Revista Espírita · Allan Kardec
Capítulo 27 de 118
Por que se lamentar?
Deus fez o homem ativo e livre e inteligente, De seu próprio destino, artífice também. Dois caminhos lhe abriu à escolha competente: Um que ao mal o conduz; outro que o conduz ao bem. E deles o primeiro é doce na aparência; Porquanto esforço algum requer de quem o segue: Sem cuidados quaisquer, só viver na indolência, Em instintos brutais livremente prossegue, É tudo o que é preciso. – O segundo caminho Certo esforço requer, bom trabalho em ação, Com vigilância atenta e sindicante alinho, Sempre ágil a razão e o instinto em contenção. O homem, livre de optar, pode dar-se ao primeiro, Na ignorância estagnar e na imoralidade; Preferindo ao dever um sentir mais grosseiro, À suprema razão, o instinto e a maldade. Ou bem pode ele, então, dando dócil ouvido A uma voz que lhe diz: “Nasceste pra crescer, E sempre progredir, não treva retido.” No segundo caminho um nobre anseio ter. Da sua decisão o seu destino depende Sombrio se vier de uma errônea visão, Ou qual da noiva alegre um olhar sorridente Àquele homem feliz que herdou seu coração. Se fizestes o mal, podereis neste mundo Riquezas adquirir, títulos, honrarias; Mas do Espírito a calma, e esse prazer profundo Que nasce do ideal, promotor de alegrias Fugirão para sempre; e o remorso ingente A voz vos seguirá mesmo em vossos festins, Cruel a misturar com nota assaz dolente Vossos cantos de glória e estribilhos afins. Mas quando vos chegar cruel a hora fatal, Livre o Espírito, enfim, de seu corpo tão caro, Novamente entrará em seu curso moral, Onde a verdade é luz e o mal requer reparo, Onde o sofisma impuro, a lassa hipocrisia Acesso já não têm, pois tudo é luminoso, Fantasma acusador, vossa vida de orgia Surgirá ante vós, em toda a parte, ansioso. Vossos crimes serão, rico, os vossos carrascos. Desnudo ver-vos-ei; poderoso, sozinho; Pasmado fugireis qual corça, entre penhascos, Do caçador que a perde irado e em desalinho. Talvez que ébrio de orgulho e tanto sofrimento, Soltareis contra Deus grito blasfemador, Mas vossa consciência atenta, no momento, Elevará então seu brado vingador: “Homem, de blasfemar cesse a tua demência. “Deus já te criou livre, ativo, inteligente, “Para ti expressou seu querer e potência, “Artífice te fez de ti mesmo, e consciente. “Tens na vontade tudo, enfim, pra transformar “Teu mal em alegria. Além dos escarcéus, Olha alguém que o dever cumpriu e a caminhar, “Lutou muito e venceu, na conquista dos céus. “Como preço do esforço a mesma recompensa “Te espera. – Por que, pois, tanta lastimação? “Ergue-te. E a Deus, que é bom, roga assistência intensa; “Ora, trabalha e luta, e o céu terás, então.” Um Espírito Protetor.
Observação. – Não levamos em conta algumas irregularidades de versificação, tendo em vista as ideias expendidas.