Parnaso de Além-Túmulo · Autores diversos · Chico Xavier
Capítulo 25 de 58
Castro Alves
Poeta baiano, desencarnou a 6 de julho de 1871, com 24 anos de idade. Mocidade radiosa, o autor consagrado de Espumas Flutuantes exerceu nas rodas literárias do seu tempo a mais justa e calorosa das projeções. Nesta poesia sente-se o crepitar da lira que modulou — O Livro e a América. Marchemos!
1 Há mistérios peregrinos No mistério dos destinos Que nos mandam renascer: Da luz do Criador nascemos, Múltiplas vidas vivemos, Para à mesma luz volver.
2 Buscamos na Humanidade As verdades da Verdade, Sedentos de paz e amor; E em meio dos mortos-vivos Somos míseros cativos Da iniquidade e da dor.
3 É a luta eterna e bendita, Em que o Espírito se agita Na trama da evolução; Oficina onde a alma presa Forja a luz, forja a grandeza Da sublime perfeição.
4 É a gota d’água caindo No arbusto que vai subindo. Pleno de seiva e verdor; O fragmento do estrume, Que se transforma em perfume Na corola de uma flor.
5 A flor que, terna, expirando, Cai ao solo fecundando O chão duro que produz, Deixando um aroma leve Na aragem que passa breve, Nas madrugadas de luz.
6 É a rija bigorna, o malho, Pelas fainas do trabalho, A enxada fazendo o pão; O escopro dos escultores Transformando a pedra em flores, Em Carraras de eleição.
7 É a dor que através dos anos, Dos algozes, dos tiranos, Anjos puríssimos faz, Transmutando os Neros rudes Em arautos de virtudes, Em mensageiros de paz.
8 Tudo evolui, tudo sonha Na imortal ânsia risonha De mais subir, mais galgar; A vida é luz, esplendor, Deus somente é o seu amor, O Universo é o seu altar.
9 Na Terra, às vezes se acendem Radiosos faróis que esplendem Dentro das trevas mortais; Suas rútilas passagens Deixam fulgores, imagens, Em reflexos perenais.
10 É o sofrimento do Cristo, Portentoso, jamais visto, No sacrifício da cruz, Sintetizando a piedade, E cujo amor à Verdade Nenhuma pena traduz.
11 É Sócrates e a cicuta, É César trazendo a luta, Tirânico e lutador; É Cellini com sua arte, Ou o sabre de Bonaparte, O grande conquistador.
12 É Anchieta dominando, A ensinar catequizando O selvagem infeliz; É a lição da humildade, De extremosa caridade Do pobrezinho de Assis.
13 Oh! bendito quem ensina, Quem luta, quem ilumina, Quem o bem e a luz semeia Nas fainas do evolutir: Terá a ventura que anseia Nas sendas do progredir.
14 Uma excelsa voz ressoa, No Universo inteiro ecoa: «Para a frente caminhai! «o amor é a luz que se alcança, «Tende fé, tende esperança, «Para o Infinito marchai!» A morte
1 No extremo pólo da vida Diz a Morte: — «Humanidade, Sou a espada da Verdade E a Têmis do mundo sou; Sou balança do destino, O fiel desconhecido, Lanço Cômodo no olvido E aureolo a fronte de Hugo!
2 O cronômetro dos séculos Não me torna envelhecida; Sou morte — origem da vida, Prêmio ou gládio vingador. Sou anjo dos desgraçados Que seguem na Terra errantes, Desnorteados viajantes Dos Niágaras da dor!
3 Também sou braço potente Dos déspotas e opressores, Que trazem os sofredores No jugo da escravidão; Aos bons, sou compensação, Consolo e alívio aos precitos, E nos maus aumento os gritos De dores e maldição.
4 Sepultura do presente, Do porvir sou plenitude, Da alegria sou saúde E do remorso o amargor. Sou águia libertadora Que abre, sobre as descrenças, O manto das trevas densas, E sobre a crença o esplendor.
5 Desde as eras mais remotas Coso láureas e mortalhas, E sobre a dor das batalhas Minha asa sempre pairou; Meu verbo é a lei da Justiça, Meu sonho é a evolução; Meu braço — a revolução, Austerlitz e Waterloo.
6 Homem ouve-me; se às vezes Simbolizo a guilhotina, Minha mão abre a cortina Que torna o mistério em luz; E por trabalhar com Deus, Na absoluta equidade, Sou prisão ou liberdade. Nova aurora ou nova cruz.
7 Se o cristal que imita o céu Da consciência tranquila É o luzeiro que cintila Na noite do teu viver, Oásis — dou-te o repouso, Estrela — estendo-te lume. Flor — oferto-te perfume, Luz da vida — dou-te o ser!
8 Mas, também se a tirania Arvora-se em lei na Terra, Eu mando a noite da guerra Fazer o sol do porvir; Arremesso a minha espada, Ateio fogo aos canhões, Faço cair as nações Como fiz Roma cair.
9 Foi assim que fiz um dia, Ao ver o trono imperfeito Estrangulando o Direito; Busquei Danton, Mirabeau… E junto ao vulto de Têmis Tomei o carro de Jove, E fiz o Oitenta e Nove Quando a França me ajudou.
10 Então, implacavelmente Fiz a Europa ensanguentada Ajoelhar-se humilhada, Diante de tanto horror. Das cidades fiz ossuários, Dos campos Saaras ardentes, Trucidei réus inocentes, Apaguei a luz do amor,
11 Até que um dia o Criador, Sempre amoroso e clemente, Que jamais teve presente, Nem passado nem porvir, Bradou do cume dos céus Num grito piedoso e forte: «Não prossigas! Basta, Morte, Agora é reconstruir.»
12 Portanto, homem, se tens Por bússola o Bem na vida, Olha o Sol de fronte erguida, Espera-me com fervor. Abrir-te-ei meus tesouros, Serei tua doce amante, Cujo seio palpitante Guardar-te-á — paz e amor.
13 Se às vezes se te afigura Que sou a foice impiedosa, Horrenda, fria, orgulhosa, Que espedaça os teus heróis, Verás que sou a mão terna Que rasga abismos profundos, E mostra biliões de mundos, E mostra biliões de sóis.
14 Conduzo seres aos Céus, À luz da realidade; Sou ave da Liberdade Que ao lodo da escravidão Venho arrancar os Espíritos, Elevando-os às alturas: Dou corpos às sepulturas, Dou almas para a amplidão!»
15 A Morte é transformação, Tudo em seu seio revive: Esparta, Tebas, Nínive, Em queda descomunal, Revivem na velha Europa; E como faz às cidades, Remodela humanidades No progresso universal. Castro Alves