Alma e Vida · Maria Dolores · Chico Xavier

Capítulo 14 de 33

Provação de um homem

1 Na casa estilo antigo, austera e reservada, Acontecera assalto revoltante. Tudo fora ocorrência de um instante.

2 Caíra a noite espessa em garoa gelada. Um homem qual se fosse conhecido Abrira facilmente uma porta de entrada, Sem qualquer alarido, E ganhara o interior, Atirando no dono, um pobre professor, A quem aparecera mascarado, Furtando-lhe o dinheiro resguardado, E joias de valor, Que se mantinham numa caixa forte… Em seguida, fugira o malfeitor…

3 Fizeram-se tumulto e burburinho. A polícia viera num momento Num grupo de severos patrulheiros.

4 O antigo educador, aos oitenta janeiros, Duramente atingido, estava quase à morte No quarto em desalinho, Sob a assistência de uma filha em pranto, Pediu fosse chamado O seu filho mais velho, um magistrado, Pois queria falar-lhe na hora extrema.

5 A patrulha expediu prestimoso soldado… Quase que de repente, Um cavalheiro de alto porte Adentrou-se na casa em revolta evidente. Beijou as mãos paternas, comovido, E após ouvir detalhes do ocorrido, Clamou, exasperado:

— Hoje, de qualquer jeito, Saberemos punir o celerado E guardá-lo, a preceito…

6 Mas, na perda de sangue que o domina, Embora a proteção da Medicina, Sabendo-se a morrer, o pai lhe implora: — Meu filho, ouve-me bem!…

Já não posso falar bastante agora… Não persigas ninguém.

7 Deixa de lado O infeliz companheiro mascarado… Que seria de nós se o delinquente Fosse de nossa gente?!…

8 Quero partir abençoando os meus… E preciso perdoar, Esquecer, entender e auxiliar, Para estarmos com Deus…

9 Entretanto, o ferido fez-se mudo. Calou-se-lhe a voz clara.

A parada cardíaca chegara E, depois dela, a morte apareceu, Lançando sombra em tudo.

10 Ao ver o genitor imóvel sobre o leito, O filho magistrado Exclamou revoltado:

— Não, não posso perdoar o terrível sujeito Que aniquilou meu pai covardemente.

11 E chamando a patrulha, incontinente, Determinou, em voz desesperada: — Precisamos concluir a tremenda caçada,

12 Contratem populares… Quero isso: Mais gente habilitada no serviço. Seja alcançado e preso O homem que matou meu pai, velho e indefeso…

13 Preso e depressa!… É o que lhes digo… Esse monstro é um perigo!…

14 Partem homens dispersos sob a noite. Sirenes gritam alto; Rodam carros rangendo sobre o asfalto, O vento frio corta qual açoite…

15 Mais algum tempo decorrido, E um emissário surge espavorido. Pede licença ao chefe e lhe fala: — Doutor, — Prendemos finalmente o malfeitor…

16 Foi, porém, alvejado A tiros de um rapaz que nos seguia, Um popular não identificado;

17 Mas preciso avisar-lhe que o detento Está em grande sofrimento, Sob a pressão de forte hemorragia…

18 É um rapaz muito moço, um menino a chorar. Creia o senhor, é um caso singular…

19 Nosso grande empecilho É que o jovem declara ser seu filho E roga-lhe a presença na prisão!…

20 O magistrado em pleno desconforto, No velório do pai, agora morto, Exclama em fúria para o mensageiro: — Meu filho? Nunca. Desde tenra idade, Teve em meu cofre o que quis, à vontade, Meu rapaz foi criado ao calor do dinheiro…

21 E acrescentou: — Esse ladrão É um patife de lenda; Meu filho nestes dias Está de férias na fazenda, A dezoito quilômetros daqui…

22 — Doutor, e o ferimento?

É dos mais graves que já vi, Esclarece o emissário, calmo e atento, — Devo buscar o médico ainda agora?

23 O interpelado irritadiço Respondeu, prontamente:

— Nada de mimos para o delinquente, Depois do sol nascer; cogitaremos disso.

24 A manhã refulgia, clara e bela, Quando, cercado de assessores, O magistrado entrou na cela…

25 Mas ao ver o rapaz que um guarda lhe apresenta, Ofegando, cansado, em agonia. Numa poça sangrenta,

26 Reconhece, assombrado, à luz daquele olhar Que a morte recolhia, Agindo devagar.

27 Então pôs-se a rugir, a tremer e a clamar: — Deus!… Pai de Bondade e de Infinito Amor, Que fiz para sofrer tamanha dor?

28 Em seguida, abraçou-se ao jovem, ternamente, No modesto colchão que o servia por leito… A beijar-lhe, ansioso, as feridas do peito.

29 Nas rudes convulsões que a mágoa lhe consente, Rebuscava-lhe, em vão, o olhar agora já sem brilho…

30 O nobre magistrado, em pranto ardente, Encontrara no morto o próprio filho. Maria Dolores