Dádivas de amor · Maria Dolores · Chico Xavier
Capítulo 20 de 21
Vila Esperança
1 Alegas, muita vez, alma querida: — O tédio me entorpece e me consome a vida!…
2 Um erro na poltrona te desgosta, Apaga-te o sorriso e deixa-te indisposta…
3 O marido, preso, por natureza, Era um médico amigo da pobreza.
4 Houvesse algum enfermo em pequena palhoça… Ei-lo, junto ao doente em plena roça…
5 Ele sofre e adoece, certo dia, E roga à esposa, amparo e companhia.
6 Ela atende ao insólito pedido, Enquanto ele se mostra surpreendido.
7 De um carro velho e forte, sem tardança, Descem os dois ao chão, ante a Vila Esperança.
8 Ali, toda morada, é formada de zinco, Alinhando-se em grupo, cinco a cinco.
9 Disse o esposo a ela:
— “Hoje, o trabalho aqui é teu recado… Os doentes são teus… Ando muito cansado…”
10 Do casebre primeiro saem gemidos dos loucos… Eis que o esposo explica:
— “É a Dona Flora, exaurindo-se aos poucos…
11 “Não mais resiste a pobre ao câncer que a devora Mas, para aliviar a angústia que a domina Temos na pasta que eu trouxe a injeção de morfina.”
12 Aplicada a injeção, ela vê três crianças Junto à mulher sofrida, em choro continuado… Ela fala ao marido, acerca de mudanças, E acaba perguntando ao esposo intrigado: — “O que comem aqui estas crianças nuas?” O médico responde:— “O pão dado nas ruas.” Ela aciona o carro e adquire cem pães, Que distribui na praça, entre os filhos e as mães.
13 — “Moça, — grita uma voz De uma das casinholas escondidas, — Venha nos ver, Somos pobres doentes desvalidas!…” A dama entra no quarto E lava-lhes as manchas e as feridas… Anda de casa em casa.
Dá remédio às crianças com bronquite E socorre aos enfermos, Vítimas de hepatite…
De sentimento preso Às dores que a detinham no lugar, Oito horas gastou a lavar e a limpar.
14 De volta, eis que ela sente O marido mais forte e mais contente… Notou que o Cristo Amado estaria mais perto E admitiu que a vida Nunca mais lhe seria Desencanto e deserto… Adentrou-se no lar, recordando a excursão Que lhe alterara a mente, o caminho e a visão…
15 Ajoelhou-se em prece, Pensando na penúria que encontrara. Contemplou de uma fímbria da janela A noite linda e clara…
Imaginou Jesus Caminhando ao encontro da pobreza E quase sem querer Exclamou para os Céus:
— “Obrigada, Jesus, pela Vila Esperança Que me falou do amor que não se cansa… Agora, estou na paz que eu sempre quis. A qualquer hora posso ser feliz!… Obrigada, Jesus, por me ensinar Que a Caridade é Luz e a Luz é trabalhar!… Maria Dolores