Parnaso de Além-Túmulo · Autores diversos · Chico Xavier
Capítulo 11 de 58
Antero de Quental
(Relação das poesias)
Ciência ínfima Rainha do Céu À Morte Depois da morte Soneto O remorso Soneto Deus Consolai Crença Não choreis Mão Divina Almas sofredoras Supremo engano Incognoscível Fatalidade Estranho concerto Nascido na ilha de S. Miguel, nos Açores, em 1842 e desencarnado por suicídio em 1891. É vulto eminente e destacado nas letras portuguesas, caracterizando-se pelo seu espírito filosófico. Ciência ínfima
1 Onde o grande caminho soberano Da Ciência que abriu a nova era, Investigando a entranha da monera, A desvendar-se no capricho insano?
2 Ciência que se elevou à estratosfera E devassou os fundos do oceano, Fomentando o princípio desumano Da ambição onde a força prolifera…
3 Ciência de ostentação, arma de efeito, Longe da Luz, da Paz e do Direito, Num caminho infeliz, sombrio e inverso;
4 Sob o alarme guerreiro, formidando, Eis que a Terra te acusa, soluçando, Como a Grande Mendiga do Universo!… Rainha do Céu
1 Excelsa e sereníssima Senhora Que sois toda Bondade e Complacência, Que espalhais os eflúvios da Clemência Em caminhos liriais feitos de aurora!…
2 Amparai o que anseia, luta e chora, No labirinto amargo da existência. Sede a nossa divina providência E a nossa proteção de cada hora.
3 Oh! Anjo Tutelar da Humanidade. Que espargis alegria e claridade Sobre o mundo de trevas e gemidos;
4 Vosso amor, que enche os céus ilimitados, É a luz dos tristes e dos desterrados, Esperança dos pobres desvalidos!… À Morte
1 Ó Morte, eu te adorei, como se foras O Fim da sinuosa e negra estrada, Onde habitasse a eterna paz do Nada Às agonias desconsoladoras.
2 Eras tu a visão idolatrada Que sorria na dor das minhas horas, Visão de tristes faces cismadoras, Nos crepes do Silêncio amortalhada.
3 Busquei-te, eu que trazia a alma já morta, Escorraçada no padecimento, Batendo alucinado à tua porta;
4 E escancaraste a porta escura e fria, Por onde penetrei no Sofrimento, Numa senda mais triste e mais sombria. Depois da morte I
1 Apenas dor no mundo inteiro eu via, E tanto a vi amarga e inconsolável, Que num véu de tristeza impenetrável Multiplicava as dores que eu sofria.
2 Se vislumbrava o riso da alegria, Fora dessa amargura inalterável, Esse prazer só era decifrável Sob a ilusão da eterna fantasia.
3 Ao meu olhar de triste e de descrente, Olhar de pensador amargurado, Só existia a dor, ela somente.
4 O gozo era a mentira dum momento, Os prazeres, o engano imaginado Para aumentar a mágoa e o sofrimento. II
1 Misantropo da ciência enganadora, Trazia em mim o anseio irresistível De conhecer o Deus indefinível, Que era na dor, visão consoladora.
2 Não O via e, no entanto, em toda hora Nesse anelo cruciante e intraduzível, Podia ver, sentindo o Incognoscível E a sua onisciência criadora.
3 Mas a insídia do orgulho e da descrença Guiava-me a existência desolada, Recamada de dor profunda e intensa;
4 Pela voz da vaidade, então, eu cria Achar na morte a escuridão do Nada, Nas vastidões da terra úmida e fria. III
1 Depois de extravagâncias de teoria, No seio dessa ciência tão volúvel, Sobre o problema trágico, insolúvel, De ver o Deus de Amor, de quem descria,
2 Morri, reconhecendo todavia, Que a morte era um enigma solúvel, Ela era o laço eterno e indissolúvel, Que liga o Céu à Terra tão sombria!
3 E por estas regiões onde eu julgava Habitar a inconsciência e a mesma treva Que tanta vez os olhos me cegava,
4 Vim gemendo, encontrar as luzes puras Da verdade brilhante, que se eleva Iluminando todas as alturas. Soneto
1 Quisera crer, na Terra, que existisse Esta vida que agora estou vivendo, E nunca encontraria abismo horrendo, De amargoso penar que se me abrisse.
2 Andei cego, porém, e sem que visse Meu próprio bem na dor que ia sofrendo; Desvairado, ao sepulcro fui descendo, Sem que a Paz almejada conseguisse.
3 Da morte a Paz busquei, como se fora Apossar-me do eterno esquecimento, Ao viver da minhalma sofredora;
4 E em vez de imperturbáveis quietitudes, Encontrei os Remorsos e o Tormento, Recrudescendo as minhas dores rudes. O remorso
1 Quando fugi da dor, fugindo ao mundo, Divisei aos meus pés, de mim diante, A medonha figura de gigante Do Remorso, de olhar grave e profundo.
2 Era de ouvir-lhe o grito gemebundo, Sua voz cavernosa e soluçante!… Aproximei-me dele, suplicante, Dizendo-lhe, cansado e moribundo: —
3 «Que fazes ao meu lado, corvo horrendo, Se enlouqueci no meu degredo estranho, Acordando-me em lágrimas, gemendo?»
4 Ele riu-se e clamou para meus ais: «Companheiro na dor, eu te acompanho, Nunca mais te abandono! Nunca mais!» Soneto
1 Mais se me afunda a chaga da amargura Quando reflexiono, quando penso No mar humano, encapelado e imenso, Onde se perde a luz em noite escura…
2 Nesse abismo de treva a bênção pura, Do espírito de amor ao mal infenso, Sente o assédio do mal. É o contrassenso Da luz unida à lama que a tortura.
3 Mais se me aumenta a chaga dolorida, Escutando o soluço cavernoso Da pobre Humanidade escravizada;
4 Sentindo o horror que nasce dessa vida, Que se vive no abismo tenebroso, Cheio do pranto da alma encarcerada! Deus
1 Quem, senão Deus, criou obra tamanha, O espaço e o tempo, as amplidões e as eras, Onde se agitam turbilhões de esferas, Que a luz, a excelsa luz, aquece e banha?
2 Quem, senão ELE fez a esfinge estranha No segredo inviolável das moneras, No coração dos homens e das feras, No coração do mar e da montanha?!
3 Deus!… somente o Eterno, o Impenetrável, Poderia criar o imensurável E o Universo infinito criaria!…
4 Suprema paz, intérmina piedade, E que habita na eterna claridade Das torrentes da Luz e da Harmonia!! Consolai
1 Se eu pudesse, diria eternamente, Aos flagelados e desiludidos, Que sobre a Terra os grandes bens perdidos São a posse da luz resplandecente.
2 A dor mais rude, a mágoa mais pungente, Os soluços, os prantos, os gemidos, Entre as almas são louros repartidos Muito longe da Terra impenitente.
3 Oh! se eu pudesse, iria em altos brados Libertar corações escravizados Sob o guante de enigmas profundos!
4 Mas, dizei-lhes, ó vós que estais na Terra, Que a luz espiritual da dor encerra A ventura imortal dos outros mundos! Crença
1 Minha vida de dor e de procela Que se extinguiu na tempestade imensa, Despedaçou-se à falta dessa crença, Que as grandes luzes místicas revela.
2 E estraçalhei-me como alguém que sela Com o supremo infortúnio a dor intensa, Desvairado de angústia e de descrença, Dentro da vida sem compreendê-la.
3 Ah! Crer! bem que na Terra, não possuí, Quando entre conjeturas me perdi, De tão pequena dor fazendo alarde…
4 Crença! Luminosíssima riqueza Que enche a vida de paz e de beleza, Mas que chega no mundo muito tarde. Não choreis
1 Não choreis os que vão em liberdade Buscar no Espaço o luminoso leito Da paz, distante do caminho estreito Desse mundo de dor e de orfandade.
2 O pranto é a flor de aromas da saudade, Que perfuma e crucia o vosso peito, Mas, transformai-o em gozo alto e perfeito, Em santa e esperançosa claridade.
3 Chega um dia em que o Espírito descansa Das aflições, angústias e cansaços, Dos aguilhões das dores absolutas:
4 Feliz de quem, na Crença e na Esperança, Procura a luz sublime dos espaços, Buscando a paz depois das grandes lutas. Mão Divina
1 A luz da mão divina sempre desce, Misericordiosa e compassiva, Sobre as dores da pobre alma cativa, Que está nas sendas lúcidas da Prece.
2 Se a amargura das lágrimas se aviva, Se o tormento da vida recrudesce, Aguardai a abundância da outra messe De venturas, que é da alma rediviva.
3 Confiando, esperai a Providência Com os sentimentos puros, diamantinos, Lendo os artigos ríspidos da Lei!
4 Os filhos da Piedade e da Paciência Encontrarão nos páramos divinos A paz e as luzes que eu não alcancei. Almas sofredoras
1 Passam na Terra como as ventanias, Ou como agigantadas nebulosas Provindas de cavernas misteriosas, Essas compactas legiões sombrias;
2 Turbas de almas escravas de agonias, Com que andei entre queixas dolorosas, Ao palmilhar estradas escabrosas, Entre as noites mais lúgubres e frias!
3 Oh! visões de martírios que apavoram, Miseráveis Espíritos que choram, Sob os grilhões de rude sofrimento!
4 Orai por eles, bons trabalhadores Que estais colhendo sobre a Terra as flores De um doce e temporário esquecimento. Supremo engano
1 Vê-se da Terra o Céu, em toda a vida, Como um vergel azul de lírios brancos, Onde mora a ventura, e em cujos flancos Repousa a grande mágoa adormecida
2 Céu! Quanta vez minhalma entristecida Anteviu tua paz, sob os arrancos, Sob os golpes da dor, rijos e francos, Na escuridão espessa e indefinida!
3 Não sonhei com teus deuses venturosos, Com teus grandes olimpos majestosos, Cheios de vida e de infinitos bens…
4 Antegozei, somente, em minhas dores, A paz livre de trevas e pavores, Do imperturbável nada que não tens! Incognoscível
1 Para o Infinito, Deus não representa A personalidade humanizada, Pelos seres terrenos inventada, Cheia, às vezes, de cólera violenta.
2 Deus não castiga o ser e nem o isenta Da dor, que traz a alma lacerada Nos pelourinhos negros de uma estrada De provação, de angústia e de tormenta.
3 Tudo fala de Deus nesse desterro Da Terra, orbe da lágrima e do erro, Que entre anseios e angústias conheci!
4 Mas, quanto o vão mortal inda se engana, Que em sua triste condição humana Fez a essência de Deus igual a si! Fatalidade
1 Crê-se na Morte o Nada, e, todavia, A Morte é a própria Vida ativa e intensa, Fim de toda a amargura da descrença, Onde a grande certeza principia.
2 O meu erro, no mundo da Agonia, Foi crer demais na angústia e na doença Da alma que luta e sofre, chora e pensa, Nos labirintos da Filosofia…
3 E no meio de todas as canseiras Cheguei, enfim, às dores derradeiras Que as tormentas de lágrimas desatam!…
4 Nunca, na Terra, a crença se realiza, Porque em tudo, no mundo, o homem divisa A figura das dúvidas que matam. Estranho concerto
1 Clamou o Orgulho ao homem: — «Goza a vida! E fere, brasonado cavaleiro, Coroado de folhas de loureiro, Quem vai de alma gemente e consumida…»
2 Veio a Vaidade e disse: — «A toda brida! Dominarás, além, no mundo inteiro, Cavalga o tempo e corre ao teu roteiro De soberana glória indefinida!…»
3 Mas a Verdade, sobre a humana furna, Gritou-lhe angustiada, em voz soturna: — «Insensato! Aonde vais, sem Deus, sem norte?»
4 E impeliu, sem detença e sem barulho, Cavaleiro e corcel, vaidade e orgulho, Aos tenebrosos pântanos da Morte. Antero de Quental [1] Esta mensagem foi também publicada pelo GEEM e é a 6ª lição do livro “Vereda de Luz”