Antologia dos Imortais · F. C. Xavier. — Waldo Vieira · Chico Xavier
Capítulo 79 de 116
Alceu Wamosy
A TI QUE ME OUVES
1 Como o dia ao findar, o decesso não trunca O poder do ideal e a corrente da vida… Nem ancinho a morder, nem mão em garra adunca… A morte? Apenas sonho embalando a partida…
2 Se o caminho em que vais é trilha que se junca De farpas, lama e fel, sem clareira ou saída, Sê compaixão somente e não sentirás nunca A sombra da tristeza ou a esperança perdida.
3 Se a agonia envenena o pranto de teus olhos, Qual rocio letal no lodo que te banha, Não te fira a visão de tremedais e abrolhos.
4 O amor é como o sol ante o charco profundo… Amando, entenderás que a dor mais rude e estranha É sempre a Lei de Deus que se move no mundo… AGORA
1 Eis o tempo que passa… Um juiz onde fores, Espírito da Lei que a tudo envolve e doma. Ontem, do Nilo em festa à grandeza de Roma, Era a glória do mundo em cinzas e esplendores.
2 Hoje, carro triunfal dos sonhos redentores, Em que a bênção do dia é celeste redoma, Onde a vida se alteia e, pura, se retoma Para erguer-te a alegria e suprimir-te as dores.
3 Amanhã será sol em pleno trilho escuro, Almenara de amor a indicar-te o futuro No horizonte da paz, onde a esperança mora.
4 Mas do tempo que é sombra, anseio, plano e anelo, Nos caminhos do Tempo, eis que o Tempo mais belo É o momento imortal que chamamos “agora”. ANTEVISÃO
1 E um dia chegará, de segundo a segundo, A vitória imortal… Tiranias ultrizes Dobrarão para sempre as trágicas cervizes Ante o reino do amor a espraiar-se, fecundo!
2 A impiedade revel, o ódio a rir-se iracundo, A usura de Harpagão e o gládio de Cambises Serão restos crostais de velhas cicatrizes, Temerárias lições no semblante do mundo!
3 Não mais fome ou nudez… O arado, a escola e o malho Entoarão sobre a Terra as canções do trabalho Em trompas e clarins de concerto bendito!
4 E os homens, céus além, ao tato incontroverso, Descobrirão, por fim, nos portais do Universo, A bússola de Deus no timão do Infinito! [1] ALCEU de Freitas WAMOSY — Poeta e jornalista, A. Wamosy trabalhou ativamente na imprensa, principalmente depois que fixou residência em Livramento, tendo sido diretor de O Republicano. Patrono da cadeira nº 40, na Academia Sul-Riograndense de Letras. Sua poesia é essencialmente subjetiva, com impressões de vida interior. Prefaciando-lhe a obra póstuma Poesias, Mansueto Bernardi afirmou: “Alma de eleição, um dos mais finos temperamentos artísticos do Rio Grande, uma das belas vozes da poesia, no Brasil.” E mais adiante, observava: “Ao mesmo tempo que o pensamento do amor, o pensamento da morte o acompanha sempre. (… ) Foram eles, por assim dizer, o amor e a morte, assim como a luz e a sombra dos seus olhos, o mel e a cicuta dos seus lábios, a sístole e a diástole do seu coração.” (Uruguaiana, Rio Grande do Sul, 14 de Fevereiro de 1895 — Livramento, Rio Grande do Sul, 13 de Setembro de 1923.) BIBLIOGRAFIA: Na Terra Virgem; Coroa de Sonhos; etc. [2] Verso 14 - Este soneto é, sem dúvida, uma resposta ao poema que Alceu Wamosy escreveu pouco antes de sua desencarnação, “Idealizando a Morte” (apud Col. Poetas Sul-Riogr., pág. 302), do qual vamos transcrever o último quarteto, grifando as rimas que se repetem no soneto de hoje: “E morrer… e levar com a vida que se trunca, Tudo que de doçura e amargor teve a vida: O sonho enfermo, a glória obscura, a fé perdida, E o segredo de amor, que eu não te disse nunca!”