Antologia dos Imortais · F. C. Xavier. — Waldo Vieira · Chico Xavier

Capítulo 40 de 116

Artur Ragazzi

1 SONETO

1 Era a última hora para a cabeça estática Que pensava, apesar de tudo.

O corpo anestesiado no suor denso e álgido Não movia sequer leve ponta do dedo.

2 Os olhos haviam parado dentro das órbitas, Mas no imóvel espelho das pupilas Aumentara a visão com estranha potência, Sob a ação de outros raios.

3 Teto, paredes, portas desapareceram como por encanto E comecei a ver, pela gaze das lágrimas, Antigas afeições que imaginava mortas…

4 Velhos amigos meus vinham, prestos, do Além, a enxugarem-me o pranto. Encontrara o outro mundo! E quis gritar, eufórico, Mas a garganta seca era apenas silêncio.

2 AO VIAJOR DA VIDA

1 Foge à ilusão da forma que te ilude Entre sombras e lápides terrenas.

Surpreenderás, na carne, sonho apenas De infância, mocidade e senectude…

2 Ri-se o berço… Depois, a juventude É ligeira estação de horas serenas…

Depois, ainda, as lágrimas e as penas Da velhice a chorar o inverno rude…

3 Que a aspereza da estrada pouco importe…

Segue, de coração piedoso e forte, Plantando o amor na Terra vasta e rica!

4 Marca a esparzir o bem de escala a escala! O bem — o dom de paz que te assinala; Somente o bem é a luz de amor que fica.

[1] ARTUR RAGAZZI — Poeta largamente relacionado e estimado nos ambientes literários é sociais de Belo Horizonte. Italiano de nascimento, veio com os pais, ainda menino, para o Brasil, fixando-se em Ouro Preto. Em 1897, inaugurada a nova capital mineira, aí passou a residir até ao fim de sua existência. Foi uma das principais expressões do alto comércio de Belo Horizonte e elemento de valor nos círculos literários que nessa cidade se formaram à sombra de Alphonsus de Guimaraens e de Mendes de Oliveira. “Poeta de largos recursos,” — di-lo a Folha de Minas, em 5 de Novembro de 1948 — “era também Artur Ragazzi uma alma pura e sensível a todas as manifestações do calor humano.” Em vários jornais e revistas mineiros e cariocas saíram estampadas as suas produções líricas, “donde rescendem impulsos sinceros de uma inspiração privilegiada, a par de notável poder de expressão verbal”. (Veneza, Itália, 31 de Julho de 1879 — Belo Horizonte, Minas Gerais, 4 de Novembro de 1948.) BIBLIOGRAFIA: Cavaleiro Andante; Coivara Acesa; algumas inéditas. [2] Verso 9 - Observe-se a enumeração.

[3] Verso 14 - Neste soneto assaz original, em que se associam versos alexandrinos, hexassílabos e hipérmetros de grande beleza, o poeta descreve-nos o momento final da vida na carne, quando no “imóvel espelho das pupilas” já não mais vislumbrava as paredes, o teto, as portas, mas apenas os seus velhos amigos desencarnados. [4] Verso 17 - Leia-se sur-preen-de-rás, com sinérese.