Caminhos do amor · Maria Dolores · Chico Xavier

Capítulo 23 de 33

Abrigo ideal

1 E tudo vai passando, como sempre dizes, Os dias de infortúnio e os momentos felizes.

2 Tempos de infância, belos e risonhos Esvaíram-se todos, tais quais sonhos Que não consegues explicar; O lar de agora já não te parece O mesmo antigo lar Em que o colo de mãe, na luz da prece, Inteiro se te abria, Sustentando-te a paz no clarão da alegria…

3 Onde ouvir novamente as vozes que, à noitinha, Uniam-se-te à voz inocente a cantar: — “Oh! ciranda, cirandinha, Vamos todos cirandar!…”

Fitavam-te, na marcha dos instantes, Estrelas cintilantes, Como a notar te o sentimento puro E a te indicarem, sem que percebesses, As estradas difíceis do futuro.

4 A juventude plena de ansiedade Passou, qual luminosa floração, E indagas onde estão Os planos da primeira mocidade…

5 Refletes nas queridas afeições No ponto solitário em que te pões… Quantos amigos desertaram Da senda em que persistes?

Quantos julgaram tristes As tarefas que abraças?

E largaram-te, a sós, dizendo-se à procura Do prazer, do renome e da ventura?!…

6 Enquanto passas, No serviço de sempre, De coração ao desalinho, Perguntas, muitas vezes, quantos lábios Ouviste transformados no caminho, Lábios que te falavam, ontem, de ternura, Em promessas de apoio e de carinho E hoje te comunicam amargura, Acusação, queixa e censura, Impondo-te incerteza e incompreensão?

7 E os outros que, em magoada despedida, Deixaram-te no mundo, em busca de outra vida, Dando-te a inquietação constante que te invade Pela chama invisível da saudade?!…

8 E tudo vai passando, tal qual dizes, Os instantes felizes e infelizes, Entretanto, alma irmã, de pés sangrando embora, Segue amando e servindo, tempo afora… Nada te impeça caminhar Para a sublimação que te pede lutar, Esculpindo, em ti mesmo, o amor cuja beleza Palpita em tua própria natureza.

9 Não contes desengano, prova, idade… Segue e não temas, Quem serve encontra em todos os problemas Motivação para a felicidade.

10 E quando tudo te pareça Saudade e solidão Na bruma que te envolva o coração, Entra no claro abrigo que reténs, Que se te faz no mundo o mais alto dos bens, Riqueza em luz e paz que ninguém desarruma E nunca sofre alteração alguma… Esse refúgio ideal que te descansa Nos tesouros de tudo quanto é teu, É a bênção de servir que te guarda a esperança No trabalho do bem que Deus te concedeu… Maria Dolores