Antologia dos Imortais · F. C. Xavier. — Waldo Vieira · Chico Xavier
Capítulo 4 de 116
Cruz e Souza
1. ALMA DO AMOR
1 Alma do Amor, cansada, erma e fremente, Arrastando o grilhão das próprias dores, Sustenta a luz da fé por onde fores, Torturada, ferida, descontente…
2 Nebulosas, estrelas, mundos, flores Rasgam, vibrando, excelso trilho à frente… Tudo sonha, buscando o lume ardente Do eterno amor de todos os amores?
3 Alma, de pés sangrando senda afora, Humilha-te, padece, chora, chora, Mas bendize o teu santo cativeiro…
4 Não esperes ninguém para ajudar-te, Ama apenas, que Deus, em toda a parte, É o sol do amor para o Universo inteiro.
2 CORPO
1 Carne! Vaso de dor, sinistro e belo, Estruturado em grânulos de escória, Relicário de lama transitória, Tugúrio estreito e fúlgido castelo!
2 Assinalas, em lúgubre duelo, O bem e o mal na cinza merencória; Mas elevas o lodo para a glória, Da sombra à luz, em trágico flagelo.
3 Louvor à encarnação que te sustenta, Lâmpada de amargura ansiosa e lenta, Ergástulo do amor puro e profundo!…
4 És a humana e arcangélica fornalha, Templo e gleba onde Deus sonha e trabalha Santificando as lágrimas do mundo!…
3 SOB A NOITE
1 Alma triste, cansada, insatisfeita, Dentro da noite espessa que te alcança, Ergue o facho sublime da esperança Ante os golpes da treva que te espreita.
2 Entre pedras e lágrimas avança, Na sarça que domina a senda estreita, E sonha a luz da Imensidade Eleita, Aprisionada à extrema insegurança.
3 Segue, arrostando em glória, por sofre-los, Turbilhões, agonias, pesadelos, Nos assombros de longa tempestade…
4 E, além da pavorosa travessia, Encontrarás, chorando de alegria, O amanhecer da Grande Liberdade!
4 ESCALADA
1 Louva o suplício da matéria escrava, No turbilhão de cárceres e algemas. E canta, coração, inda que espremas O fel da própria dor em pranto e lava.
2 Chora e avança cansado, mas não temas; Sangrem-te embora os pés na urtiga brava, Caminha imune ao lodo que deprava, Purificado em lágrimas supremas.
3 Indiferente às cóleras e às fúrias, Apaga o fogo das paixões espúrias, Sofre humilde e sereno por vencê-las…
4 Peregrino de trágico deserto, Um dia, subirás, enfim liberto, Gema solar em túnica de estrelas!… 4-A ALÉM DO AZUL
1 Além, além do humano sorvedouro, Cornucópia mirífica desata Orbes luzindo em flórida cascata, Onde a vida cinzela o céu vindouro…
2 Constelações e sóis… Ancoradouro Da excelsa luz dos séculos sem data… Almos ninhos em pétalas de prata, Coroados de acanto, mirto e louro…
3 Por cerúleas alfombras estelares, Flâmeos jardins e edênicos solares, O coração do amor pulsa disperso…
4 Entre esferas de cálidos fulgores, Domicílios das almas superiores, Freme a glória divina do Universo. [1] As poesias de números ímpares foram recebidas pelo médium Francisco Cândido Xavier e as de números pares pelo médium Waldo Vieira. Dispomo-las assim, por sugestão dos Amigos Espirituais. [2] João da CRUZ E SOUZA — Filho de pais escravos, Cruz e Souza é a figura mais expressiva do Simbolismo no Brasil e, ao lado de Mallarmé e Stefan George, um dos grandes nomes do movimento simbolista no mundo, segundo Roger Bastide. “Tinha” — escreveu seu grande amigo Virgílio Várzea (apud A. Muricy, Pan. Mov. Simb. Bras., I, pág. 98) — “uma grande paixão pelas ideias humanitárias, e serviu-as sempre, como um fanático, sem se poupar sacrifícios, na tribuna, em praça pública e principalmente no jornalismo.” Tendo sofrido acerbas provações, naturalmente dentro das dívidas cármicas, o grande poeta continua, hoje, em afanosa luta pela difusão das “ideias humanitárias”, entre as quais agora incluiu o Espiritismo e o Esperanto, a corroborar que a vida, com efeito, não cessa no túmulo. Principalmente no setor esperantista, o artista de Faróis é uma personalidade atuante na Espiritualidade. Em 1961, ano em que se comemorou, em todo o Brasil, o primeiro centenário de seu nascimento, os mais representativos centros culturais do País lhe tributaram mil e uma homenagens, culminando com a publicação de suas Obras Completas, organizadas por Andrade Muricy, em primorosa apresentação, pela Editora José Aguilar Ltda. A extraordinária produção do genial poeta provocou, dos que o rodeavam, os epítetos de “Cisne Negro”, “Dante Negro”, “Poeta Negro”, epítetos — diz A. Muricy (op. cit., pág. 101) “compreendidos no senso mais elevado e consecratório de tais expressões”. (Desterro, hoje Florianópolis, SC, 24 de Novembro de 1861 — Sítio, atual Antônio Carlos, Minas Gerais, 19 de Março de 1898.) BIBLIOGRAFIA: Broquéis ; Evocações; Faróis; Últimos Sonetos; etc. [3] Verso 10 - Ricochete: “…chora, chora.” Aliás, a repetição enfática de chorar sugere um pranto capaz de desabafar a alma, suscetível, no entanto, de insuflar ideias novas para que se possa bendizer o “santo cativeiro” das provações terrenas… [4] Verso 28 - Se dispuséssemos de bastante espaço, transcreveríamos numerosos sonetos do grande simbolista para que pudéssemos observar a semelhança de estilo, não apenas no que tange ao esquema rimático preferido pelo poeta, desde Broquéis aos Últimos Sonetos, mas, também, pela temática e pela presença das palavras-chaves do vate. Assim, de escantilhão, vamo-nos limitar a rápidas considerações e citações ligeiras. Ninguém ignora que Cruz e Souza, em quase todos os seus inimitáveis sonetos, se referia a pelo menos uma parte do corpo humano, exaltando-a, quase sempre. Cf., por exemplo, “Antífona”, “Em Sonhos…” “Braços”, “Encarnação”, “Tulipa Real”, “Serpente de Cabelos” e tantos outros poemas de Broquéis. Em Faróis, bastaria que citássemos a série de sete sonetos — o primeiro “Cabelos” e o último — o VII — “Corpo” que, ainda, ostenta o adjetivo “arcangélica”, tão familiar ao poeta. A propósito, cf. o 9º verso de “Satã” e o 14º de “Livre!”. Aliás, neste último soneto, encontramos algumas rimas de que se serviu o simbolista no “Escalada”. As demais, “suprema” e “algema”, encontramo-las nos dois quartetos de “O Assinalado”. [5] Verso 37 - por sofre-los. Cf. nota nº 3-4, pág. 110. [6] Verso 51 - Com relação a “fúrias”, por simples curiosidade, cf. o 5º verso de “Afra”, o 11º de “Dança do Ventre” e, finalmente, em “Demônios”, o oitavo verso: “Só fúria, fúria, fúria, fúria, fúria!” [7] Verso 70 - Atentemos nas palavras de M. Cavalcanti Proença, em seu já citado livro (Ritmo e Poesia, pág. 81); “Em Cruz e Souza, no poema “Antífona”, em 12 versos entre 44 (25%) se observa a mesma acentuação; note-se, entretanto, que, nos primeiros vinte versos, há nove cuja tônica em 6ª coincide com a de um proparoxítono.” Dos 70 decassílabos participantes desta Antologia, encontramos um total de 18 vocábulos proparoxítonos de acentuação na 6ª (26,7%), número, como se vê, bastante expressivo.