Antologia dos Imortais · F. C. Xavier. — Waldo Vieira · Chico Xavier

Capítulo 16 de 116

Augusto dos Anjos

1 DIVINO SOL

1 Noite. Retorno à Terra. Entre os aflitos Que a luta impele aos últimos degraus, Sinto a perturbação que envolve o caos E a exalação de todos os detritos.

2 Entre o mundo e meu pranto, a sós, vagueio, Na torva indagação que me constringe. A vida é aterradora e imensa esfinge No horror que me tortura de permeio.

3 Ao coro estranho de sinistros ventos, Ergue-se a angústia num milhão de vozes… Do choro mudo a imprecações ferozes, Há turbilhões de trágicos lamentos.

4 Paixões embatem com medonha fúria. O fel da provação verte sem peias… O homem é como alguém que abrindo as veias Tenta fugir debalde à carne espúria.

5 Em toda a parte, a dor comprime o cerco, E os que dormem, quais míseros cativos, Assemelham-se a tristes mortos-vivos, Agonizando em túmulos de esterco.

6 Acorrentada entre os horrendos muros Dos seus próprios grilhões imanifestos, A Humanidade escuta os vãos protestos Dos sonhos que morreram nascituros…

7 Mas, dissipando a sombra por rompê-la, Na gleba que de lodo se engalana, Como sinal de Deus na furna humana, Surge sublime e resplendente estrela.

8 Há nova luz de amor que tudo invade. E percebo, no pântano entrevisto, Que a redenção virá, brilhando em Cristo, Ante o Divino Sol da caridade.

2 OBSESSÃO

1 Hidra de sentimentos fesceninos, A obsessão medonha em fúria avança; O pranto amargo purga a intemperança Do inferno de passados desatinos.

2 Dois revéis inimigos, dois destinos Em que a treva letífera descansa: Bela jovem, cobaia de vingança, E um vampiro a sugar-lhe os intestinos.

3 Morde o hipocôndrio esquerdo a larva enorme, Ovo teratológico disforme, Gerando atividade corrutora.

4 Mas Deus e o tempo forjam doce jugo, E encarceram-se vítima e verdugo Sob a maternidade redentora.

3 NA HORA DA MORTE

1 Calam-se os nervos álgidos, retesos, Na estrutura ancestral da carne mole. O corpo, enfim, repousa, como o fole, Sob a horrenda pressão de ignotos pesos.

2 Sorvo cansado e inerme o extremo gole Do fel que encharca os músculos surpresos, Vendo os próprios tecidos indefesos, Sob a fauna larval que aumenta a prole…

3 Sinto a orgia necrófaga medonha, Como um balão que estala, geme e sonha Ao contubérnio de sinistros lastros.

4 Mas, ave abrindo a grade hirta e marmórea, Contemplo a vida eterna, ardendo em glória, Que me acena sorrindo além dos astros!

4 MORTE ÚMIDA

1 Ei-lo, o doente que se desengana… A úlcera enorme baba gosma escura; O esqueleto senil se descostura Ao bote da gangrena soberana.

2 Linfa, sangue e suor em papa insana, Na fusão miasmática sem cura, Por sânie e fel no ventre da amargura Cospem a podridão da casca humana.

3 Última convulsão que desgoverna. A morte chega brusca, horrenda e terna… Corre na goela hirta fino gume.

4 A alma ditosa nasce noutro nível. É o parto novo… E a vida imperecível Desabrocha qual lírio sobre o estrume.

5 CAIM

1 Qual monstro hirsuto que se desenterra, Aborto horrendo de sinistro abdômen, Torna Caim, sem látegos que o domem, Para a nova balística da guerra!

2 As medonhas mandíbulas descerra, Indiferente às chagas que o carcomem, E, bramindo, desperta na alma do homem As maldições anônimas da Terra…

3 Fera oculta no brilho do proscênio, Crava as unhas na bomba de hidrogênio, Fitando o mundo que se desgoverna…

4 Mas o Cristo contempla o quadro obscuro, E, embora em pranto, envolve de amor puro O lobo famulento da caverna. [1] AUGUSTO Carvalho Rodrigues DOS ANJOS — Bacharelando-se em Direito, na cidade do Recife, três anos depois transfere-se Augusto dos Anjos para o Rio de Janeiro, onde permanece por dois anos, lecionando na Escola Normal e no Colégio Pedro II. Muda-se posteriormente para Leopoldina, Minas, tornando-se abnegado diretor do Grupo Escolar “Ribeiro Junqueira”, até à desencarnação. Cognominado o “Poeta da Morte” por Antônio Torres, emparelha-se com Antero de Quental, como sendo poeta filósofo do mais alto nível. Os temas científicos encontraram em A. dos Anjos “o seu grande explorador”, segundo a expressão usada por Darcy Damasceno (in A Lit. no Brasil, III, t. 1, pág. 388). Apesar do pessimismo empedernido do poeta paraibano, salienta Fernando Góes (Pan., V, pág. 64) que “em muitos passos de sua obra áspera e amarga há traços de um grande espiritualismo”. (Engenho Pau d’Arco, perto da Vila do Espírito Santo, Paraíba, 20 de Abril de 1884 — Leopoldina, Minas Gerais, 12 de Novembro de 1914.) BIBLIOGRAFIA: Eu; Eu e Outras Poesias. [2] Verso 4 - Observe-se a semelhança desta estância com a primeira de “As Cismas do Destino” (Eu e Outras Poesias, pág. 67), que vamos transcrever na íntegra: “Recife. Ponte Buarque de Macedo. Eu, indo em direção à casa do Agra, Assombrado com a minha sombra magra, Pensava no destino e tinha medo!”