Antologia dos Imortais · F. C. Xavier. — Waldo Vieira · Chico Xavier

Capítulo 49 de 116

Cornélio Pires

1 VELHO JOÃO

1 Velho João, agonizas triste e pobre, Sem que o mundo, sequer, a mão te estenda; Ninguém te oferta um caldo por merenda, Nem um trapo de pano que lhe sobre…

2 Ah! ninguém te agradece ao peito nobre O cansaço na roça e na moenda; Morres, lembrando as pompas da fazenda, No seboso molambo que te encobre.

3 Percebes, pelos vãos da própria furna, Flores aos borbotões, na paz noturna, E abandonas o corpo, a fim de vê-las…

4 Fitas, em prece, a noite calma e santa E sobes, velho João, como quem canta Nos milharais do Céu, plantando estrelas!

2 MÃE BALBINA

1 Espancaram-te o rosto, Mãe Balbina. Velha, furtaste um pão jogado ao solo, Ama de tanta boca pequenina Que afagavas, cantando, no teu colo.

2 Ninguém te viu, anêmica e franzina, Com o filho da patroa a tiracolo, E a dor de mãe solteira, inda menina, No suor da coivara e do monjolo.

3 Roubaste um pão apenas, Mãe querida, Tu que foste roubada em toda a vida Por tantos filhos que te abandonaram!…

4 Mas Deus guarda-te, além, por luz e enfeite, O tesouro de sangue, pranto e leite Das pérolas de amor que te furtaram!

3 MARIA DOIDA

1 “Doida! Maria Doida!” A meninada Persegue a pobre louca em longas filas. Cerrando as mãos nervosas e intranquilas, Maria corre em fúria desgrenhada.

2 Ah! minha irmã, que em sombra te aniquilas; Desditosa, sozinha, desprezada, Bebes, com sede e fome, na calçada, O pranto que te verte das pupilas!…

3 Mas, à noite, Maria, enquanto dormes, Revês, de novo, as árvores enormes Do teu solar de luxo noutras eras…

4 E agradeces, na palha seca e fria, A rude provação de cada dia, Como preço do júbilo que esperas!

4 NHÁ CHICA

1 Dos olhos de Nhá Chica o pranto rola… Não mais levanta a voz e o rosto ossudo. Oitenta anos vivera… E, ao fim de tudo, A palhoça vazia, o pão de esmola…

2 A professora anciã relembra a escola… Pensa ver, entre o catre e o chão desnudo, A mesa, o livro, a lousa, o giz do estudo E os meninos rixando junto à bola.

3 Pobre Nhá Chica em lágrimas banhada Morre, esquecida e só, assim sem nada, Na tristura das últimas lembranças…

4 Mas acorda em florida caravela Num mar azul… E vê-se, moça e bela, Carregada nos braços das crianças!…

5 HISTÓRIA DE DONA AMÉLIA

1 Conheci Dona Amélia na fazenda — Dona Amélia Maria Liberata —, Linda e rica mulher, mas rude e ingrata, Sempre altiva, no estrado de ouro e renda.

2 Deixava o pão mofando preso à lata E gritava: “ninguém me desatenda”. Procurava conflitos de encomenda Para zurzir os servos na chibata…

3 Mais tarde veio a morte… A nobre dama Padecia o remorso como a chama Quando o fogo se apega à carne nua.

4 O tempo voa… E agora, reencarnada, Vejo-a sozinha, triste e abandonada, Esmolando socorro em cada rua.

6 SINHÁ TEODORA

1 Ah! minha outra mãe, Sinhá Teodora, Ninguém te enxuga as lágrimas do rosto, Mas prossegues gemendo a contragosto, Arrimada à muleta que te escora…

2 Sofreste, sorridente, vida afora; Cantarolavas, tonta de desgosto… Para onde te encaminhas, ao sol-posto, A tropeçar, cansada e triste, agora?

3 Que demandas com tantas agonias? Ergues ao céu as mãos magras e frias… Há luz que se derrama de alta esfera…

4 Choras… No entanto, a paz do firmamento Diz-me que vais, assim, coxeando ao vento, Para os braços do Cristo que te espera.

7 “TI” PEDRO

1 O mendigo que chora, treme e passa Fora cultivador de terra alheia. Em dado instante, hesita, cambaleia… Há quem o julgue cheio de cachaça.

2 “Ti” Pedro cai e é preso em plena praça E, morrendo, nas lajes da cadeia, Revê toda a fortuna a que se enleia: Cinco tostões num trapo de alcobaça.

3 De Espírito liberto, estrada afora, Ouve música ao longe… É quase aurora… “Ti” Pedro sobe leve como o vento;

4 E crê que o próprio Deus lhe acalma as dores, Nas estrelas que pendem como flores No pau d’arco de luz do firmamento.

8 O D. JUAN

1 E assim viveu Cantídio Maldonado, Deitando anedotário e latinório, Bela figura, qual D. Juan Tenório, Lampeiro, bonitão e remoçado.

2 Aqui e ali, promessas de noivado, Meninas lastimando amor inglório, Lares desfeitos, casos de cartório E crimes, vários crimes de contado.

3 Contudo, a morte veio… O pobre amigo Acumulava em lágrimas consigo Dor e remorso em trágico binômio…

4 Corre o tempo… Hoje encontro Maldonado, Andrajoso, esquecido e reencarnado, A rir e soluçar num manicômio. [1] CORNÉLIO PIRES — Além de poeta, contista, jornalista, humorista e conferencista, era Cornélio Pires devotado pesquisador do nosso folclore. “Seja bom” — recomendou-lhe, certa vez, Amadeu Amaral. E Cornélio Pires, ao fazer-se tarefeiro da Doutrina Espírita, não foi apenas um bom, mas verdadeiro herói da bondade permanente, a benefício dos semelhantes. Pouco antes de desencarnar, fundou em Tietê, SP, a “Granja de Jesus”, entidade de amparo ao menor abandonada. Escreveu para inúmeros jornais e revistas, tendo iniciado a sua vida literária em O Malho, do Rio. Alguns dos seus livros continuam a ter numerosas e sucessivas reedições. “Sua obra” — di-lo Joffre Martins Veiga — “é eminentemente popular e de cunho essencialmente brasileiro.” (Tietê, Est. de S. Paulo, 13 de Julho de 1884 — S. Paulo, Estado de S. Paulo, em 17 de Fevereiro de 1958.) BIBLIOGRAFIA: Musa Caipira; O Monturo; Versos; Coisas d’Outro Mundo; Onde estás, ó morte?; etc. [2] Verso 14 - Excelente imagem: “Velho João, como quem canta nos milharais do céu, plantando estrelas.” [3] Verso 20 - Leia-se com o, numa sílaba. C. Pires, com frequência, servia-se da ectlipse. Cf. “O Enterro” (ap. J. M. Veiga, Antol. Caipira, pág. 139) 11º verso: “e com ele se foi a doce paz da roça.”; “À Quelque Chose”, 11º verso: “com o dia de amanhã que é sempre o mesmo” (apud Op. cit., pág. 111). [4] Verso 25 - Cf. nota nº 61, pág. 287, a respeito do metro. [5] Verso 49 - Atente-se na enumeração. [6] Verso 50 - As rimas em “ola” e “olo” eram muito usadas pelo artista de Musa Caipira. Cf. “Casa Rústica” (Op. cit., pág. 97), 1º terceto; “O Sol e o Cabo” (id., pág. 99), última estrofe; “Desencanto” (id., pág. 113) em todas as quadras; “Peripécias de Viagem” (id. pág. 117), último terceto. [7] Versos 51-54. - Observem-se os “enjambements”. [8] Verso 98 - Cf. a nota 14 deste capítulo. Digna de observação é a constante repetição das expressões “Nhá”, “Sinhá” e outras que tais, tanto na poesia de além-túmulo quanto na que ficou esparsa em seus livros. “Vai-se levar à vila o corpo de Nhá Cota, balouçando na rede a uma vara amarrada…” —