Antologia dos Imortais · F. C. Xavier. — Waldo Vieira · Chico Xavier

Capítulo 43 de 116

Da Costa e Silva

1 RESSURREIÇÃO

1 Ressurreição! A madrugada flórea!… O céu brilhando, em mágica oferenda… Estranho à nova luz que se desvenda, Vejo as telas antigas da memória.

2 É minha mãe, contando velha história, A corrente do rio a fazer renda, A cana soluçando na moenda E a pátria serra olhando a altura inglória!…

3 O caminho estrelado principia… A morte abriu as fontes da alegria, Na taça da amplidão que se descerra!

4 Fulge o carro da vida renascente, Mas volvo à sombra e choro a dor pungente Da saudade sem fim de minha terra!…

2 REENCARNAÇÃO

1 De cimo a cimo, a ideia viva esbarro… Luzem constelações… O Céu rutila… Estrelas resplendentes fazem fila, Multicores vagões do Etéreo Carro.

2 Mas revejo, enlevado, o sol da vila… O regaço materno, ansioso, agarro; Ouço meu pai de crônico pigarro E a voz do lar por música tranquila.

3 Fito a mesa singela, o caldo, a broa; O velho cão rafeiro geme à toa… Ah! Saudades! Sois tudo quanto exerço!…

4 Preces a Deus, em lágrimas, transponho… Aspiro a refazer a vida e o sonho, Quero chorar nos júbilos do berço!…

3 VERSOS À MINHA MÃE

1 Pássaro preso no recinto escasso Do velho canavial, beirando o rio, Quis ver o mundo vasto e conheci-o, Varando, em pleno voo, o azul do espaço…

2 Lembro-me agora… Enceguecido, abraço A exaltação, a glória e o poderio… Mas tudo, minha Mãe, era vazio Fora do amor que brilha em teu regaço.

3 Vi mil chagas de dor que a fama incensa Nos nervos de ouro da cidade imensa, E prazeres em trágico desmando…

1 Mas no colo a que, em sonho, me recostas, Tenho apenas teu vulto de mãos postas, Que teu filho recorda, soluçando… 3-A O BERÇO

1 Em êxtase, contemplo os sóis em bando, Arcturo, Aldebarã, Sírius, Antares, E o caminho onde os anjos tutelares Passam ébrios de júbilo, cantando…

2 Bebo a vida imortal em que me expando, Nos perfumes e cores de outros ares. Surgem novos impérios estelares, Na glória do Universo, fulgurando?…

3 Mas ouve, Mãe, em pleno Lar Celeste, Recordo o berço humilde que me deste, Ao pranto de alegria em que me inundo…

4 Muito mais que na luz do imenso Espaço Pulsa, no imenso amor de teu regaço, O próprio coração de Deus no mundo… [1] Antônio Francisco DA COSTA E SILVA — Depois de fazer o curso primário e os preparatórios em Teresina, transferiu-se Da Costa e Silva para o Recife, onde, somente em 1913, veio a bacharelar-se em Direito. Foi funcionário público do Ministério da Fazenda, ascendendo a altos postos. Durante quase dez anos viveu o poeta em Belo Horizonte, mudando-se, posteriormente, para o Rio, onde desencarnou. “A sua poesia” — escreveu Andrade Muricy — “trazia uma exaltação luminosa, um inebriamento comunicativo. Era alguém que cantava, mas com uma virtuosidade harmoniosa e forte, um belo ímpeto arrebatado.” (Amarante, Piauí, 28 de Novembro de 1885 — Rio de Janeiro, Gb, 29 de Junho de 1950.) BIBLIOGRAFIA: Sangue; Zodíaco; Verhaeren; Verônica; etc. [2] Verso 25 - Note-se a apóstrofe. [3] Verso 28 - Falando sobre a poesia de Da Costa e Silva, afirmou Fernando Góes (Pan. V, pág. 146): “Foi bem o cantor da saudade ele confessava ter vindo ao mundo para ter saudade.” E como não poderia deixar de ser, o artista de “Saudade” continua sendo o cantor da saudade, ansioso, agora, por ver novamente paisagens terrestres em novo corpo de carne… [4] Verso 30 - Leia-se ca-na-vial, com sinérese. [5] Andrade Muricy (Pan. Mov. Simb. Bras., III, pág. 27) dá 23 como o dia de nascimento.