Parnaso de Além-Túmulo · Autores diversos · Chico Xavier

Capítulo 12 de 58

Antônio Nobre

Nasceu na cidade do Porto e faleceu na Foz do Douro aos 33 anos de idade, em 18 de março de 1900. Distinguiu-se pela suavidade e melancolia do seu estro. Deixou um livro inconfundível e, ainda hoje, muito estimado — Só — e Despedidas, edição de 1902. Quadras de um poeta morto

1 Coração, não vos canseis De bater… que importa lá? Porque os amores fiéis, Nem a morte os vencerá.

2 Ó figuras de velhinhos Que andais dormitando ao léu! Como são belos os linhos Que vos esperam no Céu!

3 Dizem que os mortos não voltam… Voltam sim. E porque não? Os corpos daí nos soltam, Como às aves o alçapão.

4 Nem gritos e nem cantigas Entre vós que à noite andais; As almas das raparigas Inda sonham nos choupais.

5 Nas grandes mansões da morte Inda há romance e noivados, Venturas da boa sorte, Corações despedaçados.

6 Quem riu ontem, quem ri hoje, Nem sempre poderá rir…

Um dia o riso lhe foge.

Sem que o veja escapulir.

7 Riquezas, que valem elas Se estão na sombra ou sem luz? Tesouro são as estrelas Da bondade de Jesus.

8 Pode-se amar o veludo De uns olhos e os brilhos seus, Porém, acima de tudo Devemos amar a Deus.

9 Vós que amais a luz da Lua, De vossa alma abri as portas Para os fantasmas da rua, Que choram nas horas mortas.

10 Pensei que a morte era o fim Das ânsias do coração; Contudo, não é assim…

Nem pó e nem solidão.

11 Às vezes acham-se fojos Onde há música e festins E há muitos cardos e tojos Entre as flores dos jardins.

12 Se eu pudesse, estenderia Minhas capas de luar sobre Os filhos da agonia Que andam no mundo a penar.

13 A morte só pode ser A vida risonha e pura Para quem a padecer Vive aí na sepultura.

14 Mal vais, se vais caminhando Na ambição de ouro e glória; Nesse mundo miserando Toda ventura é ilusória.

15 Chorai! Chorai órfãozinhos, Vossas dores amargosas:

Achareis noutros caminhos As vossas mães extremosas.

16 Deixa cantar, ó menina, Teu coração sonhador…

No sepulcro não termina O novelário do amor.

17 Um anjo cheio de encanto vive sempre com quem chora, Guardando as gotas de pranto Numa urna cor da aurora.

18 No Universo há céus profundos, Cheios de vida e esplendor, Um céu é um ninho de mundos, Um mundo é um ninho de amor.

19 A caridade é a beleza De um divino plenilúnio, Luz que se estende à pobreza, Na escuridão do infortúnio.

20 Aos mendigos desprezados Não ridicularizeis, São senhores despojados Dos seus tesouros de reis.

21 Aqui, a alma inda espera O alguém que na Terra amou, O raio de primavera Que aí jamais encontrou.

22 Há quem faça aí mil contas, Que os interesses resuma, Mas morrem cabeças tontas, Sem fazer conta nenhuma.

23 Tecei sonhos, fiandeiras, Oh! Almas enamoradas, Vivei aí nas clareiras De luzes alcandoradas.

24 Ah! Que sinto aqui saudades Das noites de S. João, Sonho, estrelas, claridades, Cantigas do coração.

25 Na minha vida de agora Não canto as festas louçãs, Naquelas toadas de outrora Às moçoilas coimbrãs.

26 Acompanha-me a tristeza Das saudades por meu mal; Minha terra portuguesa!…

Meu querido Portugal!…

Do Além

1 Pudesse o nosso olhar, vagueando os ermos, Ver através da própria soledade A expressão luminosa da Verdade, E da luz da Verdade não descrermos…

2 Preocupar-se aí, porém, quem há-de Com o problema de sermos ou não sermos, Pois que o ardente desejo de o sabermos É sempre o anelo falso da vaidade?

3 Peregrinos da dor, na dor andamos Sem que a nossa miséria se desfaça No escabroso caminho onde marchamos,

4 Seguindo a alma nos sonhos iludida, Até que a dor unindo-se à desgraça Descerre os véus que encobrem outra vida. Soneto

1 «Quando cobrir-se o chão de folhas mortas — Meu coração dizia em grave entono — Extinguindo-se a vida que comportas, Dormirás no meu seio o último sono…»

2 E murmurava a alma — «Findo o Outono, A Primavera vem por outras portas; Não existe no túmulo o abandono, Ou a dor amarga e rude em que te cortas.»

3 Escutava essas vozes comovido. Morto de angústia, morto de incerteza, Aguardando o sol-posto, entristecido;

4 E além da amarga vida de segundos, Ressurgi da tortura e da tristeza, Sob os ares sadios de outros mundos! Ao mundo

1 A Terra é o vasto abismo onde a alma chora, O vale de amarguras do Salmista, Lodoso chavascal onde se avista A podridão dos vermes que apavora.

2 Mas, para os grandes bens, para que exista A perfeição da luz deslumbradora, Precisamos da carne que aprimora Com o camartelo mágico do artista.

3 Terra tranquilamente eu te abençoo… Porque da tua dor alcei meu voo Para a mansão das luzes opulentas;

4 Teu rigor nos redime e nos eleva; Mas és ainda o cárcere da treva, Triste mundo de chagas pustulentas! À Mocidade

1 Cantai! cantai, ó mocidade! Moira Encantada que ri nos prados verdes, Cantai o amor que é luz que se entesoira, Vibrai na luz da vida em que viverdes.

2 Glorificai, ditosa, o sol que doira O riso que espalhais sem compreenderdes, Expandi-vos na primavera loira, Nos poemas de luar que conceberdes!

3 Ide cantando, mocidade ardente, Alvorada em Abril, do sol-nascente, Clareando o porvir almo e risonho;

4 Marchai sorrindo, doce juventude, Na exaltação do amor e da saúde, Ébria de aroma e luz, ébria de sonho!… Antônio Nobre O soneto Ao mundo foi publicado também em 2010 pela editora VL na 3ª Parte do livro “Chico Xavier: O Primeiro Livro” e encontra-se devidamente relacionado no Anexo A.