Parnaso de Além-Túmulo · Autores diversos · Chico Xavier

Capítulo 15 de 58

Augusto de Lima

Poeta mineiro, nascido em Sabará, Minas, em 7 de abril de 1859 e desencarnado no Rio de Janeiro em 22 de abril de 1934. Magistrado íntegro, orador e publicista, militou na Política e foi membro de realce da Academia de Letras, tendo ocupado a presidência dessa Instituição. O doce missionário

1 Sertão hostil. Agreste serrania. Tendo por companhia A cruz do Nazareno, humilde e solitário, Ali vivia Anchieta, o doce missionário, Carinhoso pastor, espelho de bondade, Abençoando o bem, perdoando a maldade, Servo amado de Deus, imitador de Assis, Que na humildade achara a vida mais feliz.

2 Naquele dia, Era intenso o calor.

Ninguém! Nem uma sombra se movia, Tudo era languidez, desânimo e torpor.

3 Além se divisava a solidão da estrada, Amarela de pó, tristonha e desolada. Na clareira, onde o Sol feria os vegetais, Viam-se florescer bromélias e boninas, E, elevando-se aos céus, esguios espinhais Implorando piedade às amplidões divinas…

4 Eis que o irmão de Jesus, o humilde pegureiro Avista um mensageiro.

Dirige-se-lhe a casa, Pisando vagaroso o chão que o sol abrasa.

5 — «Meu protetor — diz ele —, o bom pagé Convertido por vós à luz da vossa fé, Que tem oferecido a Deus o seu amor, Agoniza na taba, ao longe, em aflição Ele espera de vós a paz do coração E implora lhe leveis a bênção do Senhor.»

6 — «Oh! doce filho meu, que vindes de passagem, Que Jesus vos ampare, ao termo da viagem…»

7 E isso dizendo, o pastor prestamente Toma da humilde cruz do Mártir do Calvário, Abandonando o ninho agreste e solitário, Para arrancar à dor o pobre penitente.

8 Há solidão na estrada, Ferem-lhe os pés as pontas dos espinhos. Que penosa jornada, Em tão rudes e aspérrimos caminhos!…

9 Pairam no ar excessos de calor, Nem árvores umbrosas e nem fontes, Somente o Sol ferino e destruidor, Que calcina, inflamando os horizontes.

10 Eis que a sede o devora; Entretanto, o pastor não se deplora; A terna e meiga efígie de Jesus É-lhe paz e alimento, amparo e luz.

11 Numa férvida prece, Ele ainda agradece:

— «Sê bendito, Senhor, por tudo o que nos dás, Seja alegria ou dor, tudo é ventura e paz. Eu vejo-te no alvor das manhãs harmoniosas, No azulíneo do céu, no cálice das rosas, Na corola de luz de todas as florinhas, No canto, todo amor, das meigas avezinhas, Na estação outonal, na loura Primavera, No coração do bom, que te ama e te venera, Na vibração dos sons, na irradiação da luz, Na dor, no sofrimento, em nossa própria cruz… Tudo vive a mostrar tua pródiga bondade, Eterno Pai de amor, de luz e caridade. Abençoados são o Inverno que traz frio E os calores do Sol nas estações do estio…»

12 Terminando a sorrir a espontânea oração, Inspirada em tão santa devoção, Anchieta escuta em torno os mais sutis rumores.

13 Eis que nos arredores Congregam-se apressadas Todas as avezinhas, E, asas aconchegadas, Juntinhas, Numa ideal combinação Formam um pálio protetor, Cobrindo o doce irmão Que ia ofertar amor, Luz e consolação, Em nome do Senhor.

14 Pelos caminhos, Foi-se aumentando O alado bando Dos bondosos e ternos passarinhos, Aureolando com amor o Discípulo Amado Modesto, casto, humilde e isento de pecado, Que ia seguindo, Lábios sorrindo, Em meiga mansuetude.

15 O enviado do Bem e da Virtude Agradecia ao Céu, o coração em luz, Evolando-se puro ao seio de Jesus.

16 Chegara ao seu destino. Ia caindo o dia… No poente de paz e de harmonia, Brilhava nova luz, feita de crença e amor: Era a bênção dos Céus, a bênção do Senhor… O santo de Assis

1 No suave mistério dos espaços, Santa Maria dos Anjos inda existe, Com a mesma luz divina dos seus traços, Glorificando as dores da alma triste, Repartindo a Virtude, a Graça e os Dons Que a palavra divina do Cordeiro Prometeu aos pacíficos e aos bons Do mundo inteiro…

2 Uma nova Porciúncula, dourada Pelos astros de mística alvorada, Aí se rejubila, Sob a paz de Jesus, terna e tranquila, Derramando no Além ignorado Os sonhos de Virtude e Perfeição, Daquela mesma Umbria do passado, Cheia de encantamento e de oração.

3 À luz dos sóis da etérea Natureza, Numa doce e ideal Eucaristia, O Esposo da Pobreza No seu manto de amor e de alegria Inda abre os braços para os pecadores…

4 «Irmão Sol, irmãos Anjos, irmãs Flores, Não nos cansemos de glorificar A caridade imensa do Senhor, Sua sabedoria e seu amor, Procurando salvar Os irmãos Homens mergulhados Entre as noites sombrias dos Pecados!…»

5 E à voz suave e dúlcida do Santo, A Terra escura e triste se povoa De anjos de amor, que enxugam todo o pranto E que levam consigo Todo o consolo amigo Da Esperança no Céu, singela e boa…

6 Das paragens etéreas Da sua ideal igreja, São Francisco de Assis abraça e beija O homem que sofre todas as misérias, Amparando-lhe a alma combalida Nos desertos de lágrimas da Vida, E o conduz Ao regaço divino de Jesus!…

7 Santo de Assis, divino «poverello», Nas amarguras do meu pesadelo De vaidade do mundo, que devasta Todo o bem, vi tua luz singela e casta Beijando as minhas lepras asquerosas… Uma chuva de lírios e de rosas Lavou-me o coração de pecador E guardei para sempre o teu amor.

8 Santo de Assis, irmão da Caridade, Que me curaste as lepras e a cegueira, Depois da morte, à luz da imensidade, Quero ainda abençoar-te a vida inteira… Augusto de Lima Obs. As duas mensagens acima, que passaram a fazer parte do Parnaso a partir desta edição “Revista e ampliada pelos Autores espirituais”, foram publicadas originalmente em 1938 pela LAKE e são respectivamente a 15ª e 14ª lição do livro “Lira Imortal”.