Antologia dos Imortais · F. C. Xavier. — Waldo Vieira · Chico Xavier
Capítulo 7 de 116
Auta de Souza
1 ESTRELAS
1 Beija essas mãos que alentas e que afagas, Quando és bondade apenas, branda e pura, Mãos engelhadas, mãos em miniatura, Mãos trêmulas, mãos tristes, mãos em chagas!…
2 Mãos que recordam náufragos, nas vagas De atormentado mar, em noite escura, Mãos que ensinam, em preces de amargura, Quão pequenina a dor em que te esmagas!…
3 Beija essas mãos cansadas, quase mortas, Flores de sangue e fel que reconfortas, A estender-lhes consolo, pão e ninho.
4 E, quando a morte apague a luz que levas, Essas mãos, como estrelas sobre as trevas, Brilharão por degraus de teu caminho!…
2 AOS CARAVANEIROS DO BEM
1 Caravana do amor, ditosa e bela — Esperança e consolo que bendigo —, Serve e divide o pão do excelso trigo De que o chão da bondade se constela!
2 Aqui, há provação e desabrigo; Além, o pranto é mar que se encapela… Ao sol do bem a simples bagatela Acende a excelsa luz do Excelso Amigo…
3 Segue e restaura a vida semimorta, Onde a noite da mágoa desconforta O coração que sangra, sofre e erra!…
4 Inda mesmo ante o mal, na luta inglória, A caridade é o canto de vitória Do reinado do Cristo sobre a Terra!…
3 ENTREVISTA
1 Não precisas buscá-lo no Azul pleno, Onde a vida imortal esplende e assume A estranha forma do Celeste Lume De que o homem percebe vago aceno.
2 Desce ajudando ao chavascal terreno Que tragédias e lágrimas resume… E espalha a caridade qual perfume Que se evola do lodo ao céu sereno.
3 Ante o vale da sombra imensa e fria, Abençoa, restaura, eleva e guia, Lenindo as aflições de toda a hora…
4 E perante o suor da angústia em chaga, Encontrarás o Cristo que te afaga, Em cada coração que luta e chora!…
4 COMPAIXÃO
1 Modera a exaltação dos teus sentidos, Não te faças distante ou displicente, Ouve as preces, as pragas e os gemidos Da fornalha em que clama a luta ingente.
2 Passa e fita os olhares doloridos Que traduzem a dor de tanta gente, Qual se avistasses corações queridos Rogando alívio à mágoa impenitente.
3 Serve, socorre e ampara a criatura Que vagueia a pedir de porta em porta, Revolvendo as entranhas na amargura.
4 Por ti mesmo, sê brando sem disfarce. Liberta a luz do amor que te conforta E anseia por sair a derramar-se…
5 TRABALHA AGORA
1 Pondera o tempo — mar em que navegas, Invisível apoio que te escora. Não te afundes no abismo, senda afora, Nem prossigas, em vão, tateando às cegas.
2 Glórias, delitos, lágrimas, refregas, Tudo é feito no tempo, de hora a hora… Estende o amor e a paz, semeando agora As riquezas do tempo que carregas!
3 Inda que a dor te oprima e o mal te afronte, Vive, qual novo dia no horizonte, Sem que a névoa do mundo te abastarde…
4 Hoje! Trabalha agora, em cada instante; Agora! trilha aberta ao sol triunfante!… Muitas vezes, depois é muito tarde!… 5-A DIVIDE
1 Não somes simplesmente os bens da vida… Deus reparte a bondade com grandeza. O próprio pão que te enriquece a mesa É mensagem da terra dividida.
2 Fita a glória solar fremindo acesa, A fonte que ao repouso te convida E as flores que se entregam sem medida, No coração de luz da Natureza…
3 Divide assim também do que te sobre. O celeiro do bem nunca está pobre, Inda que a singeleza nele brade.
4 A prece, o bolo, o caldo, o leito e a veste São dividendos para o Lar Celeste, No tesouro de amor da eternidade… [1] AUTA DE SOUZA — “Poetisa de grande emoção religiosa”, no dizer de Afrânio Peixoto, órfã de pai e mãe, A. de Souza, desde cedo, enfrentou o mar de provações redentoras, no qual vogou por toda a sua curta vida física. Educada no Estado de Pernambuco, amargou uma existência de acerbos sofrimentos. “Sua vida” — di-lo Hostílio Montenegro — “foi uma coroa de espinhos atada com a tuberculose.” Seu livro Horto traz um prefácio de Olavo Bilac, no qual o poeta, após dizer que o volume “vem revelar uma poetisa de raro merecimento”, faz esta ressalva: “não há nas estrofes do Horto o labor pertinaz de um artista.” “Talento e sensibilidade” — observa Domingos Carvalho da Silva (Vozes Fem. da Poesia Bras., pág. 25) — “não faltaram à triste moça tísica do Nordeste, que cometeu, todavia, o equívoco irreparável de fixar os olhos brilhantes em Lamartine, quando já brilhava a estrela de Mallarmé e Verlaine.” (Macaíba, Rio Grande do Norte, 12 de Setembro de 1876 — Natal, Rio Grande do Norte, 7 de Fevereiro de 1901.) BIBLIOGRAFIA: Horto. A 3ª edição, Rio de Janeiro, 1936, é prefaciada por Alceu Amoroso Lima. [2] Versos 25-32. - Ler com hiato: so/fre e/ er/ra; De/ que o/ ho/mem. [3] Verso 39. - Leia-se to/da a/ ho/ra, em três silabas. [4] Verso 62 - Cf. a nota anterior (verso 39 deste capítulo). [5] Verso 82 - Observe-se a enumeração.