Parnaso de Além-Túmulo · Autores diversos · Chico Xavier
Capítulo 16 de 58
Augusto dos Anjos
(Relação das poesias)
Voz do Infinito Vozes de uma sombra Voz humana Alma Análise Evolução Homo Incógnita “Ego sum” Dentro da noite Homem-célula Na imensidade “Alter ego” Aos fracos da vontade Ao homem Matéria cósmica Raça adâmica A subconsciência Espírito Vida e morte Nos véus da carne Homem da Terra Nas sombras Confissão Homem-verme Gratidão a Leopoldina Civilização em ruínas A Lei A um observador materialista Ante o Calvário Atualidade Paraibano. Nasceu em 1884 e desencarnou em 1914, na cidade de Leopoldina, Minas. Era professor no Colégio Pedro II. Inconfundível pela bizarria da técnica, bem como dos assuntos de sua predileção, deixou um só livro — Eu — que foi, aliás, suficiente para lhe dar personalidade original. Voz do Infinito I
1 No excêntrico labor das minhas normas Na Terra, muita vez me consumia Perquirindo nas leis da Biologia As expressões orgânicas das formas.
2 O fenômeno apenas, porque o fundo Do número às eternas rutilâncias, Eram partes do Todo nas Substâncias Desde o estado prodrômico do mundo.
3 Com o espírito absconso em paroxismos, No rubro incêndio de batalha acesa, Via Deus adstrito à Natureza, Deus era a lei de eternos transformismos.
4 Concepção panteística, englobando As substâncias todas na Unidade, Perpetuando-se em continuidade, A essência onicriadora reformando.
5 O corpo, desde o embrião inicial, Era um mero atavismo revivendo; A alma era a molécula, sofrendo, Afastada do Todo Universal;
6 Dominava-me todo o medo horrível, Do meu viver, que eu via transtornado: Eu era um átomo individuado Em cerebralidade putrescível.
7 À luz dessa dourada ignorância, E com certezas lógicas, numéricas, Notava as pestilências cadavéricas Iguais à carne angélica da infância;
8 A sutilez do arminho que se veste, A coroa aromática das flores, Irmanadas aos pútridos fedores De emanações pestíferas da peste!
9 Extravagância e excesso jamais visto, De ideia que esteriliza e desensina, Loucura que igualava Messalina À pureza lirial da Mãe do Cristo.
10 Assim vivi na presunção que via, Dos cumes da Ciência e do saber, Os princípios genéricos do ser, No pantanal da lama em que eu vivia.
11 Vi, porém, a matéria apodrecer, E na individualidade indivisível Ouvi a voz esplêndida e terrível Da luz, na luz etérica a dizer: II
12 «Louco, que emerges de apodrecimentos, Alma pobre, esquelético fantasma Que gastaste a energia do teu plasma Em combates estéreis, famulentos…
13 Em teus dias inúteis, foste apenas Um corvo ou sanguessuga de defuntos, Vendo somente a cárie dos conjuntos, Entre as sombras das lágrimas terrenas.
14 Vias os teus iguais, iguais aos odres Onde se guarda o fragmento imundo, De todo o esterco que apavora o mundo E os tóxicos letais dos corpos podres.
15 E tanto viste os corpos e as matérias No esterquilínio generalizados, E os instintos hidrófobos, danados, Em meio de excrescências e misérias,
16 Que corrompeste a íntima saúde Da tua alma cegada de amargores, Que na Terra não viu os esplendores E as ignívomas luzes da virtude.
17 Olhos cegos às chamas da bondade De Deus e à divinal misericórdia, Que espalha o bem e as auras da concórdia No coração de toda a Humanidade.
18 Descansa, agora, vibrião das ruínas, Esquece o verme, as carnes, os estrumes Retempera-te em meio dos perfumes Cantando a luz das amplidões divinas.» III
19 Calou-se a voz. E sufocando gritos. Filhos do pranto que me espedaçava, Reconheci que a vida continuava Infinita, em eternos infinitos! Vozes de uma sombra
1 Donde venho? Das eras remotíssimas, Das substâncias elementaríssimas, Emergindo das cósmicas matérias. Venho dos invisíveis protozoários, Da confusão dos seres embrionários, Das células primevas, das bactérias.
2 Venho da fonte eterna das origens, No turbilhão de todas as vertigens, Em mil transmutações, fundas e enormes; Do silêncio da mônada invisível, Do tetro e fundo abismo, negro e horrível, Vitalizando corpos multiformes.
3 Sei que evolvi e sei que sou oriundo Do trabalho telúrico do mundo, Da Terra no vultoso e imenso abdômen; Sofri, desde as intensas torpitudes Das larvas microscópicas e rudes, À infinita desgraça de ser homem.
4 Na Terra, apenas fui terrível presa, Simbiose da dor e da tristeza, Durante penosíssimos minutos; A dor, essa tirânica incendiária, Abatia-me a vida solitária Como se eu fora bruto entre os mais brutos.
5 Depois, voltei desse laboratório, Onde me revolvi como infusório, Como animálculo medonho, obscuro, Té atingir a evolução dos seres Conscientes de todos os deveres, Descortinando as luzes do futuro.
6 E vejo os meus incógnitos problemas Iguais a horrendos e fatais dilemas, Enigmas insolúveis e profundos; Sombra egressa de lousa dura e fria, Grito ao mundo o meu grito que se alia A todos os anseios gemebundos: —
7 «Homem! Por mais que gastes teus fosfatos Não saberás, analisando os fatos, Inda que desintegres energias, A razão do completo e do incompleto, Como é que em homem se transforma o feto Entre os duzentos e setenta dias.
8 A flor da laranjeira, a asa do inseto, Um estafermo e um Tales de Mileto, Como existiram, não perceberás: E nem compreenderás como se opera A mutação do inverno em primavera, E a transubstanciação da guerra em paz;
9 Como vivem o novo e o obsoleto, O ângulo obtuso e o ângulo reto Dentro das linhas da Geometria; A luz de Miguel Ângelo nas artes, E o espírito profundo de Descartes No eterno estudo da Filosofia.
10 Porque existem as crianças e os macróbios Nas coletividades dos micróbios Que fazem a vida enferma e a vida sã; Os antigos remédios alopatas E as modernas dosagens homeopatas, Produto da experiência de Hahnemann.
11 A psíquico-análise freudiana Tentando aprofundar a alma humana Com a mais requintadíssima vaidade, E as teorias do Espiritualismo Enchendo os homens todos de otimismo, Mostrando as luzes da imortalidade.
12 Como vive o canário junto ao corvo, O céu iluminado, o inferno torvo Nos absconsos refolhos da consciência; O laconismo e a prolixidade, A atividade e a inatividade, A noite da ignorância e o sol da Ciência.
13 As epidermes e as aponevroses, As grandes atonias e as nevroses, As atrações e as grandes repulsões, Que reunindo os átomos no solo Tecem a evolução de pólo a pólo, Em prodigiosas manifestações;
14 Como os degenerados blastodermas Criam a descendência dos palermas No lupanar das pobres meretrizes, Junto dos palacetes higiênicos, Onde entre gozos fúlgidos e edênicos Cresce a alegre progênie dos felizes.
15 Os lombricóides mínimos, os vermes, Em contraposição com os paquidermes, Assombrosas antíteses no mundo; É o gigante e o germe originário, Os milhões de corpúsculos do ovário, Onde há somente um óvulo fecundo.
16 A alma pura do Cristo e a de Tibério, Vaso de carne podre, o cemitério, E o jardim recendendo de perfumes; O doloroso e tetro cataclismo Da beleza louçã do organismo, Repleto de dejetos e de estrumes.
17 As coisas substanciais e as coisas ocas, As ideias conexas e as loucas, A teoria cristã e Augusto Comte; E desconhecido e o devassado. E o que é ilimitado e o limitado Na óptica ilusória do horizonte.
18 Os terrenos povoados e o deserto, Aquilo que está longe e o que está perto; O que não tem sinal e o que tem marca; A funda simpatia e a antipatia, As atrofias e a hipertrofia, Como as tuberculoses e a anasarca.
19 Os fenômenos todos geológicos, Psíquicos, científicos, sociológicos, Que inspiram pavor e inspiram medo; Homem! Por mais que a ideia tua gastes, Na solução de todos os contrastes, Não saberás o cósmico segredo.
20 E apesar da teoria mais abstrusa Dessa ciência inicial, confusa, A que se acolhem míseros ateus, Caminharás lutando além da cova, Para a Vida que eterna se renova, Buscando as perfeições do Amor em Deus.» Voz humana
1 Uma voz. Duas vozes. Outras vozes. Milhões de vozes. Cosmopolitismos. Gritos de feras em paroxismos, Uivando subjugadas e ferozes.
2 É a voz humana em intérminas nevroses, Seja nas concepções dos ateísmos, Ou mesmo vinculada a gnosticismos Nos singultos preagônicos, atrozes.
3 É nessa eterna súplica angustiada Que eu vejo a dor em gozos, insaciada, Nutrir-se de famélicos prazeres.
4 A dor, que gargalhando em nossas dores, É a obreira que tece os esplendores Da evolução onímoda dos seres. Alma
1 Nos combates ciclópicos, titânicos, Que eu às vezes na Terra empreendia, Nos vastos campos da Psicologia, Buscava as almas, seres inorgânicos;
2 Nas lágrimas, nos risos e nos pânicos, Nos distúrbios sutis da hipocondria, Nas defectividades da estesia, Nos instintos soezes e tirânicos,
3 Somente achava corpos na existência, E o sangue em continuada efervescência Com impulsos terríficos e tredos.
4 Enceguecido e louco então que eu era, Que não via, dos astros à monera, As luzes dalma em trágicos segredos. Análise
1 Oh! Que desdita estranha a de nascermos Nas sombras melancólicas dos ermos, Nos recantos dos mundos inferiores, Onde a luz é penumbra tênue e vaga, Que, sem vigor, fraquíssima, se apaga Ao furacão indômito das dores.
2 Voracidade onde a alma se mergulha, Apoucado Narciso que se orgulha Na profundeza ignota dos abismos Da carne, que, estrambótica, apodrece; Que atrofiada, hipertrófica, parece Cataclismo dos grandes cataclismos.
3 Prendermo-nos ao fogo dos instintos, Serpentes entre escrófulas e helmintos, Multiplicando as lágrimas e os trismos, Tendo a alma — centelha, luz e chama — Amalgamada em pântanos de lama, Em sexualidades e histerismos.
4 Misturarmos clarões de sentimentos Entre vísceras, nervos, tegumentos, Na agregação da carne e dos humores, Atrocidade das atrocidades; Enegrecermos luminosidades Na macabra esterqueira dos tumores.
5 E nisto achar fantásticos prazeres, Ilusão hiperbólica dos seres Bestializados, materializados; Espíritos em ânsias retroativas, No transcorrer das vidas sucessivas, Nas ferezas do instinto, atassalhados…
6 Mas a análise crua do que eu via, Hedionda lição de anatomia, É mais que uma atrevida aberração; Que se quebre o escalpelo de meus versos: Entreguemos a Deus seus universos Que elaboram a eterna evolução. Evolução
1 Se devassássemos os labirintos Dos eternos princípios embrionários. A cadeia de impulsos e de instintos, Rudimentos dos seres planetários;
2 Tudo o que a poeira cósmica elabora Em sua atividade interminável, O anseio da vida, a onda sonora, Que percorrem o espaço imensurável;
3 Veríamos o evolver dos elementos, Das origens às súbitas asceses, Transformando-se em luz, em sentimentos, No assombroso prodígio das esteses;
4 No profundo silêncio dos inermes, Inferiores e rudimentares, Nos rochedos, nas plantas e nos vermes, A mesma luz dos corpos estelares!
5 É que, dos invisíveis microcosmos, Ao monólito enorme das idades, Tudo é clarão da evolução do cosmos, Imensidade nas imensidades!
6 Nós já fomos os germes doutras eras, Enjaulados no cárcere das lutas; Viemos do princípio das moneras, Buscando as perfeições absolutas. Homo I
1 Ao meu tétrico olhar abominável, O homem é fruto insólito da ânsia, Heterogeneidades da Substância, Argamassando um Todo miserável.
2 Psique dolorosa e inexpressável Na mais remota epíspase da infância, Desde a mais abscôndita reentrância Da sua embriogenia detestável.
3 Do intravascular princípio informe, Larva repugnante e vermiforme, Nos íntimos recôncavos da placenta.
4 À quietação dos túmulos inermes, Era um feixe de mônadas de vermes, Dissolvidos na terra famulenta. II
1 Após a introspecção do Além da Morte. Vendo a terra que os próprios ossos come, Horrente a devorar com sede e fome Minhas carnes em lúbrico transporte,
2 Vi que o «ego» era o alento flâmeo e forte Da luz mental que a morte não consome. Não há luta mavórtica que o dome, Ou venenada lâmina que o corte.
3 Depois da estercorária microbiana, De que o planeta triste se engalana Nas grilhetas do Infinitesimal,
4 Volve o Espírito ao páramo celeste, Onde a divina essência se reveste Da substância fluida, universal. Incógnita
1 Por que misterioso incompreensível Vomito ainda em náuseas para o mundo Todo o fel, toda a bílis do iracundo, Se eu já não tenho a bílis putrescível?
2 Insondável arcano! Por que inundo Meu exótico ser ultra-sensível Em plena luz e atendo ao gosto horrível De apostrofar o pobre corpo imundo?
3 Fluidos teledinâmicos me servem, Transmitindo as ideias que me fervem No cérebro candente, ígneo, em brasa…
4 De que concavidade do Universo Vem-me o açoite flamívomo do verso Chama da mesma chama que me abrasa? “Ego sum”
1 Eu sou quem sou. Extremamente injusto Seria, então, se não vos declarasse, Se vos mentisse, se mistificasse No anonimato, sendo eu o Augusto.
2 Sou eu que, com intelecto de arbusto, Jamais cri, e por mais que o procurasse. Quer com Darwin, com Haeckel, com Laplace, Levantar-me do leito de Procusto.
3 Sou eu, que a rota etérica transponho Com a rapidez fantástica do sonho, Inexprimível nas termologias,
4 O mesmo triste e estrábico produto, Atramente a gemer a mágoa e o luto, Nas mais contrárias idiossincrasias. Dentro da noite
1 É noite. À Terra volvo. E, lúcido, entro Em relação com o mundo onde concentro O espírito na queixa atordoadora Da prisioneira, da perpétua grade, — A misérrima e pobre Humanidade, Aterradoramente sofredora!
2 Ausculto a humana dor, que hórrida sinto, Dalma quebrando o cárcere do instinto, Buscando ávida a luz. Por mais que sonde, Mais o enigma do mundo se lhe aviva, Em diferenciação definitiva, Mais a luz desejada se lhe esconde!
3 É o quadro mesológico, tremendo, De tudo o que ficou no abismo horrendo Da tenebrosa noite dos gemidos; São uivos dos instintos jamais hartos, As dores espasmódicas dos partos, A desgraça dos úteros falidos.
4 É a ânsia afrodisíaca das bocas, Que nas bestialidades se unem loucas, As bactérias mais vis ambas trocando; As dolorosas mágoas dos enfermos, Sentindo-se em seus leitos como em ermos, Deplorando o destino miserando.
5 São os ais dos leprosos desprezados, Tendo os seus organismos devastados Pela fome insaciável dos micróbios, Sentindo os próprios membros carcomidos, Verminados, cruéis, apodrecidos, Plantando a dor no chão dos seus cenóbios…
6 É o grito, o anseio, a lágrima do homem Agrilhoado aos prantos que o consomem, Preso às dores que se lhe agrilhoaram; É a imprecação de todos os lamentos Dentro do mundo de padecimentos, Dos desejos que não se realizaram.
7 Pábulo sou dessa hórrida agonia E nos abismos de hiperestesia Experimento, além das catacumbas, Essa angústia indomável, atrocíssima, Junto da emanação requintadíssima Do ácido sulfídrico das tumbas,
8 Trazendo dentro dalma, envoltos na ânsia, Asco e dó, piedade e repugnância Pelo espírito e o corpo nauseabundo; E com os meus pensamentos desconexos, Vejo a guerra pestífera dos sexos, Abominando as coisas deste mundo.
9 Terra!… E chegam-me fortes cheiros acres, Como o cheiro de sangue dos massacres, Fétido, coagulado, decomposto, Escorrendo num campo de batalhas Onde as almas se vestem de mortalhas, Desde o sol-posto, ao próximo sol-posto.
10 Apavora-me o horror dessa miséria E fujo da imundície da matéria, Onde traguei meus grandes amargores; Fujo… E ainda transpondo o Azul sereno, Sinto em minhalma o tóxico, o veneno E a desdita dos seres sofredores. Homem-célula
1 Homem! célula ainda escravizada Nos turbilhões das lutas cognitivas, Egressa do arsenal de forças vivas Que chamamos — estática do Nada.
2 Sob transformações consecutivas, Vem dessa Origem indeterminada, Onde se oculta a luz indecifrada Dos princípios das luzes coletivas.
3 Vem através do Todo de elementos, Em sucessivos aperfeiçoamentos, Objetivando a Personalidade,
4 Até achar a Perfeição profunda E indivisível, pura, e se confunda, No transcendentalismo da Unidade. Na imensidade
1 Alma humana, alma humana, tu que dormes Entre os grandes colossos desconformes Da carne, essa voraz liberticida, Desse teu escafandro de albuminas, Em tua mesquinhez não imaginas A intensidade esplêndida da Vida!
2 Inda não vês e eu vejo panoramas De luz em gigantescos amalgamas De sóis, nas regiões imensuráveis, Auscultando os espaços mais profundos Na sinfonia harmônica dos mundos, Singrando a luz de céus incomparáveis.
3 Do teu laboratório de arterites, De gangliomas, úlceras, nevrites Ao lado de humaníssimas vaidades, Não podes perceber as ressonâncias, Quinta-essências de todas as substâncias Na fluidez das eletricidades.
4 Aqui não há vertigens de nevróticos, Nem bisonhos aspectos de cloróticos Nas estradas de eternos otimismos! A vida imensa é coro de grandezas, Submersão nas fluídicas belezas, Envergando os etéreos organismos.
5 Ante a minhalma fulgem ideogramas, Pensamentos radiosos como chamas, Combinações no Mundo das Imagens; São vibrações das almas evolvidas E que, concretizadas e reunidas, Formam luminosíssimas paisagens…
6 Em pleno espaço — Imensidade de ânsias, Sem aritmologias das distâncias, Sem limites, sem número, sem fim! Deus e Pai, ó Artista Inimitável, Deixai meu ser esdrúxulo, execrável, No prolongado e edênico festim! “Alter ego”
1 Da morte estranha que devora as vidas, Eis-me longe dos rudes estertores, Sem guardar os micróbios homicidas De eternos atavismos destruidores.
2 Tenho outro ser talhado pelas dores De minhas pobres células falidas, Que se putrefizeram consumidas Com os seus instintos atordoadores.
3 Não sou o homúnculo da hominal espécie, Da terrígena raça que padece Das mais pungentes heteromorfias.
4 Mas contérmino à carne, que me aterra, Envolvo-me nos fluidos maus da Terra, E sou o espectro das anomalias. Aos fracos da vontade
1 Homem, levanta o véu do teu futuro, Troca o prazer sensualista e obscuro Pelo conhecimento da Verdade. Foge do escuro ergástulo do mundo E abandona o Desejo moribundo Pelo poder da tua divindade.
2 Teu corpo é todo um orbe grande e vasto. Livra-o do mal onífero, nefasto, Com a espada resplendente da virtude; Que o sol da tua mente, eterno, esplenda, Dando a teu mundo a mágica oferenda Da alegria em divina plenitude.
3 Deixa o conjunto de ancestralidades Da carne — o eterno símbolo do Hades — Onde o Espírito clama, sofre e chora: Deixa que as tuas glândulas do pranto Te salvem do cadinho sacrossanto Da lágrima pungente e redentora.
4 Mas, sobretudo, observa o pensamento, Fonte da força e altíssimo elemento Em que toda molécula se cria: Da existência ele faz sepulcro abjeto Ou jardim luminoso e predileto, De arcangélicas flores de Harmonia.
5 Ouve-te sempre a ronda do mistério, Mas faze de tua alma um grande império De beleza, de paz e de saúde: Que as tuas agregações moleculares Vivam livres de todos os pesares, Com os tônicos sagrados da Virtude.
6 Tua vontade esclarecida e forte Triunfará das angústias e da morte Além dos Planos tristes da matéria, Mas a tua vontade enfraquecida É a meretriz no báratro da vida, Amarrada no catre da miséria! Ao homem
1 Tu não és força nêurica somente, Movimentando células de argila, Lama de sangue e cal que se aniquila Nos abismos do Nada eternamente;
2 És mais, és muito mais, és a cintila Do Céu, a alma da luz resplandecente, Que um mistério implacável e inclemente Amortalhou na carne atra e intranquila.
3 Apesar das verdades fisiológicas, Reflexas das ações psicológicas, Nas células primevas da existência,
4 És um ser imortal e responsável, Que tens a liberdade incontestável E as lições da verdade na consciência. Matéria cósmica
1 Glória à matéria cósmica, a energia Potencial que dá vida aos elementos, Base de portentosos movimentos Onde a Forma se acaba e principia.
2 Sistematização dos argumentos Que elucidam a Teleologia:
Dentro da força cósmica se cria A fonte-máter dos conhecimentos.
3 É do mundo o Od ignoto, o éter divino, Onde Deus grava a história do destino Dos seus feitos de Amor no Amor imersos.
4 Livro onde o Criador Inimitável Grava, com o pensamento almo e insondável, Seus poemas de seres e universos. Raça adâmica
1 A Civilização traz o gravame Da origem remotíssima dos Árias, Estirpe das escórias planetárias, Segregadas num mundo amargo e infame.
2 Árvore genealógica de párias, Faz-se mister que o cárcere a conclame, Para a reparação e para o exame Dos seus crimes nas quedas milenárias.
3 Foi essa raça podre de miséria Que fez nascer na carne deletéria A esperança nos Céus inesquecidos;
4 Glorificando o Instinto e a Inteligência, Fez da Terra o brilhante gral da Ciência, Mas um mundo de deuses decaídos. A subconsciência
1 Há, sim, a inconsciência prodigiosa Que guarda pequeninas ocorrências De todas as vividas existências Do Espírito que sofre, luta e goza.
2 Ela é a registradora misteriosa Do subjetivismo das essências, Consciência de todas as consciências, Fora de toda a sensação nervosa.
3 Câmara da memória independente, Arquiva tudo rigorosamente Sem massas cerebrais organizadas,
4 Que o neurônio oblitera por momentos, Mas que é o conjunto dos conhecimentos Das nossas vidas estratificadas. Espírito
1 Busca a Ciência o Ser pelos ossuários, No órgão morto, impassível, atro e mudo; No labor anatômico, no estudo Do germe, em seus impulsos embrionários;
2 Mas só encontra os vermes-funcionários No seu trabalho infame, horrendo e rudo, De consumir as podridões de tudo, Nos seus medonhos ágapes mortuários.
3 No meio triste de cadaverinas Acha-se apenas ruína sobre ruínas, Como o bolor e o mofo sob as heras;
4 A alma que é Vibração, Vida e Essência, Está nas luzes da sobrevivência, No transcendentalismo das Esferas. Vida e morte
1 A morte é como um fato resultante Das ações de um fenômeno vulgar, Desorganização molecular, Fim das forças do plasma agonizante.
2 Mas a vida a si mesma se garante Na sua eternidade singular, E em sua transcendência vai buscar A luz do espaço, fúlgida e distante!
3 Vida e Morte — fenômenos divinos, Na ascendência de todos os destinos, Do portentoso amor de Deus oriundos…
4 Vida e Morte — Presente eterno da Ânsia, Ou condição diversa da substância, Que manifesta o espírito nos mundos. Nos véus da carne
1 Na ilusão material da carne espúria, Sob o acervo das células taradas, Choram de dor as almas condenadas Ao cárcere de lágrima e penúria.
2 Entre as sombras das míseras estradas, Vê-se a guerra da inveja e da luxúria, Esfacelando com medonha fúria O coração das almas bem formadas.
3 É nesse turbilhão de dor e de ânsia Que o homem procura a eterna substância Da verdade suprema, alta, imortal.
4 Deixando corpos pelos cemitérios, A alma decifra o livro dos mistérios De luz e amor da vida universal. Homem da Terra
1 Na sombra abjeta e espessa das estradas, Vive o homem da Terra adormecido, No horrendo pesadelo de um vencido Entre milhões de células cansadas.
2 Prantos sinistros! Loucas gargalhadas, Pavorosos esgares de gemido, E lá vai o fantasma embrutecido Pelas sombras de lôbregas jornadas.
3 Homem da Terra! Trágico segredo De Miséria, de Horror, de Ânsia e de Medo, Feito à noite de enigma profundo!…
4 Anjo da Sombra, mísero e perverso És o sentenciado do Universo Na grade organogênica do mundo. Nas sombras
1 Bombardeios. Canhões. Trevas. Muralhas. E rasteja o dragão horrendo e informe, Espalhando a miséria e o luto enorme Em miserabilíssimas batalhas.
2 Visões apocalípticas do mal, Desenhadas por corvos vagabundos, Gritam a dor de povos moribundos Na sinistra hecatombe universal.
3 A civilização do desconforto, De mentira e veneno cerebrais, Vai carpindo nos tristes funerais Do seu fausto de sombra, amargo e morto.
4 Quadros de sangue, lágrimas e horrores Avassalam de dor o mundo inteiro, É o triunfo terrível do coveiro, Ossuários tremendos sob as flores.
5 Enquanto a desventura chora inerme, O homem, filosófico ou sem nome, Morre de frio e fel, de sede e fome, Nas vitórias fantásticas do verme.
6 Ai de vós nos abismos da aflição, Sem o raio de luz da crença amiga: Desventurado aquele que prossiga Sem o Cristo de Amor no coração. Confissão
1 Também eu, mísero espectro das dores No escafandro das células cativas, Não encontrei a luz das forças vivas, Apesar de ingentíssimos labores.
2 Bem distante das causas positivas, Na visão dos micróbios destruidores, Senti somente angústias e estertores, No turbilhão das sombras negativas.
3 Foi preciso «morrer» no campo inglório, Para encontrar esse laboratório De beleza, verdade e transformismo!
4 A Ciência sincera é grande e augusta, Mas só a Fé, na estrada eterna e justa, Tem a chave do Céu, vencendo o abismo!… Homem-verme
1 Desolação. Terror e morticínio. O homem sôfrego e bruto, de ânsia em ânsia, Sofre agora a sinistra ressonância De sua inclinação para o extermínio.
2 É o doloroso e trágico domínio Do «homo homini lupus» da ignorância. Exaltando a vaidade sem substância, Ídolo podre sobre o esterquilínio.
3 Por toda a parte, escorre o sangue horrível, Ao crepitar de rúbidos incêndios, Sobre a ideia cristã medrando em germe.
4 Em quase tudo, o pântano terrível, De lodo e lama, em sombra e vilipêndios, Atestando as vitórias do homem-verme! Gratidão a Leopoldina n
1 Sem o vulcão de dor de hórridas lavas, Beija, Augusto, este solo generoso, Que te guardou no seio carinhoso O escafandro das células escravas.
2 Aqui, buscaste o campo de repouso, Depois das vagas ríspidas e bravas No mundo áspero e vão, que detestavas. E onde sorveste o cálice amargoso.
3 Volta, Augusto, do pó que envolve as tumbas, Proclama a vida além das catacumbas, Nas maravilhas de seus resplendores.
4 Ajoelha-te e lembra o último abrigo, Esquece o travo do tormento antigo E oscula a destra de teus benfeitores. Civilização em ruínas
1 Todo o mundo moderno horrendo, em ruínas, Deixa agora escapar o horrendo fruto De miséria e de dor de pranto e luto, Feito de sânie e de cadaverinas.
2 Em vão, sobre o Calvário áspero e bruto, Sangrou Jesus em lágrimas divinas, Sob as ofensas torpes e tigrinas A tentarem-lhe o Espírito incorruto.
3 Saturada de treva, angústia e pena, A Civilização que se condena Suicida-se num báratro profundo…
4 Porque na luz dos Círculos da Terra, Nos turbilhões fatídicos da guerra, Ainda é Caim que impera sobre o mundo. A Lei
1 Em reflexões misérrimas, absorto, Raciocinava: — «O último tormento É regressar à carne e ao sofrimento Sem o triste fenômeno do aborto!…
2 Toda a amargura dalma é o desconforto De retornar ao corpo famulento, E apagar toda a luz do pensamento Nas células de um mundo amargo e morto!…»
3 Mas, uma voz da luz dos grandes mundos, Em conceitos sublimes e profundos, Respondeu-me em acentos colossais:
4 — «Verme que volves dos esterquilínios, Cessa a miséria de teus raciocínios, Não insultes as leis universais.» A um observador materialista
1 Busca o talão dos velhos calendários. Desde o instante infeliz de Adão e Eva, Encontrarás teus gritos solitários, Enfrentando o pavor da mesma treva.
2 Sempre a dúvida estranha que se ceva De terríveis problemas multifários, O mistério da célula primeva, Os impulsos dos sonhos embrionários.
3 Pára, amigo… Não sigas na consulta: O detalhe anatômico te insulta, A molécula morta desafia.
4 Se não tens coração que aceite a crença, Espera a mão da morte excelsa, e pensa, Que a carne volve ao pó, exangue e fria. Ante o Calvário
1 Da terra do Calvário ardente e adusta, Entre prantos pungentes, o Cordeiro Da Verdade e da Luz do mundo inteiro Vive o martírio de sua alma augusta.
2 Sobre a cruz infamérrima se ajusta A crueldade do espírito rasteiro Do homem que é sempre o tigre carniceiro, Enquanto grita a turba ignara e injusta. …………………………………………
3 Depois de vinte séculos ingratos, Multiplicando Herodes e Pilatos, Correm de novo as lágrimas divinas; Pois, embora o Direito, o Livro e a Toga, A Humanidade triste inda se afoga No sangue escuro das carnificinas. Atualidade
1 Torna Caim ao fausto do proscênio. A Civilização regressa à taba. A força primitiva menoscaba A evolução onímoda do Gênio
2 Trevas. Canhões. Apaga-se o milênio. A construção dos séculos desaba. Ressurge o crânio do morubixaba Na cultura da bomba de hidrogênio.
3 Mas, acima do império amargo e exangue Do homem perdido em pântanos de sangue, Novo sol banha o pélago profundo.
4 É Jesus que, através da tempestade, Traz ao berço da Nova Humanidade A consciência cósmica do mundo. Augusto dos Anjos [1] As mensagens: Alter ego; A subconsciência; Matéria cósmica; Ao homem; Raça adâmica; Na imensidade e Homem-célula foram publicadas também em 2010 pela editora VL na 3ª Parte do livro “Chico Xavier: O Primeiro Livro” e encontram-se devidamente relacionadas no Anexo A. [2] As mensagens (Confissão) e (Homem-verme) foram também publicadas pela editora VL e são respectivamente a 13ª e a 3ª lições do livro: “Luz na Escola”. [3] Poesia recebida em 18 de Junho de 1940, em Leopoldina, onde foi sepultado o poeta.