Revista Espírita · Allan Kardec

Capítulo 98 de 125

O menino e o ateu

Um belo ser, ateu se proclamando, Passeava um dia ao lado de um rapaz Às margens de um regato, às quais sombreando, De um sol forte os livravam vegetais. Ao ver jorrar água tão pura, Diz ao jovem seu sábio companheiro: Aonde pensas tu que porventura Vai conduzir-lhe o curso o vale inteiro? Responde-lhe o rapaz: “Talvez um lago De suas águas ganhe-lhe o tributo, Que ao término de esforço amargo e vago De todos os riachos é o fim bruto.” Pobre criança! O mestre diz, sorrindo, Como enganado está teu ser; Aprende, pois, tudo no mundo é findo, Tudo se acaba no morrer.

Quando se afasta da nascente, Onde os filetes vão jorrando, É para achar seu termo, finalmente, Para sempre nos mares terminando. É de nós todos essa a dura imagem; Quando deixamos deste mundo a estada Eis o que resta então de uma curta passagem, Nos encontrarmos ante o nada. Oh! Meu Deus! Diz o moço em desolada voz, Essa é a verdade, então, tal nossa sorte? Que! E minha mãe, só somos nós, Terei tudo perdido em sua morte? Eu que supunha que sua alma querida Podia proteger sua criança, Com ela partilhar as penas desta vida, Tê-la perto de Deus não é minha esperança? “Guarda sempre contigo a doce crença.” Sussurra-lhe o bom anjo com bondade, Sim, bom menino, a fé te seja imensa, Sem ela, sobre a Terra, onde a felicidade? E o tempo se esgotou; correram anos Nosso sábio afinal desencarnou, Mantendo-os fiel aos seus loucos enganos, Creu-se morto a dizer que Deus nunca encontrou. Quanto ao menino, veio-lhe a velhice E sem receio recebeu a morte, Porque mantendo a fé da meninice, Nas mãos do Eterno Pai lhe redimiu a sorte. Vede que multidão que ora apressada Deixa o céu para o vir cá receber; E de Espíritos bons turma sagrada Que a um exilado irmão enfim torna a rever. Mas quem é aquela alma só e triste Que se esforça afinal por se ocultar? Do desgraçado sábio é o ser que a tudo assiste Que tudo vê e não pode aí se misturar. Foi muito amarga a sua pena, Por ter a Deus um dia então negado, Deus lhe surge afinal, não juiz que condena, Em majestade sublimado.

Oh! quanto pranto por herança Vieram quebrar dessa alma a empáfia dura! Ele que outrora rira da esperança De um pobre rapazelho além da sepultura. Mas do Senhor a bênção paternal Não pune para sempre o pecador; Em breve pois a alma imortal Devolve à Terra com Amor.

Por sua vez purificada, Em cujos erros já não cai, De luz e glória inebriada Vai repousar aos pés do Eterno Pai. Assinado: Ducis.

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Vide nota no número anterior, sobre o Anjo-da-guarda.