Antologia dos Imortais · F. C. Xavier. — Waldo Vieira · Chico Xavier
Capítulo 1 de 116
Prefácio.
Estultícia de nossa parte — e o afirmamos sem pruridos de modéstia — a pretensão de prefaciar e anotar uma obra mediúnica das proporções desta, em que poetas das principais correntes literárias, desde a romântica à modernista, de duas literaturas — a Brasileira e a Portuguesa, — inclusive poetas folcloristas, deixaram estereotipados a força viva e o carisma inconfundível de seus estilos. Natural, porém, que todo livro de constituição nova exija explicação, perfunctória que seja, de sua origem e finalidade, e, à vista disso, aqui nos encontramos, fiel ao compromisso assumido com os autores espirituais, no sentido de estudar todas as composições poéticas desta Antologia, alinhando nótulas biobibliográficas e traçando leves observações sobre a técnica poética de determinados aedos, além de ligeiros comentários de fundo espírita, visando a clarear afirmações e situações para os leitores menos afeitos ao trato doutrinal. Antes de tudo, é imperioso dizer que o título da obra — Antologia dos Imortais — foi sugerido aos médiuns por um amigo da Espiritualidade, conquanto não guarde qualquer relação com a imortalidade acadêmica, laureada na Terra, para simplesmente vincular-se àquela outra imortalidade de que nos fala Pascal em seu livro “Pensées” — a perenidade do Espírito que nunca morre, — através da presença de amigos desencarnados, que atravessaram as cinzas do túmulo e continuam vivos, senhores dos próprios destinos. Tratando-se de obra eminentemente mediúnica, Antologia dos Imortais destina-se, de modo particular, aos que se afeiçoaram ao conteúdo poético da vida. Por isso mesmo, é justo que o leitor se prepare para encontrar, de permeio com autênticas obras-primas, poesias menos belas, quer quanto à forma, quer quanto ao fundo, de vez que não há poeta que viva sempre em momentos sublimes. Todos eles no mundo experimentaram dificuldades e angústias, inibições e frustrações de estaca-zero e não seria licito esperar que, desencarnados, comparecessem, entre nós, invariavelmente no apogeu da cultura e da emoção, segundo os cânones e as regras estabelecidas pela crítica humana . Forçoso igualmente considerar que o médium não pode ser responsável pelos hiatos, lacunas, oclusões e omissões por parte dos poetas desencarnados comunicantes, compreensivelmente muito mais ocupados e interessados na eliminação dos conflitos íntimos, ante a grandeza da vida, que se lhes descerra além do túmulo, que atentos à observação e à análise da opinião pública terrestre. Em face disso, encontramos comunicantes maiores ou menores, superiores e inferiores, eminentes e anônimos, conhecidos e menos conhecidos na série dos que espiritualmente comparecem, através das faculdades medianímicas, manifestando as opiniões e emoções de que se fazem mensageiros e intérpretes. Aos que porventura discordarem da inclusão de poetas tidos por secundários ou obscuros, lembramos o que escreveu Andrade Muricy: “Pode um dragão possuir cauda de réptil e entretanto ser dotado de possantes asas de marsupial.. Um autor secundário apresenta muita vez aspectos grandemente reveladores.” Um ponto, contudo, deve ficar claro: é que todos os poetas, quase sem exceção, buscaram ater-se, neste livro, à confirmação do continuísmo da vida após a morte do corpo físico e aos consoladores ensinos da Doutrina Espírita, acentuando-se que vários deles chegaram a se especializar em determinados assuntos doutrinários, quais sejam a exposição da Lei de Causa e Efeito, as narrativas das regiões inferiores do Espaço, a posição espiritual dos que atravessam as faixas da morte, a experiência do processo liberatório, as consequências do suicídio, a importância do amparo ao coração infantil, o quadro de responsabilidades dos pais terrestres, etc., etc. Tal preocupação, quer-nos parecer, não existia, num sentido total, no Parnaso de Além-Túmulo. Os aedos no intercâmbio de ontem tinham como que a obrigação formal de evidenciar a própria personalidade, atreitos às idiossincrasias que os singularizavam, para, ao que supomos, serem reconhecidos pelos críticos literários.
Nesta obra, prosseguem na construção espiritual em que se empenharam, mas oferecendo a ideia de que se irmanaram no propósito de revelar os objetivos superiores do Espiritismo. Quanto à fidelidade estilística, terá o leitor oportunidade de reconhecê-la por si, acrescentando-se que, em vários casos, procuramos demonstrá-la por notas de rodapé, mobilizando transcrições de pequeninos trechos dos autores, quando entre os homens. É assim que Da Costa e Silva, o poeta da saudade, que ontem se embevecia e cantava:
Saudade! Olhar de minha mãe rezando, É o pranto lento deslizando em fio…
Saudade! Amor da minha terra… O rio Cantigas de águas claras soluçando.
Ressurreição! A madrugada flórea!…
O céu brilhando, em mágica oferenda…
Estranho à nova luz que se desvenda, Vejo as telas antigas da memória.
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Fulge o carro da vida renascente.
Mas volvo à sombra e choro a dor pungente Da saudade sem fim de minha terra!…
A hidra de sentimentos fesceninos, A alma ditosa nasce noutro nível.
É o parto novo… E a vida imperecível Desabrocha qual lírio sobre o estrume.
Nas grimpas do pé de amora O vento leve balança E tala a flor terna e mansa Que voa caminho afora.
— “Aguardo a mão da Lei, sempre doce e benvinda!
Dá-me silêncio e paz! Não me expulses ainda!…”
O caos invadira a França, — Olimpo do pensamento.
O ódio — lobo famulento, Range as presas com furor.
Nas ruas — Paris descansa; Em casa, — chora em segredo; Gigante, arrosta, com medo, As iras do Imperador.
Como quem foge à voz do socorro divino, Avança para a dor do seu próprio destino…
Brilham páramos de sonho Além, no espaço risonho, Vestidos de paz e luz!
L’oeuvre sort plus belle D’une forme au travail Rebelle, Vers, marbre, onyx, émail Invejo o ourives quando escrevo:
Imito o amor Com que ele, em ouro, o alto-relevo Faz de uma flor.
Vede como primo Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo Os termos cognatos.