Há dois mil anos… · Emmanuel · Chico Xavier

Capítulo 12 de 21

Alvoradas do Reino do Senhor

1 Reportando-nos à dolorosa e comovedora cena do sacrifício dos mártires cristãos, na arena do circo, somos compelidos a acompanhar a entidade de Lívia na sua augusta trajetória para o Reino de Jesus.

Nunca os horizontes da Terra foram gratificados com paisagens de tanta beleza, como as que se abriram nas esferas mais próximas do planeta, quando da partida em massa dos primeiros apóstolos do Cristianismo, exterminados pela impiedade humana, nos tempos áureos e gloriosos da consoladora doutrina do Nazareno.

Naquele dia, quando as feras famintas estraçalhavam os indefesos adeptos das ideias novas, toda uma legião de espíritos sábios e benevolentes, sob a égide do Divino Mestre, lhe rodeava os corações dilacerados no martírio, saturando-os de força, resignação e coragem para o supremo testemunho de sua fé.

Sobre as nefastas paixões desencadeadas, naquela assistência ignorante e impiedosa, desdobravam os poderes do céu o manto infinito de sua misericórdia, e além daquele vozerio sinistro e ensurdecedor havia vozes que abençoavam proporcionando aos mártires do Senhor uma fonte de suaves e ditosas consolações.

2 Entardecia já, quando tombavam as últimas vítimas ao choque brutal dos leões furiosos e implacáveis.

Abrindo os olhos entre os braços carinhosos do seu velho e generoso amigo, Lívia compreendera, imediatamente, a consumação do angustioso transe. Simeão tinha nos lábios um sorriso divino e lhe acariciava os cabelos, paternalmente, com meiguice e doçura. Estranha emoção vibrava, porém, na alma liberta da esposa do senador, que se viu presa de lágrimas dolorosas. A seu lado notou, com penosa surpresa, os despojos sangrentos do corpo dilacerado e entendeu, embora o seu amarguroso espanto, o doce mistério da ressurreição espiritual, de que falava Jesus nas suas lições divinas. Desejou falar, de modo a traduzir seus pensamentos mais íntimos e, todavia, tinha o coração repleto de emoções indefiníveis e angustiosas. Aos poucos, notou que, da arena ensanguentada erguiam-se entidades, qual a sua própria, ensaiando passos vacilantes, amparadas, porém, por criaturas graciosas, etéreas, aureoladas de graça incomparável, como jamais contemplara em qualquer circunstância da vida. Aos seus olhos desapareceu o cenário colorido e tumultuoso do circo da ignomínia e aos seus ouvidos não mais ressoaram as gargalhadas irônicas e perversas dos espectadores cruéis e impiedosos. Notou que, do firmamento constelado, fluía uma luz misericordiosa e compassiva, afigurando-se-lhe que uma nova claridade, desconhecida na Terra, se acendera maravilhosamente dentro da noite. Imensa multidão de seres, que lhe pareciam alados, cercava-os a todos, enchendo o ambiente de vibrações divinas.

3 Deslumbrada, viu, então, que entre a Terra e o Céu, se formava um radioso caminho…

Através de uma esteira de luz intraduzível, que não chegava a ofuscar o brilho caricioso e terno das estrelas que bordavam, cintilando, o azul macio do firmamento, observou novas legiões espirituais que desciam, celeremente, das maravilhosas regiões do Infinito…

Empolgados com as sonoridades delicadas daquele ambiente indescritível, seus ouvidos escutaram, então, melodias cariciosas do Plano Invisível, como se de ou volta com liras e flautas, harpas e alaúdes, cantassem no Alto as divinas toutinegras do paraíso, projetando as alegrias siderais nas paisagens escuras e tristes da Terra…

Seu espírito, como que impulsionado por energia misteriosa, conseguiu, então, manifestar as emoções mais íntimas e mais queridas. Abraçando-se ao velho e generoso amigo da Samaria, pôde murmurar banhada em lágrimas:

— Simeão, meu benfeitor e mestre, roga comigo a Jesus para que esta hora me seja menos dolorosa.

— Sim, filha — respondeu o venerável apóstolo aconchegando-a ao coração, como se o fizesse a uma criança — o Senhor, na sua infinita misericórdia reserva o seu carinho a quantos lhe recorrem à magnanimidade, com a fé ardente e sincera do coração!… Acalma o teu espírito porque estás, agora, a caminho do Reino do Senhor, destinado aos corações que muito amaram!…

4 Naquele instante, porém, uma força incompreensível parecia impelir para as Alturas quantos ali se conservavam sem a pesada indumentária da Terra…

Lívia sentiu que o terreno lhe faltava e que todo o seu ser volitava em pleno espaço, experimentando estranhas sensações, embora fortemente amparada pelos braços generosos do venerando amigo.

Era, de fato, uma radiosa caravana de entidades puríssimas, que se elevava em conjunto, através daquele cintilante caminho, traçado de luz em pleno Éter!… Experimentando singulares sensações de leve, a esposa do senador sentiu-se mergulhada num oceano de vibrações cariciosas e suavíssimas.

Todos os companheiros lhe sorriam e contemplando-os, igualmente amparados pelos mensageiros divinos, ela identificava um a um, quantos lhe haviam sido irmãos no cárcere, no martírio e na morte infamante. Em dado instante, todavia, como se a memória fosse chamada a todos os pormenores da realidade ambiente, lembrou-se de Ana, sentindo-lhe a falta, naquela jornada de glorificação em Jesus Cristo. Bastou que a recordação lhe aflorasse no íntimo, para que a voz de Simeão esclarecesse com a proverbial bondade:

— Filha, mais tarde poderás saber tudo… Na tua saudade, porém, inclina-te sempre aos desígnios divinos, inspirados em toda a sabedoria e misericórdia… Não te impressiones com a ausência de Ana neste banquete de alegrias celestiais, porque aprouve a Jesus conservá-la ainda algum tempo na oficina de suas bênçãos, entre as sombras do degredo terrestre…

Lívia ouviu e resignou-se, silenciosa.

5 Reconheceu que seguiam sempre pela mesma estrada maravilhosa, que, a seus olhos, parecia ligar o Céu e a Terra num carinhoso amplexo de luz, figurando-se-Ihe que todos os divinos componentes da luminosa caravana flutuavam num movimento de ascensão, em pleno espaço, demandando regiões gloriosas e desconhecidas. No seio dos elementos aéreos, admirava-se de conservar todo o mecanismo de suas sensações físicas, através do eterizado e radioso caminho. Ao longe, nos abismos do ilimitado, parecia divisar novos firmamentos estrelados, que se multiplicavam maravilhosamente no seio do Infinito, e, observava radiações fulgurantes que, por vezes, lhe ofuscavam os olhos deslumbrados…

De outras vezes, olhando furtivamente para trás, via um acervo de sombras compactas e movediças, onde se localizavam as esferas de vida na Terra distante. Em todas as margens do caminho verificou a existência de flores graciosas e perfumadas, como se os lírios terrestres, com expressões mais delicadas, se houvessem transportado aos jardins do paraíso…

A eternidade apresentava-se-lhe com encantos e venturas indizíveis!…

6 Simeão falava carinhosamente da sua adaptação à vida nova e das belezas sublimadas do reino de Jesus, recordando com alegria as penosas angústias da vida na Terra, quando aos seus ouvidos ecoaram vozes argentinas e harmônicas dos rouxinóis siderais que festejavam, nas Alturas, a redenção dos mártires do Cristianismo, como se estivessem chegando às cercanias de uma nova Galileia, saturada de melodias e perfumes deliciosos, erguida à luz plena do Infinito, qual ninho de almas santificadas e puras, balouçando aos ventos perfumados de uma primavera interminável, na árvore da criação, maravilhosa e sem fim… Aquele hino suave e claro, ora se elevava às alturas em sonoridades prodigiosas, como se fora um incenso sutil das almas procurando o sólio do Sempiterno em hosanas de amor, de alegria e de reconhecimento, ora descia em melodias arrebatadoras, demandando as sombras da Terra, como se fosse um brado de fé e esperança em Jesus Cristo, destinado a acordar no mundo os corações mais perversos e mais empedernidos...

7 A linguagem humana não traduz fielmente as harmoniosas vibrações das melodias do invisível, mas aquele cântico de glória, ao menos palidamente, deve ser lembrado por nós outros como suave reminiscência do paraíso:

— Glória a Ti, Senhor do Universo, Criador de todas as maravilhas!...

É por tua sabedoria inacessível que se acendem as constelações nos abismos do Infinito e é por tua bondade que se desenvolve a erva tenra na crosta escura da Terra!…

Por Ti, Senhor, fez-se o verbo do princípio ilimitado e sem fim!…

Por tua grandeza inapreciável e por tua justiça misericordiosa, abre o tempo os seus ilimitados tesouros para as almas!…

Por teu amor, sacrossanto e sublime, florescem todos os risos e todas as lágrimas no coração das criaturas!…

Abençoa, Senhor do inverso, as sagradas esperanças deste Reino! Jesus é para nós o teu Verbo de amor, de paz, de caridade e de beleza!… Fortalece as nossas aspirações de cooperar em sua Seara Santa!…

Multiplica as nossas energias e faze chover sobre nós o fogo sagrado da fé para espalharmos, na Terra, as divinas sementes do amor de teu Filho!…

Basta uma gota do orvalho divino de tua misericórdia para que se purifiquem todos os corações, mergulhados no lodo dos crimes e das impenitências terrestres, e basta um raio só do teu poder para que todos os espíritos se convertam ao bem supremo!…

E agora, ó Jesus, Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, recebe as nossas súplicas ardentes e fervorosas!

Abençoa, ó Divino Mestre, os que chegam redimidos da terra da amargura, santifica-lhes as esperanças com o anélito criador de tuas bênçãos sacratíssimas!…

Vítimas da perversidade humana, cumpriram, valorosamente, os teus missionários, todas as obrigações que os prendiam ao cárcere do penoso degredo!…

O mundo, no torvelinho de suas inquietações e iniquidades, não lhes compreendeu o coração amantíssimo, mas, na tua bondade e misericórdia, abres aos mártires da verdade as portas sacrossantas do teu reino de luz!…

10 — “Vinde a mim, vós todos que semeastes com lágrimas e sangue, na vinha celeste do meu reino de amor e verdade!… Nas moradas infinitas do Pai, há luz bastante para dissipar todas as trevas, consolar todas as dores, redimir todas as iniquidades...

11 Glorificai-vos, pois, na sabedoria e no amor de Deus Todo Poderoso, vós que já sacudistes o pó das sandálias miseráveis da carne, nos sacrifícios purificadores da Terra! Uma paz soberana vos aguarda, para sempre, no reino dilatado e sem fim, prometido pelas divinas aleluias da Boa-Nova, porque não alimentastes outra aspiração no mundo, senão a de procurar o reino de Deus e de sua justiça.

12 “Entre a Manjedoura e o Calvário, tracei para as minhas ovelhas o eterno e luminoso caminho… O Evangelho floresce, agora, como a seara imortal e inesgotável das bênçãos divinas. Não descansemos, contudo, meus amados, porque tempo virá na Terra, em que todas as suas lições hão de ser espezinhadas e esquecidas... Depois de longa era de sacrifícios para consolidar-se nas almas, a doutrina da redenção será chamada a esclarecer o governo transitório dos povos; mas, o orgulho e a ambição, o despotismo e a crueldade hão de reviver os abusos nefandos de sua liberdade! O culto antigo, com as suas ruínas pomposas, buscará restaurar os templos abomináveis do bezerro de ouro. Os preconceitos religiosos, as castas clericais, os falsos sacerdotes, restabelecerão novamente o mercado das cousas sagradas, ofendendo o amor e a sabedoria de Nosso Pai, que acalma a onda minúscula no deserto do mar, como enxuga a mais recôndita lágrima da criatura, vertida no silêncio de suas orações ou na dolorosa serenidade de sua amargura indizível!…

13 “Soterrando o Evangelho na abominação dos lugares santos, os abusos religiosos não poderão, todavia, sepultar o clarão de minhas verdades, roubando-as ao coração dos homens de boa vontade!…

“Quando se verificar este eclipse da evolução de meus ensinamentos, nem por isso deixarei de amar intensamente o rebanho das minhas ovelhas tresmalhadas do aprisco!…

“Das Esferas de luz que dominam todos os círculos das atividades terrestres, caminharei com os meus rebeldes tutelados, como outrora, entre os corações impiedosos e empedernidos de Israel, que escolhi, um dia, para mensageiro das verdades divinas entre as tribos desgarradas da imensa família humana!…

14 “Em nome de Deus Todo Poderoso, meu Pai e vosso Pai, regozijo-me aqui convosco, pelos galardões espirituais que conquistastes no meu reino de paz, com os vossos sacrifícios abençoados e com as vossas renúncias purificadoras! Numerosos missionários de minha doutrina ainda tombarão, exânimes, na arena da impiedade, mas hão de constituir convosco a caravana apostólica, que nunca mais se dissolverá, amparando todos os trabalhadores que perseverarem até o fim, no longo caminho da salvação das almas!…

15 “Quando a escuridão se fizer mais profunda nos corações da Terra, determinando a utilização de todos os progressos humanos para o extermínio, para a miséria e para a morte, derramarei a minha luz sobre toda a carne e todos os que vibrarem com o meu reino e confiarem nas minhas promessas, ouvirão as nossas vozes e apelos santificadores!…

“Dentro das suaves revelações do Consolador, pela sabedoria e pela verdade, meu verbo se manifestará novamente no mundo, para as criaturas desnorteadas no caminho escabroso, através de vossas lições, que se perpetuarão nas páginas imensas dos séculos do porvir!…

16 “Sim! amados meus, porque o dia chegará, no qual todas as mentiras humanas hão de ser confundidas pela claridade das revelações do Céu. Um sopro poderoso de verdade e vida varrerá toda a Terra, que pagará, então, à evolução dos seus institutos os mais pesados tributos de sofrimento e de sangue… Exausto de receber os fluidos venenosos da ignomínia e da iniquidade de seus habitantes, o próprio planeta protestará contra, a impenitência dos homens, rasgando as entranhas em dolorosos cataclismos… As impiedades terrestres formarão pesadas nuvens de dor que rebentarão, no instante oportuno, em tempestades de lágrimas na face. escura da Terra e, então, das claridades de minha misericórdia, contemplarei meu rebanho desditoso e direi como os meus emissários: “Ó Jerusalém, Jerusalém!…”

17 “Mas, Nosso Pai que é a sagrada expressão de todo o amor e sabedoria, não quer se perca uma só de suas criaturas, transviadas nas tenebrosas sendas da impiedade!…

Trabalharemos com amor na oficina dos séculos porvindouros, reorganizaremos todos os elementos destruídos, examinaremos detidamente todas as ruínas, buscando o material passível de novo aproveitamento e, quando as instituições terrestres reajustarem a sua vida na fraternidade e no bem, na paz e na justiça, depois da seleção natural dos Espíritos a dentro das convulsões renovadoras da vida planetária, organizaremos para o mundo um novo ciclo evolutivo, consolidando com as divinas verdades do Consolador os progressos definitivos do homem espiritual.”