Antologia dos Imortais · F. C. Xavier. — Waldo Vieira · Chico Xavier

Capítulo 31 de 116

José Guedes

1 FILHO QUE NÃO NASCEU

1 Fui trazido ao teu colo e sussurro, baixinho: — “Mãe, eu serei na carne o sonho de teu sonho!…” Depois, em prece ardente, em ti meus olhos ponho, Pássaro fatigado ante a úsnea do ninho.

2 Abraço-te. És comigo a esperança e o caminho… Em seguida — oh! irrisão! —, eis que, num caos medonho, Expulsas-me a veneno, e, bruto, me empeçonho, Serpe oculta a ferir-te em silêncio escarninho.

3 Já me dispunha a dar o golpe extremo, quando Surge alguém que me obriga a deixar-te dançando Em formoso salão onde o prazer fulgura.

4 Passa o tempo. Hoje volto… É o amor que em mim arde. Mas encontro-te, oh! mãe, a gemer, triste e tarde, Sombra que foi mulher, enjaulada à loucura…

2 IR E VIR

1 Oh! suprema ventura, ampla e radiosa! Libertar-se e subir, ao fim da luta… A alma sonha, tateia, ouve e perscruta A alegria que há muito se não goza!

2 Mais além, surgem trilhas de ouro e rosa, Sobre a Terra que foge, diminuta… A paisagem por fim se desenluta Em aurora esplendente e majestosa!

3 Estou livre, no entanto escuto gritos Que me lanham quais látegos aflitos… Triste de mim!… Debalde, me comovo!…

4 O passado apresenta longo arquivo, E eu, que ria e cantava redivivo, Volto ao berço das lágrimas de novo!…

3 LAMENTO PATERNO

1 Ah! meu filho, na concha de teu peito, Via-te o coração por céu vindouro, Encerravas contigo, meu tesouro, O futuro risonho, alto e perfeito.

2 Entretanto, prendi-te a cruzes de ouro, Cujo peso carregas sem proveito, Abatido, cansado, insatisfeito, Arrojado a terrível sorvedouro…

3 Recolheste, no encanto de meu jugo, O fascínio da posse por verdugo E a preguiça forjando horrendas pragas.

4 Hoje, chamo-te em vão… Ouves apenas O dinheiro vazio que armazenas Na demência da usura em que te apagas!… [1] O poeta não se identificou nas reuniões a que compareceu. [2] Verso 32 - Observe-se o efeito extraordinário desta próclise pronominal: “…que há muito se não goza!” [3] Verso 40 - Quer o poeta dizer que o corpo espiritual ostenta os clichês de todos os seus atos praticados, inclusive os de existências anteriores a que, debalde, tenta o indivíduo fugir.