Revista Espírita · Allan Kardec

Capítulo 99 de 125

A abóbora e a sensitiva.

Dize qual o teu regime, ó pobre sensitiva? A abóbora indagava a uma pequena flor, Por que manter-te assim qual se não fosses viva? Falo-te com muita dor, A sensibilidade estiola-te; e enfraquece; Bem antes morrerás do fim desta estação; Quando, fugindo o sol no horizonte escurece Murcharem-se verás tuas folhas então: Um fatal estremecimento O teu caule percorre ante a brisa a roçar; Fazendo a crise então chegar; A vida então é-te um tormento.

E por que tanta pena e tal solicitude? Seja pois meu exemplo uma terna quietude. O que se passa em mim, pois não, Causar-me não me custa a mais leve emoção; De bem me sustentar faço minha virtude, Que importa, pois, em meu temperamento, Os mistérios do céu? – Do dia o esplendor, Da noite a escuridão, a umidade, o calor Tudo convém ao meu intento.

Minha forma redonda às vezes, é verdade, Induz o observador satírico e cruel Em murmúrio dizer: “A abóbora é nulidade!” Porém tal trato não me é fel; Sobre o meu leito nutro-me e, em riso, me rolo Para inveja causar, pousando sobre o solo, Meu grosso ventre e amplidão.

Os gostos, diz a flor, bem diferentes são; Tu queres consagrar-te ao gozo, à vida em féria, Ao bem-estar só da matéria; Creio fazer melhor, vejas bem, neste instante, Em abreviar minha existência, Me consagrando à excelência, Do sentimento bom, da inteligência, Terei vivido assim bastante.

Dombre, (de Marmande.)