobram sinos a finados, Com mágoa e desolação… Porque não sabem que a morte É a nossa libertação.

2 Toda a esperança da fé Que vive com a caridade, É realizada no mundo Da eterna felicidade.

3 A palavra que reténs É tua serva querida, Mas aquela que te foge É dona da tua vida.

4 Todo suicida presume Que a morte é o fim do amargor, Sem saber que o desespero É porta para outra dor.

5 Quem sofre resignado, Após a morte descansa; Quem luta, sem naufragar, Verá decerto a bonança.

6 Quem tem a flor da humildade Medrando no coração, Tem o jardim das virtudes Da suprema perfeição.

7 Volve ao Céu todo piedoso, Coração que andas ferido!… Deus cura todas as chagas Do mal que tens padecido. Sombra e luz

1 Vem a noite, volta o dia, Cresce o broto, nasce a flor, Vai a dor, surge a alegria Dourando a manhã do Amor.

2 Assim, depois da amargura Que a vida terrena traz, A alma encontra na Altura A luz, a ventura e a paz. O beijo da morte

1 Para quem viveu na Terra Em meio dos sofredores E somente frias dores No mundo ingrato colheu, O frio beijo da morte É o beijo da liberdade, É um raio de claridade Que vem da altura do Céu.

2 A vida terrena é a noite Que precede as madrugadas Das regiões aureoladas De amor, de verdade e luz: Sem paradoxo, portanto, O gozo é o próprio martírio, Que se fez excelso lírio Na devoção de Jesus.

3 A morte é a deusa celeste Da vida, da plenitude Que a alegria da Virtude Faz, linda, desabrochar; Seu beijo é um raio de luz Do dealbar das alturas, Que na noite de amarguras As almas vem despertar. O engano

1 Às vezes diz a Ciência Que a crença é engano profundo, Esperando uma outra vida Noutros Planos noutro mundo…

2 E diz arrogante à Fé: — «Estás louca! A morte apenas É o sono eterno e tranquilo Depois das lutas terrenas.»

3 Ao que ela replica, humilde: — «Mais tarde, Ciência amiga, Serás o sósia da Fé, Andarás ao lado meu. Se for sono dormiremos, Mas se não for, pois não é, De quem será esse engano? Será meu ou será teu?» Flores silvestres

1 Já viste, filho, a floresta Varrida pelas tormentas? Partem-se troncos anosos, Caem copas opulentas.

2 Mil árvores grandiosas Esfacelam-se nos ares, Tombam gigantes da selva, Venerandos, seculares.

3 Mas as florinhas silvestres São apenas baloiçadas, Continuando graciosas A tapetar as estradas.

4 Zune o vento? Geme a selva? Não sabe a pequena flor, Que perfumando o caminho Compõe um hino de amor.

5 Flores silvestres!… Imagem Dos bons e dos pequeninos, Que sobre o mundo derramam As graças dos dons divinos.

6 Na selva da vida humana Caem grandes, poderosos; Arcas repletas de ouro. E frontes ébrias de gozos.

7 Mas, os humildes da Terra, Dentro da fé que os conduz, Não caem… São refletores Da bondade de Jesus.

8 Flores silvestres da vida, Não sabem se há tempestade De ambições e se há no mundo Leis de ódio e iniquidade.

9 Nos dias mais tormentosos, Sê, filho, como esta flor: Chore o homem, grite o mundo, Palmilha a estrada do amor. Ao meu caro Quintão

1 Quintão, eu sei da saudade Que te aperta o coração, Dos nossos dias passados, Que tão distantes se vão.

2 Vassouras!… Belas paisagens Cheias de vida e de cor, Um céu azul e estrelado Cobrindo uns ninhos de amor.

3 Árvores fartas e verdes Pela alfombra dos caminhos, A ermida branca e suave De ternos, doces carinhos.

4 O nosso amigo Moreira E a sua barbearia, Onde uma vez me encontraste Na minha noite sombria.

5 Detalhes cariciosos Da vida singela e calma Vida de encantos divinos Que eu via com os olhos dalma.

6 Meus pobres versos — «Singelos», «Aves implumes» da dor, Que traduziam no mundo O meu pungente amargor.

7 A minha pobre Carlota, A companheira querida, O raio de claridade Da noite da minha vida.

8 Os artigos do Bezerra, De outros tempos, no «O País», O mestre da Velha Guarda Unida, forte e feliz.

9 A tua doce amizade À luz do Consolador, Teu coração generoso De amigo irmão e mentor.

10 Ah! Quintão, hoje os meus olhos Embebedam-se de luz, Pelas estradas sublimes Da santa paz de Jesus!

11 Mas não sei onde a saudade É mais forte nos seus véus, Se pelas sombras da Terra, Se pelas luzes dos Céus. Espiritismo

1 Espiritismo é uma luz Gloriosa, divina e forte Que clareia toda a vida E ilumina além da morte.

2 É uma fonte generosa De compreensão compassiva, Derramando em toda parte O conforto d’Água Viva.

3 É o templo da Caridade Em que a Virtude oficia, E onde a bênção da Bondade É flor de eterna alegria.

4 É árvore verde e farta Nos caminhos da esperança, Toda aberta em flor e fruto De verdade e de bonança.

5 É a claridade bendita Do bem que aniquila o mal, O chamamento sublime Da Vida Espiritual.

6 Se buscas o Espiritismo, Norteia-te em sua luz: Espiritismo é uma escola, E o Mestre Amado é Jesus. Aos companheiros da Doutrina

1 Examinada de perto, A luz da nossa Doutrina É sempre a lição que ensina A paz do caminho certo.

2 Necessário é discernir A mistura, a ganga, o véu; Muita vez a água do céu Torna-se em lama, ao cair.

3 O mal vem de ouvidos moucos Ou de olhos nevoados, Há sempre muitos chamados; Escolhidos? Muito poucos.

4 Verdade é que o coração, Que abrace a nossa Doutrina, Penetra numa oficina De esforço, luta, e ação.

5 Já não deve andar a esmo Nas estradas da ilusão, Mas buscando a perfeição Na perfeição de si mesmo.

6 Portanto, é nossa divisa Oração e Vigilância, No bem que é substância Da crença que diviniza.

7 No Evangelho de Jesus Feliz quem pode guardar A força de realizar Os grandes feitos da Luz. ………………………………………

8 Que no altar do coração Tenhamos o amor profundo Daquele que é a Luz do Mundo — Eis meu desejo de irmão. Casimiro Cunha [1] Ver nota 1 no final do volume. [É a nota a seguir.] — Esta poesia singela e, por assim dizer, intimamente pessoal, foi recebida em circunstâncias imprevistas e timbra episódios velhos de mais de 30 anos, que o médium não podia conhecer, atento mesmo a sua banalidade. Singelos e Aves Implumes são títulos de dois pequenos volumes de versos publicados em começos do século. Carlota é o nome da esposa do poeta cego, também cegada de uma vista, por acidente, depois de casada.