Parnaso de Além-Túmulo · Autores diversos · Chico Xavier
Capítulo 22 de 58
Carmen Cinira
(Relação das poesias)
Minha luz Aos Espíritos consoladores Cigarra morta Era uma vez… À Juventude O viajor e a Fé O sinal Na noite de Natal Nome literário de Cinira do Carmo Bordini Cardoso: nasceu no Rio de Janeiro, em 1902, e faleceu em 30 de agosto de 1933. Sua espontaneidade poética era tão grande que ela própria acreditava serem os seus versos de origem mediúnica. Glorificou o Amor, a Renúncia, o Sacrifício e a Humildade, em obras como: Crisálida, Grimalda de Violetas, Sensibilidade. Minha luz
1 Eu era, Dor, a alma rubra e inquieta, A pomba predileta Do prazer, da ilusão e da alegria… Meu coração, alegre cotovia, Saudava alvoroçado O segredo da noite e a luz clara do dia, Quando chegaste de mansinho, Pisando sutilmente o meu caminho…
2 E eu te enxerguei, despreocupada, Em meu engano, em minha fantasia: Primeiramente, Foste, austera e inclemente, A um dos belos tesouros que eu possuía E mo roubaste para sempre… Em fúria iconoclasta, Como o simum que arrasta As cidades repletas de tesouros Confundindo-as no pó, Foste aos meus ídolos mais caros, Destruindo-os sem dó.
3 Prosseguiste, ó divina estatuária, Na tua obra silente e solitária, E quebraste Minhas cítaras de ouro Meus mármores de Paros, Meus cofres de alabastros, Minhas bonecas de biscuí, Minhas estatuetas singulares… E humilhaste Meus sonhos de mulher e de menina, Que eu pusera nos astros Em meio às melodias estelares!
4 Mas, desde que chegaste, Foste a sombra divina Que acompanhou meus passos ao sepulcro…
5 Tudo sofri, Ó Dor, por te querer, Porque depois que vieste Qual pássaro celeste Para abrir rosas de sangue no meu peito, Encheste a minha vida De um estupendo prazer, quase perfeito!
6 Aos poucos me ensinaste a abandonar Meus prazeres fictícios, Trocando-os pela luz dos sacrifícios! Por tudo eu te bendigo, ó Dor depuradora, Porque representaste em meu destino, De alma sofredora, O fanal peregrino Que me guiou constantemente Através das estradas espinhosas Para as manhãs radiosas Da Luz Resplandecente…
7 Sê, pois, bendita, ó Dor linda e gloriosa, Pois da volúpia estranha dos teus braços, Vim pelas mãos da morte complacente Para a vida sublime dos Espaços!… Aos Espíritos consoladores
1 Donde éreis vós, ó formas imprecisas De arcanjos tutelares, Cujas vozes suaves como brisas Trouxeram-me nas dores, No auge do meu sofrer, nos meus penares, A irradiação de brando refrigério?!…
2 Frontes aureoladas de esplendores, Seres cheios de amor e de mistério, Cujas mãos compassivas Ungiram meu coração resignado Com o bálsamo do olvido do passado, E com os místicos olores Das meigas sempre-vivas Da fé mais luminosa e mais ardente…
3 Seríeis o fantasma imaginário Da mórbida exaltação dalma do crente? Não, porque sois os cireneus piedosos Dos que vão em demanda do Calvário Da Redenção, nos sofrimentos rudes: Vindes das mais remotas altitudes De sublimados mundos luminosos!…
4 Seres do Amor, jamais traduziria O cântico de luz Que trouxestes ao leito da agonia Que eu transpus, Cheia de desenganos e gemidos!… Verto ainda os meus prantos comovidos Lembrando-me do vosso Stradivárius, Repetindo as cadências dos hinários Dos orbes da Ventura e da Harmonia, Onde habitais, glorificando o Amor Que dalma faz um ninho de alegria E foco de esplendor!
5 Em que sol deslumbrante, em qual Esfera Viveis a vossa eterna primavera? Ó irmãos consoladores, Que vindes confortar os pecadores Penitentes da vida transitória, Dai-me um pouco de luz da vossa glória, Estendei-me uma única migalha Da vossa paz, que nutre e que agasalha Os corações iguais ao meu!…
6 Tenho sede do amor que enfeita o Céu! Espíritos da luz radiosa e infinda, Minhalma é fraca e pobre ainda; Todavia, imortal, Quero ter dessa luz resplandecente, E quero embriagar-me inteiramente Com os vinhos da alegria celestial. Cigarra morta
1 Chamam-me agora aí Cigarra morta, E não podia haver melhor definição, Porque caí estonteada à porta Do castelo em ruínas, Do desencanto e da desilusão!…
2 Minhas futilidades pequeninas… Meus grandes desenganos…
Eu mesma inda não sei Se é ventura morrer na flor dos anos… Sei apenas que choro O tempo que perdi, Cantando em demasia a carne inutilmente; E vivo aqui somente, De quanto idealizei De belo, de perfeito, grande e santo, Que inda hei-de realizar Com a rima do meu verso e a gota do meu pranto.
3 Dá-me força, Senhor, Para concretizar meu anseio de amor: Evita-me a saudade Da minha improdutiva mocidade! Eu não quero sentir, Como cigarra que era, A falta das canículas doiradas Sob a luz de ridente primavera. Já que tombei cansada de cantar, Calando amargamente, Perdoa, Deus de Amor, o meu pecado: Que eu olvide a cigarra do passado, Para ser uma abelha previdente. Era uma vez…
1 Era uma vez Carmen Cinira. Um coração Cheio de sonho e flor, que mal se abrira Nos jardins encantados da ilusão… Estraçalhou-se para sempre Na voragem Das trevas, dos abrolhos!…
2 Era uma vez Carmen Cinira… Uma suposta imagem Da perene alegria, Mas que trouxe em seus olhos, Eternamente, Essa amarga expressão de alma doente, Cheia de pranto e de melancolia!… Carmen Cinira! Carmen Cinira! Que é da minha cigarra cantadeira? Embalde te procuro.
Porque cantaste assim a vida inteira, Cigarra distraída do futuro? Perturbada, Aturdida, Busco a mim mesma aqui nestoutra vida… Onde estou, onde estou?
Minha vida terrena se acabou E sinto outra existência revelada!
3 Não sei porque me sinto amargurada… Sinto que a luz me guia Para a paz, para um mundo de alegria. Mas, ó imortalidade, Se na Terra eu te via Como a aurora divina da verdade, Não julguei que inda a morte me abriria Esse cenário deslumbrante De outros sóis e de outros seres, E vejo agora Que não amei bastante, E não cumpri à risca os meus deveres!
4 A fagulha de crença Que eu possuía Devia transformar numa fornalha imensa De fé consoladora, E incendiar-me para ser luzeiro.
5 Mas, ó Senhor da paz confortadora, Eu vi chegar o dia derradeiro Em minha dor, na máscara de festa, E a morte me apanhou Como se apanha uma ave na floresta. Experimento a grande liberdade! Todavia, Senhor, ampara-me e protege Minha triste humildade!
6 Eu te agradeço a paz que já me deste, Mas eis que ainda te imploro comovida, Porque me sinto em fraca segurança; Deixa que eu guarde ainda nesta vida Meu escrínio de estrelas da Esperança. À Juventude Juventude linda e ardente, Mocidade querida que eu exorto, Meu coração de carne, esse está morto, Mas minhalma que é eterna está presente. Zelai pelo plantio, ó juventude, Das flores perfumadas da virtude, Porque depois dos sonhos terminados Em nossos ermos e últimos caminhos, Ai! como nos ferem os espinhos Das belas rosas rubras dos pecados! O viajor e a Fé
1 — «Donde vens, viajor triste e cansado?» — «Venho da terra estéril da ilusão.» — «Que trazes?» — «A miséria do pecado, De alma ferida e morto o coração. Ah! quem me dera a bênção da esperança, Quem me dera consolo à desventura!»
2 Mas a fé generosa, humilde e mansa, Deu-lhe o braço e falou-lhe com doçura: — «Vem ao Mestre que ampara os pobrezinhos, Que esclarece e conforta os sofredores!… Pois com o mundo uma flor tem mil espinhos, Mas com Jesus um espinho tem mil flores!» O sinal
1 Quando chegamos do País do Gozo, Nossa alma sem repouso Traz o sinal das trevas do pecado.
2 Nossa alegria é um riso envenenado. A palavra disfarça o coração E a nossa dor é desesperação.
3 Tudo é sombra. A verdade não tem voz. Muita vez, tudo é queda dentro em nós.
4 Mas os que vêm do Mundo dos Deveres Guardam a luz de místicos prazeres. Não têm palmas da Terra impenitente… Como tudo, porém, é diferente!…
5 Sua alegria é um fruto adocicado, Sua palavra é um livro iluminado, Sua dor alivia as outras dores.
6 Trazem o amor de todos os amores, Revelando na vida transitória O sinal do Calvário aberto em glória! Na noite de Natal
1 Noite de paz e amor! Repicam sinos, Doces, harmoniosos, cristalinos, Cantando a excelsitude do Natal!… A estrela de Belém volta, de novo, A brilhar, ante os júbilos do povo, Sob a crença imortal.
2 De cada lar ditoso se irradia A glória da amizade e da harmonia, Em festiva oração; Une-se o noivo à noiva bem-amada, Beija o filho a mãezinha idolatrada, O irmão abraça o irmão.
3 Dentro da noite, há corações ao lume E há sempre um bolo, em vagas de perfume, Sob claro dossel…
Nascem canções e flores de mansinho, Em édenes fechados de carinho, De esperança e de mel.
4 Mas, lá fora a tristeza continua… Há quem chora sozinho! Em plena rua, Ao pé da multidão; Há quem clama piedade e passa ao vento, Ralado de tortura e sofrimento, Sem a graça de um pão.
5 Há quem contempla o céu maravilhoso, Rogando à morte a bênção do repouso Em terrível pesar!
Ah! como é triste a imensa caravana, Que segue aflita, sob a treva humana Sem consolo e sem lar…
6 Tu que aceitaste a luz renovadora Do Rei que se humilhou na manjedoura Para amar e servir, Volve o olhar compassivo à senda escura, Vem amparar os filhos da amargura, Que não podem sorrir.
7 Desce do pedestal que te levanta E estende a mão miraculosa e santa Ao desalento atroz; Para unir-nos no Amor, fraternalmente, Desceu Jesus do Céu Resplandecente E imolou-se por nós.
8 Vem medicar quem geme na calçada!… Oferece à criança abandonada Um velho cobertor; Traze a quem sofre a lúcida fatia Do teu prato de sonho e de alegria, Temperado de amor.
9 Visita as chagas negras da mansarda Onde a miséria súplice te aguarda Em nome de Jesus.
Há muita criança enferma, quase morta, Que só pede um sorriso brando à porta, Para tornar à luz.
10 Natal!.. Prossegue o Mestre, de viagem, Em vão buscando um quarto de estalagem, Um ninho pobre em vão!…
E encontra sempre a cruz, ao fim da estrada, Por não achar socorro, nem pousada Em nosso coração.
Carmen Cinira