Revista Espírita · Allan Kardec

Capítulo 31 de 102

O Espiritismo

Verdade, é pois! sua sombra querida Vem sustentar, encorajar meus cantos, E penetrar de prazer sem medida A feliz vaga de meus sonhos tantos.

Como uma luz refletida em minha alma, De seu Espírito raios risonhos Enchem meus dias de fulgente calma, Enchem-me as noites de encantados sonhos.

Então dos céus eu invoco as idades, Seu sopro puro traz-me uma lembrança, E do presente as nevuosidades Dissipa ante um futuro de esperança.

“Criança – ele diz – a terra abandonando, “Antigos dias de novo acharás; “Ao lado teu, quem foi teu pai te amando, “Nos corações amores eternais.”

Marie-Caroline Quillet.

Membro da Sociedade dos Escritores.

A Sra. Quillet, autora da Eglantine solitaire — Google Books, acaba de publicar um encantador livrinho com o título de Une heure de poésie, que será apreciado por todos os amantes dos bons versos. Sendo a obra estranha à Doutrina Espírita, posto não lhe sendo absolutamente contrária, sua apreciação escapa da especialidade de nossa Revista. Limitar-nos-emos a dizer que a autora prova uma coisa: pode-se ter espírito e crer nos Espíritos, contrariamente à opinião de alguns de seus confrades em literatura. A Sra. Quillet nos escreve o que segue, a respeito de uma das comunicações da Sra. Foulon, publicada no número de março. “A Sra. Foulon imagina que os homens não compreenderiam a poesia do Espiritismo. Deve ter razão do seu ponto de vista luminoso. Sem dúvida os poetas sentem suas asas pesadas pelas trevas de nossa atmosfera. Mas o instinto, a dupla vista de que são dotados, vêm auxiliar-lhes a inteligência. Eu creio que cada um é chamado, conforme suas aptidões, ao grande trabalho da renovação terrestre: os poetas, os filósofos, por inspiração dos Espíritos; os mártires, os trabalhadores, pelo gênio dos filósofos e pelo canto dos poetas. É verdade que esses cantos não passam de um suspiro; mas no exílio dos suspiros formam a base e o complemento do concerto.” Em apoio dessas palavras ela junta as seguintes estrofes: Aos poetas.

Despertai vós, apóstolos e poetas; Às predições do tempo daí ouvido.

Está cheio o ar do sopro dos profetas, E o hosana é então nos ventos retinido.

Há no Sinai nuvens sem claridades; O Etna a rugir ao horror dos fogaréus; Porém o Eterno afasta as tempestades, E sobre a terra enche de luz os céus.

Pois da parábola a verdade luz; Seu brilho puro nos tocando a fronte, De um novo dia o seu clarão traduz, E cujos raios para a fé são fonte.

A fé, o amor, o vero sol das almas Empresta aos mais obscuros a claridade; E de seu disco alimenta as palmas, Para o trabalho e para a caridade.

Vinde vós todos, mártires, aos cantos; Abri a voz a estranhos lutadores.

Aos ventos todos, nos altos recantos, Plantai do Cristo a humilde cruz das dores.

A Sra. Quillet está certa quando diz que cada um é chamado a concorrer para a obra da renovação terrestre. Ninguém contesta a influência da poesia, mas ela se engana quanto ao pensamento da Sra. Foulon, quando esta diz: “O entusiasmo invadiu-me a alma e espero que não seja muito tarde para vos entreter com o Espiritismo sério, e não com o Espiritismo poético, que não é bom para os homens. Estes não o compreenderiam.” O Espírito não entende por Espiritismo poético as ideias espíritas traduzidas pela poesia, mas o Espiritismo ideal, produto de uma imaginação entusiasta; e por Espiritismo sério o Espiritismo científico, apoiado nos fatos e na lógica, que melhor convém à natureza positiva dos homens de nossa época, o que constitui objeto de nossos estudos. [1]

Um vol. in-18. Preço: 3 fr. Livraria Delahais, em Pont-l’Éveque. [Une heure de poésie, par Mme Marie-Caroline Quillet,… — Google Books.]