Antologia dos Imortais · F. C. Xavier. — Waldo Vieira · Chico Xavier
Capítulo 46 de 116
Artur de Sales
1 HISTÓRIA DO AMOR
1 Pede a ostra colada à pedra em que se escalva: — “Ajuda-me, Senhor! Sou larva triste e feia!…” Nisso, o mergulhador pisa o lençol de areia, Qual fulmíneo titã, no abismo verde-malva.
2 Pensa, encantada, a pobre: — “Eis alguém que me salva…” O homem, contudo, ataca e a mísera baqueia. Depois, sofre, na tona, o facão que a golpeia, Fere, insulta, escarnece e lanha, valva em valva.
3 Mas, em vez de revolta, a vítima indefesa Oferta-lhe, ao cair, por troféu de beleza, A pérola que brilha entre os arpões e os rascos…
4 Essa é a história do amor que se alteia, sublime; Inda mesmo a sangrar, sob a injúria do crime, Beija e enriquece as mãos dos seus próprios carrascos.
2 HISTÓRIA DO DESTINO
1 Rogava o barro a sós, preso a lodosa charpa: — “Liberta-me, Senhor, do lixo que me escorna! Ai de mim que sou lama envilecida e morna!…” Veio a chuva e, oh! beleza! o brejo vibra e zarpa.
2 A água que dormia em túmida madorna Põe-se, turva, a correr no solo que se escarpa, Atormenta-se, luta e vai, de farpa em farpa, Como pranto de dor que, súbito, se entorna…
3 Agita-se e obedece, escrava à gleba obscura, Beija os rijos punhais da rocha em que se apura, Abraça as provações e canta a bendize-las!
4 Depois, é fonte ao mar, qual poema divino!… Alma, a história do charco é a história do destino Que nos arrasta, além para além das estrelas… [1] ARTUR Gonçalves DE SALES — Depois de ter assentado praça no 9º Batalhão de Infantaria e tentado matricular-se na Escola Militar, no Rio de Janeiro, Artur de Sales voltou a Salvador, onde, em 1905, recebeu o diploma de aluno-mestre, da Escola Normal. Exerceu o magistério primário “em aprendizados agrícolas”. Foi um dos fundadores da Academia de Letras da Bahia, aí ocupando a cadeira nº 3. A obra poética de A. de Sales, a princípio simbolista, passou depois a ser concebida parnasianamente. Suas poesias, em geral abrangendo temas populares, revelam-lhe o grande interesse pelas coisas do mar. Considerado “admirável plástico do verso” por Jackson de Figueiredo, foi ainda Artur de Sales, na expressão de Eugênio Gomes, um “ébrio de Shakespeare”, traduzindo-lhe, em versos alexandrinos, a peça Macbeth. (Cais Dourado, Salvador, Bahia, 7 de Março de 1879 — Salvador, 27 de Junho de 1952.) BIBLIOGRAFIA: Poesias ; Poemas Regionais; etc. [2] Verso 11 - rasco (de rascar, raspar, desbastar): “garfo de ferro, na extremidade de uma vara, para a apanha do mexilhão.” [3] Verso 28 - Para que possamos apreciar o gosto do poeta para as rimas raras e os versos alexandrinos, vamos transcrever-lhe apenas duas estâncias do poema “A Lagoa” (apud Pan., V, págs. 55-56): “Tramas de ouro de sol, quase apagada frágua Veste a lagoa. Um mundo azoinante de insetos Zune e zumbe, cruzando-a. Os caniços inquietos Vão e vêm, alongando esguias sombras na água. O silêncio, magoando o ar sonolento e morno, Espalha em tudo o alor das cousas fugidias; A vez e vez, rompendo-o, asas passam, tardias. Esmaece, agoniza a paisagem de em torno.”