Revista Espírita · Allan Kardec
Capítulo 32 de 102
Enterro espírita.
Sob este título, o Monde musical de Bruxelas, de 5 de março de 1865, descreve nos seguintes termos as exéquias da Sra. Vauchez, mãe de um dos nossos excelentes irmãos em Espiritismo:
“Os irmãos Vauchez, nossos amigos e colaboradores, perderam sua mãe há alguns dias. Os cuidados com que, ultimamente, um e outro cercaram essa dama respeitável eram o sinal e o efeito de uma ternura que não vem ao caso descrever.
“Os dois irmãos são espíritas. Reunidos a amigos que têm a mesma crença, acompanharam o corpo da mãe até o túmulo. Ali, o filho mais velho exprimiu, em palavras tão simples quanto justas, ao Espírito de sua mãe, que, na sua fé espírita, estava presente e os ouvia, a tristeza que essa separação produzia entre eles, ainda mesmo que, de outra parte, estivessem persuadidos de que ela entrava numa vida melhor, não deixaria de comunicar-se com eles e os inspiraria, fortalecendo-os continuamente na via do bem. Repetiu a certeza de que seus votos de agonizante seriam realizados pela consagração a duas boas obras, afora as despesas economizadas no enterro, puramente civil e sem qualquer cerimonial. Esses votos são: que seja feita uma fundação em favor da creche de Saint Josse-ten-Noode, e um abono assistencial em favor da velhice desamparada. “Depois desta espécie de conversa entre o filho e a alma de sua mãe, o Sr. Herezka, um dos amigos espíritas da família, exprimiu em versos, com a mesma simplicidade, algumas palavras, cuja reprodução dará a conhecer uma parte do que há de bom e de bem numa crença que, diariamente e em toda parte, se torna a de um maior número de homens, que se conta entre pessoas instruídas. Eis as palavras do Sr. Herezka à alma da defunta: Já aberta está a grande cova, Logo esta tumba atra e sutil Será de teu despojo a alcova; Mas, livre então do fardo vil, Irás planando pelo espaço, Seguindo do progresso o traço.
Basta de dúvida, de dor!
Do mal quebraste já a prisão, Deixa em teu corpo o desamor, E só o bem no coração.
Somente o amor e a caridade Te guiem pela eternidade!
Leva aos irmãos dos outros mundos Os nossos votos fraternais; Dize-lhes que seres fecundos, Maduros frutos eternais, Têm-nos mostrado lá do etéreo, Da morte o seu grácil mistério.
Dize-lhes! “Lá vossos amigos “Contra a ignorância inda orgulhosa “Vão dar combate aos seus perigos; “Por causa assim tão gloriosa, “Eis vos invocam com ardor, “Dai-lhes, Espíritos, amor!”
Vinde acalmar nossos tormentos, Oh! vinde os céus fazer-nos ver Em nossos desfalecimentos; E a nossos olhos resplender Qualquer centelha celestial Que emane de fonte imortal.
Após estas palavras, os irmãos Vauchez e seus amigos se retiraram sem ruído, sem ostentação, sem emoção dolorosa, como se tivessem vindo acompanhar alguém que empreende uma longa viagem, em todas as condições desejáveis de bem-estar e segurança. Mesmo sem ser espírita, tomamos parte no cortejo. Aqui não passamos do narrador de um fato: a cerimônia tão tocante quanto notável pela simplicidade e pela sinceridade da crença e das intenções. Roselli.
A Sra. Vauchez sucumbiu após trinta e dois anos de uma doença que há vinte anos a retinha no leito. Aceitara com alegria as crenças espíritas e nelas tinha haurido grandes consolações em seus longos e cruéis sofrimentos. Nós a vimos por ocasião de nossa última viagem a Bruxelas e ficamos edificados com sua coragem, resignação e confiança na misericórdia de Deus. Eis as primeiras palavras que ditou aos filhos pouco depois de ter exalado o último suspiro:
“O véu que ainda nos cobre o mundo extraterrestre acaba de ser levantado para mim. Vejo, sinto, vivo! Deus Todo-Poderoso, obrigada! Vós, meus guias, meus anjos da guarda e protetores, obrigada! Vós, meus filhos, tu, minha filha, resignação, pois sois espíritas; não me pranteeis: vivo a vida eterna, vivo na luz etérea; vivo e não sofro mais; minhas dores cessaram, minha prova terminou. Obrigado a vós, meus amigos, por terdes pensado em evocar-me logo; fazei-o muitas vezes. Eu vos assistirei e estarei convosco. “Deus teve piedade de meus sofrimentos. Oh! meus amigos, como é bela a vida da alma, quando desprendida da matéria! Bons Espíritos velam por vós; tornai-vos dignos de sua proteção. Neste momento estou assistida por vosso protetor, o bom São Vicente de Paulo.” Marguerite Vauchez.