Baú de casos · Cornélio Pires · Chico Xavier
Capítulo 3 de 21
Almas sem fé
1 Em carta, você me pergunta, Meu caro Antônio Peri, De que modo almas sem fé Costumam viver aqui.
2 Diz você “almas sem fé”. E a sua definição Faz com que a gente medite Nos assuntos tais quais são.
3 A você posso afirmar De quanto agora conheço: Cada qual, depois da morte, Procura o próprio endereço.
4 Quem se dedica a elevar-se No campo do dia a dia, Vive no Além pela fé No trabalho a que servia.
5 Mas quem anda mundo afora, Sem ideal ou sem crença, Na Terra ou fora da Terra, Está naquilo que pensa.
6 Nesse caso, vale pouco A morte por nova estrada, A mente em desequilíbrio Continua alucinada.
7 Quem viveu só para si Segue essa linha incorreta E é tanta gente no embrulho Que eu mesmo fico pateta.
8 Você recorda o João Panca No Roçado da Parede, Desencarnado em preguiça Vive atolado na rede.
9 Garimpeiro apaixonado, Manoelino de Nhá Chica, Sem corpo, mora na serra, Caçando mina de mica.
10 Tanto pensava em comida Que Altino de Vista Bela, No Além, traçou na cabeça A forma de uma panela.
11 Bebedor como ninguém, Nosso Anselmo Rosmaninho Já morreu, há muito tempo, E está no copo de vinho.
12 Sempre parada no ouro, Desencarnou Dona Rita, Está sem corpo, há dez meses, E a pobre não acredita.
13 Conquistador, morreu Nico, Hoje, ao fazer-se presente, Ele ataca de fantasma E as moças correm na frente.
14 Tanto buscava adorar-se Que Esmeraldina Botelho, Depois de desencarnada, Não larga a face do espelho.
15 Sem esforço em que progrida, Tal qual por aqui se vê, É muita gente que vive Sem saber como e porquê…
16 A vida sem ideal É trilha na contra-mão, Dificuldade e perigo Seguindo sem direção.
17 Use o carro de seu corpo, Servindo e amando com fé. Quem age e confia em Deus Não precisa marcha à ré. Cornélio Pires