Antologia dos Imortais · F. C. Xavier. — Waldo Vieira · Chico Xavier
Capítulo 87 de 116
Ismael Martins
GLORIFICAÇÃO
1 Se ontem, atribulado, andei sem rumo certo, Nômade do ideal, gemendo estrada afora, Hoje, crente, proclamo, ao coração que chora, A alegria imortal do espírito liberto…
2 Renovado, feliz, vou pelo mundo agora, Já não mais como fui, amargando o deserto, E antevejo o painel do futuro entreaberto, Em torrentes de amor a crescer hora a hora…
3 Em Jesus encontrei o Mentor dos Mentores, A guardar no Evangelho a Cartilha Suprema, Libertação do mal, consolação nas dores.
4 Glorificado seja o Senhor Bem Amado, Erguendo a liberdade ao pé de cada algema, Pregando a redenção para todo culpado!… GLÓRIA DO MUNDO
1 Suspenso em pleno peito amplo vergel florido, Existe qual jardim sem espinho e sem hera… Por mais chuva ou mais sol, conserva o colorido, E, embora o frio em torno, esplende em primavera…
2 Do regato a jorrar não se escuta um gemido… Nas brisas de perfume o amor jamais se altera… E nesse abrigo santo, em pétalas tecido, A doçura vigia em generosa espera…
3 Remanso de bondade em divino transporte, Oásis no deserto a sorrir para a morte, Quem consegue exaltar esse ninho fecundo?…
4 Só Deus !… Só Deus, usando a luz da aurora acesa, Poderá definir a infinita grandeza Do coração de mãe como a glória do mundo!… [1] ISMAEL Alves Pereira MARTINS — Poeta, jornalista e polemista, colaborou nas mais importantes revistas simbolistas do Paraná. Falando sobre o seu único livro de versos, Fernando Góes (Pan. IV, pág. 221) conclui: “Poemas de alguém que teve uma vida de sofrimentos e que giram em torno do amor à família, da morte, da dúvida, da dor. De forma descuidada — Ismael confessa faltar-lhe o “segredo da Forma”, o “mérito da Arte” — esses versos são confissões e às vezes pungentes desabafos.” Pertenceu ao Centro de Letras do Paraná, do qual fora sócio fundador, e é, na Academia Paranaense de Letras, o patrono da cadeira nº 34. (Campo Largo, Paraná, 27 de Julho de 1876 — Curitiba, 7 de Dezembro de 1926.) BIBLIOGRAFIA: Ciclos, versos; A Mocidade de Hoje, prosa; etc. [2] Verso 2 - Aliteração em d.
[3] Verso 8 - Ler com hiato: ho/ra a/ ho/ra. [4] Verso 14 - O poeta atribulado de “Vinte e Nove de Julho…” “Vinte e nove de Julho! Ao lembrar este dia, Às vezes pergunto a Deus: porque nasci?” (Apud A. Muricy, Pan. Mov. Simb. Bras., II, pág. 216.) volta agora no poeta “renovado, feliz”, de “Glorificação”. “De onde vim? Aonde vou? Será verdade Que a morte não existe? A eternidade Será o consolo prometido à gente?
O homem que será? Verme inconstante Ou sublimado ser que a todo instante Se transforma e revive eternamente?”
(Ap. Rodrigo Júnior e…, Ant. Paranaense, pág. 192.) [5] Verso 17 - Note-se a elipse: “Por mais (que haja) chuva ou sol…” [6] Verso 26 - Epizeuxe: “Só Deus!… Só Deus…”