Antologia dos Imortais · F. C. Xavier. — Waldo Vieira · Chico Xavier

Capítulo 95 de 116

Galba de Paiva

DESERTOR

1 Silêncio… Inércia… Morte… O fim de tudo…

Era o estranho ideal que acalentara Quando vivi qual cego, surdo, mudo, Ou sonâmbulo em crise longa e rara.

2 Covarde e tresloucado, em transe agudo, De súbito fugi à vida amara E marchei, constrangido, para o estudo Do enigma que, em vão, me acabrunhara.

3 Mas não morri… Morreu-me o vaso impuro…

E, distante da carne transitória, Colho o passado e planto o meu futuro.

4 Nem mistério, nem cinza à nossa frente…

Apenas o homem louco de vanglória Procurando enganar-se inutilmente.

[1] GALBA DE PAIVA — Poeta distinto, jornalista, conferencista e crítico literário. Depois de cursar o Liceu Alagoano, de Maceió, bacharelou-se pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, tendo sido o orador da turma de 1915. Exerceu várias funções públicas na administração e na magistratura do Rio Grande do Sul. Colaborou em diversos jornais e revistas, dentre outros o Diário do Interior, de Santa Maria, Última Hora, de Porto Alegre, Fon-Fon! e Leitura Para Todos do Rio de Janeiro. Na revista carioca A Semana foi crítico literário ao tempo de Adelino Magalhães. De 1930 até à sua desencarnação, viveu no Rio de Janeiro, advogando no foro. (Uruguaiana, Rio Grande do Sul, 26 de Setembro de 1893 — Rio de Janeiro, Gb, 1 de Julho de 1938.) BIBLIOGRAFIA: Folhas, versos; Hora Azul, conferência; Elogio das Cores, idem; etc. [2] Verso 5 - Aliteração em d.

[3] Verso 8 - Suarabácti: “e-ni-g-ma”. Cf. nota 1, pág. 47. [4] Verso 9 - morri… Morreu-me…: Poliptoto.

[5] Verso 14 - Para que possamos entender-lhe o soneto, transcrevamos apenas o último terceto de “Perante a Dúvida”, que o poeta escreveu, tempos antes de se suicidar: “Mas do termo final já não me iludo…

— Basta a triste certeza de ser nada, Basta a vaga esperança de ser tudo.”

(Apud Col. Poetas Sul-Riogr., pág. 283.)