Antologia dos Imortais · F. C. Xavier. — Waldo Vieira · Chico Xavier

Capítulo 61 de 116

Bulhão Pato

EPÍSTOLA DO ALÉM

1 Abisma-se minha alma aos impulsos da prece, Fitando a dor além que a muitos entristece…

2 Pelos campos da morte onde o mal prepondera, O ente humano enfermiço agita-se qual fera.

3 A voragem hiante eletriza e arrebata O espírito rendido à revolta insensata.

4 Na grande inquietação do ser que a tudo anela E que descobre, alfim, que a carne se esfacela,

5 A alma forte que ria, hoje chora a sofrer Na vastidão do umbral que transfigura o ser.

6 Cavernas e pauis, precipícios e furnas… Mausoléus de quem vive em névoas taciturnas…

7 Neblina e fetidez… O tempo, em caos, dormita… Horrendos animais em urros, choro e grita…

8 Cada vulto é um dragão que indignado ulula Preso à inveja, à vingança, à dissensão, à gula…

9 E arrasta-se a sentir remorsos de culpado Em frio enregelante e em calor abafado.

10 A populaça brame… E avança o turbilhão No gargalhar febril de caminho malsão!

11 Os farrapos da vida, errantes pelo espaço, Pervagam sem parar, gemendo a passo e passo…

12 Mas todos saldarão os seus mais torvos crimes, Sob a luz do porvir, em vitórias sublimes,

13 Quando renascerão na carne redentora Guardados pela dor, nossa mestra e tutora!

14 E o visitante, em meio aos seres padecentes, Rega a senda que pisa em lágrimas pungentes.

15 Alguém pode esquecer, no imo de si mesmo, Tantas almas na dor a chorarem a esmo?…

16 Reflete, amigo, assim, que aí em teu remanso O pranto irado e hostil profana o luar manso…

17 Quando em fúria te açoite a borrasca do inverno, Aceita a provação que é luz do Sol Eterno!

18 Há muito companheiro entregue ao sofrimento, Sob materialismo ingrato e virulento.

19 O ateu, estátua viva a morrer enganado, Acalenta consigo estranho e horrível fado…

20 O crime que passou, no qual ninguém mais pensa, Resta ecoando na alma, igual rude sentença…

21 Oferece a quem chora o afago da ternura; Aos frêmitos de dor, a bênção doce e pura.

22 O serviço do amor, sem láurea ou recompensa, Ser-te-á nova luz na luz divina e imensa.

23 Não olvides jamais o conceito imortal: Há alegria no bem e há tristeza no mal!… “………………………………………

Da cruel granizada, em tempos de invernia, Muita vez me abrigou a tua ramaria! O furacão austral não te insultava a fronte — Em-pé; robusto e só, no píncaro do monte!”