Caminhos do amor · Maria Dolores · Chico Xavier

Capítulo 22 de 33

Missão de mulher<

1 Jovem prendada e linda, era a própria beleza, Rosa de inteligência e natureza, Viera de remoto povoado, Com tarefas de estudo e sonhos de noivado, E conquistara enorme simpatia… Fizera-se modelo e se reconhecia O ponto alto das exibições, Favorita do brilho em passarela, Pisando corações…

2 Ela encontra, por fim, num jovem rico e nobre A cortina de ouro em que se encobre. Quatro anos de luxo nos salões Tornaram-na famosa e cada vez mais bela.

3 Certo dia, no entanto, inesperadamente, Uma carta lhe chega… Vem da vila Em que passara a infância humílima e tranquila, É da mãezinha que se diz doente… Falecera-lhe o irmão, seu único parente, Declarava-se triste e desolada, Incapaz de ganhar o próprio pão… Rogava à filha proteção, Sentia-se sozinha e fatigada E, sobretudo, estava em luta insana, Pois era agora triste hanseniana.

4 A moça treme revoltada E, às súbitas, planeia O que admite por melhor medida; Não quer aquela mãe que a desnorteia; Detestaria ver-se diminuída Perante o homem que ama.

Age arbitrariamente, Adita ao próprio nome um nome diferente Na rude inquietação que ela própria extravasa… E, mudando de casa, Permaneceu na expectativa…

5 Realmente, depois de algum tempo passado, Senhora hanseniana morta-viva Bate-lhe à porta, em tom desesperado; Servidores atendem, entretanto Ela quer ver a filha que ama tanto, Colhendo reiterada negativa. Mas sabendo-a sentada sobre o piso Que dava acesso ao grande apartamento, A própria moça surge, de improviso, A gritar lhe, de ânimo violento: — Saia daqui, depressa! Vá-se embora!… Não conheço a senhora E caso aqui persista, Tenho a polícia à vista!…

6 — Filha, dize por que… — Exclamou a mulher agoniada, Estarei eu assim tão deformada Que o seu olhar já não me vê? Não ficarei aqui, não lhe trarei perigo, Mas não vês que a mãezinha está contigo?

7 — A senhora não passa de embusteira, — Falou a moça, a gestos desumanos. — Minha mãe já morreu, há muitos anos… Velha tonta, Não sei como se fez aventureira, Mas a polícia vai tomar lhe a conta…

8 Minutos decorridos, Enquanto a pobre mãe chorava, angustiada, Uma ambulância veio em disparada E conduziu-a para um sanatório.

9 Trinta anos passaram sobre a cena, A filha desposara o jovem que a queria. O casal conjugava a fortuna e a alegria, Ele, o industrial, ela, a nobre senhora, E um filho nobre e forte Surgiu-lhes a brilhar Por tesouro do lar.

10 Quanto à pobre mulher deixara a enfermaria, Conseguira curar-se, Mas não mostrava mais a face antiga, Era triste velhinha sem disfarce, Desditosa mendiga…

Conhecida por velha hanseniana, Já sofrera de sobra a zombaria humana… Morava numa furna abandonada, Não distante da fábrica de tubos E outros artigos de eletricidade De que o neto distinto era dono e gerente…

11 Sabendo-se que fora humilhada e doente, Cobria-se com capa esburacada E, lembrando uma sombra a pervagar na estrada, Pedia aqui e ali, um socorro qualquer… Mas em torno da fábrica era o ponto Em que a infeliz mulher Parecia um rondante, atento e pronto, A observar o que passasse…

Se encontrava o gerente, face à face, Dizia, constrangida: — Uma esmola, doutor!… Intrigado o rapaz notava aqueles olhos Que o miravam, mostrando imenso amor… Dava-lhe algum dinheiro, atento a isso, Depois seguia adiante Mergulhando a atenção em seu próprio serviço…

12 Seguia o tempo em marcha regular, Quando veio a estourar Na fábrica tranquila Um grande movimento De protesto violento, Que englobava, por si, todo o operariado… A gerência estudava ação conciliadora E os conflitos surgiam, lado a lado.

13 No ápice da luta, A velhinha cansada, dia a dia, Observa a extensão da rebeldia, Mantendo-se, de guarda, ao pé das oficinas, Qual um posto de escuta.

14 Certa noite, enxergou dois delinquentes Quando os vigias cochilavam fora, Agiam, sem que a vissem trêmula e calada… Uma porta se arromba E os dois, dentro da fábrica isolada Colocam grande bomba, No intuito de gerar perturbação, E fogem, assustados, do recinto…

15 Ela entra em ação, Obedecendo ao próprio instinto… O estopim fumegava… Ela, porém, Sem o concurso de ninguém, Toma nas mãos o engenho destruidor. Avança sem temor, Sai pela porta afora, Correndo sem a mínima demora, Mas, antes que atirasse a bomba ao chão; Dá-se a grande explosão.

A fábrica salvara-se.

Ela, porém, tombara Mortalmente ferida…

16 Faz-se tumulto, em torno… Eis o chefe a chegar…

Reconhece a velhinha e determina Que ela seja tratada Por valente heroína…

17 Foi no hospital a derradeira cena. Finava-se a velhinha devagar, Mostrando no semblante a beleza serena De quem transmite a paz no próprio olhar…

18 Eis que, em dado momento, Ela percebe vozes e alarido; Ao formoso aposento O gerente trouxera os pais com garbosa alegria; Deviam ver a pobre que morria E que o amara tanto…

19 O casal aproxima-se… A senhora Treme ao reconhecer a mãe que rejeitara outrora… Enquanto filho e pai conversam à distância Ajoelha-se a filha; ante a mulher que morre… Ela pede perdão no pranto que lhe escorre Dos olhos espantados…

Contudo, a agonizante ao percebê-la, Ciciou as palavras: — Minha estrela!… Ouvindo-a soluçar, Consegue novamente sussurrar: — Filha do coração, Jesus a trouxe aqui… Depois disse ao cair, em profundo torpor: — Não chores, meu amor, Eu nunca te esqueci…

20 Lá fora, o Sol, em tudo, era vida e esplendor, Parecendo dizer na própria chama, Que, desde a luz dos Céus aos abismos da lama Deus, em todo o Universo, é a Presença do Amor. Maria Dolores