Antologia da Espiritualidade · Maria Dolores · Chico Xavier

Capítulo 11 de 39

Anseio de amor

1 Quando me vi, depois da morte, Em sublime transporte, E reclamei contra a fogueira Que me havia calcinado a vida inteira Pela sede de amor…

2 Quando aleguei que fora, em toda estrada, Folha ao vento, Andorinha esmagada Sob o trator do sofrimento…

3 Quando exaltei a minha dor, Mágoa de quem amara sempre em vão, Farta de incompreensão…

4 Alguém chegou, junto de mim, E disse assim:

— Maria Dolores, Você que vem do mundo, E se diz Tão cansada e infeliz, Que notícias me dá do vale fundo De provação, Onde a criatura de tanto padecer Não consegue saber Se sofre ou não?

5 Você que diz trazer o seio morto, Que me pode falar Dos meninos sem pão e sem conforto, Das mulheres sem lar, Dos enfermos sozinhos, Que a febre e a fome esmagam nos caminhos, Sem sequer um lençol ou a bênção de uma prece, Dando graças a Deus, quando a morte aparece?!…

6 Você, Maria Dolores, Que afirma haver amado tanto E que deve ter visto O sacrifício e o pranto De quem clama por Cristo, Suplicando o carinho que não tem, Que me pode contar daquelas outras dores, Daquelas outras aflições Dos que choram trancados em manicômios e prisões, Buscando amor, pedindo amor, Exaustos de tristeza e de amargura, Como feras na grade, Morrendo de secura, De solidão, de angústia e de saudade?!…

7 Bem-querer!… Bem-querer!…

Ai de mim, que nada pude responder! Que tortura, meu Deus, a verdade, no Além!… Calei-me, envergonhada…

8 Eu apenas quisera ser amada, Não amara a ninguém…

Maria Dolores