Antologia dos Imortais · F. C. Xavier. — Waldo Vieira · Chico Xavier

Capítulo 25 de 116

Andradina de Oliveira

1 CONFIDÊNCIA DE MÃE

1 Dei-te um berço de rendas e de flores, Adorei-te por nume excelso e amigo E inclinei-te, meu filho, a ser comigo Soberano de sonhos tentadores.

2 Ordenava, no orgulho que maldigo: — “Não te curves nem sirvas, onde fores…” Entreguei-te mentiras por louvores E enganosa fortuna por abrigo.

3 Hoje, de alma surpresa, torno a casa; Tremo ao ver-te no luxo que te arrasa, Como quem dorme em trágico veneno!

4 E choro, filho meu, choro vencida, Por guardar-te entre os grandes toda a vida, Sem jamais ensinar-te a ser pequeno.

2 SOLUÇO MATERNAL

1 Perdoa-me a loucura, pobre filha, Entreguei-te ao salão, inerme criança, E ao dizer-te: — “repousa, folga e dança”, Envolvi-te em meu logro, de partilha…

2 Contemplo-te a bailar… O palco brilha… És volúpia, beleza, intemperança… Escuto em prece o aplauso que te alcança E lamento a vitória que te humilha…

3 Ah! minha triste pérola perdida, Novamente daria sonho e vida Para furtar-te ao fogo em que te abrasas!

4 Mas tudo agora é a mágoa que me entrega À imensa dor de ver-te rica e cega, Mariposa queimando as próprias asas!… 2-A BRANDURA

1 Asserena-te e vara a desventura No caminho de dor, áspero e azedo; Serenidade — o lúcido segredo Em que a vida se eleva e transfigura.

2 Tudo cresce na força da brandura. A água desgasta os punhos do rochedo; Olha a chuva cantando no arvoredo, A transfundir-se em pão, bondosa e pura.

3 De coração batido e lodo à face, Inda que o fel da injúria te traspasse, Semeia o bem que as mágoas alivia…

4 Mesmo trazendo o peito por cratera, Suporta, ampara e crê, ajuda e espera, Que amanhã será sempre novo dia. [1] ANDRADINA América DE Andrada e OLIVEIRA — Poetisa, contista, romancista, iniciou sua vida literária, quase menina, conforme afirma sua filha Lola de Oliveira em Minha Mãe!, escrevendo em inúmeros periódicos sul-riograndenses. Foi também teatróloga e aplaudida conferencista. Professora pela Escola Normal de Porto Alegre, com distinção em todas as matérias, a poetisa de Folhas Mortas lecionou em cursos particulares, em várias cidades gaúchas, depois de nove anos dedicados ao magistério público. Fundou um jornal literário feminino, O Escrínio, mais tarde transformado em revista ilustrada, e formou, segundo Antônio Carlos Machado, entre as maiores feministas brasileiras de sua época. De 1920 até à sua desencarnação, residiu na capital paulista. (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 12 de Junho de 1878 — S. Paulo, 19 de Junho de 1935.) BIBLIOGRAFIA: Folhas Mortas; Preludiando, contos ; Cruz de Pérolas, contos; etc. [2] Verso 6 - onde. Cf. nota nº 72, pág. 141. [3] Verso 16 - Ler com sinérese: crian-ça.