Antologia dos Imortais · F. C. Xavier. — Waldo Vieira · Chico Xavier
Capítulo 73 de 116
Francisca Júlia
ADEUS
1 Na agonia da luz o astro-rei purpurina…
Leves tarjas de noite a manchar o horizonte…
Uma estrela a piscar remove a névoa fina E espelha-se, feliz, no regato defronte…
2 Soluça um pombo além e se alteia e se inclina E voa sem que o Sol novo rumo lhe aponte…
Humilde rola chora a gemer na campina, Alheia ao prado em flor e à carícia da fonte…
3 Chega a sombra afinal… Aparece a tristeza No arrulho que ficou por gemidos em bando, Quais cordas a estalar numa lira retesa…
4 Assim, num dia assim, a morrer sem alarde, Chorando eu disse adeus e ele partiu chorando, A renascer na Terra onde estarei mais tarde…
[1]FRANCISCA JÚLIA da Silva — Conquanto apresente a poesia de F. Júlia alguns defeitos formais, é considerada a maior poetisa parnasiana, “maravilhoso poeta, um dos mais originais do Brasil”, no dizer de Vicente de Carvalho (citado no Pan. III, pág. 248). Versejou em importantes periódicos de S. Paulo, e na A Semana, do Rio. João Ribeiro, Olavo Bilac, Agrippino Grieco e até mesmo Machado de Assis teceram largos elogios aos versos de Francisca Júlia, versos que plasmaram o ideal extremo da beleza, segundo as palavras de Manuel Bandeira (apud Dic. Aut. Paulistas, pág. 580). Em torno de sua desencarnação, diz Péricles Eugênio da Silva Ramos: “O que de positivo pude apurar, ouvindo testemunhas até oculares, foi que no dia da morte de Edmundo (Filadelfo Edmundo Munster) a poetisa se retirou para repousar. E não mais acordou, apesar dos esforços médicos para reanimá-la, vindo a falecer na manhã do dia do enterro do marido.” (Poesias, pág. 21.) (Xiririca, atual Eidorado, Est. de S. Paulo, 31 de Agosto de 1874 (1871 ?) — S. Paulo, 1º de Novembro de 1920.) BIBLIOGRAFIA: Mármores; Esfinges; etc.
[2] Verso 1 - purpurina. Francisco Fernandes regista em seu Dicionário de Verbos e Regimes apenas os verbos purpurear, purpurar, purpurejar e purpurizar. Belíssimo, no entanto, este purpurinar. [3] Verso 6 - Polissíndeto: “E se alteia e se inclina/ E voa…”
[4] Verso 12 - Mesarquia: “Assim, num dia assim…” — Cf. nota 7, pág. 42.
[5] Verso 13 - Epanalepse: “Chorando eu disse adeus e ele partiu chorando”.
[6] Verso 14 - Neste soneto, que plasma a beleza que soube gravar em “Crepúsculo”, “Natureza” e em tantos outros sonetos famosos, fala-nos a poetisa sobre a reencarnação — parece-nos que do seu marido — e de sua volta à Terra, mais tarde, para o ressarcimento das dívidas com a Lei de Causa e Efeito. A fim de que possamos observar o estilo da artista da Mármores, vamos transcrever-lhe apenas o primeiro quarteto de “Ângelus”, soneto dedicado a Filinto D’Almeida: “Desmaia a tarde. Além, pouco a pouco, no poente, O sol, rei fatigado, em seu leito adormece:
Uma ave canta, ao longe; o ar pesado estremece Do Ângelus ao soluço agoniado e plangente.”
(F. Júlia, Poesias, pág. 123.)