Assembleia de Luz · Autores diversos · Chico Xavier
Capítulo 24 de 34
Confissão de cantador - Leandro Gomes de Barros
1 Sou convidado a dizer Com toda a satisfação Da paz que o povo encontrava Na alegria do sertão.
2 Olhando a Terra de hoje Com tanto aviso de lei, Não sei se o mundo mudou Ou se foi eu que mudei.
3 Conversa da noite antiga Era encharcada de lua, Mas hoje o tempo da noite É a buzinança de rua.
4 A gente via na estrada Céu bonito e flor de cheiro, Agora, é gente apressada Na procura do dinheiro.
5 Menino quando nascia Vinha em bacia enfeitada, Agora, é barriga aberta E a criança numerada.
6 Uma cabocla passante, Se alguém atrevia a olhar, Via a morena vestida Da cabeça ao calcanhar.
7 Hoje em dia, moça fina, Sem diferença de hora, Anda sem medo na rua, Mostrando as pernas de fora.
8 Há dias, olhando o mar De um monte de samambaia, Perguntei qual era a tribo Que estava em banho na praia.
9 Quis ver o quadro das ondas Na dança de “traz e leva”, Mas fiquei de pensamento No tempo de Adão e Eva.
10 Vi tanto gajo nadando E tanta moça faceira Que ali se a serpente andasse Era simples brincadeira.
11 Quando vi a tentação Na cabeça como eu pus, Rezei o “credo” três vezes E fiz o sinal da cruz.
12 Renovei o pensamento, Levei meus olhos ao céu, Depois, voltei para o campo, Rezando no mataréu.
13 Mesa de vida moderna É papo de gente rica, Pouca gente sabe o gosto Da pamonha e da canjica.
14 Das frutas de minha terra, Quantas delas conhecia!… Ata, acari, genipapo, Axixá e melancia.
15 Manga doce vinha aos montes Descendo de muro e rampa; Hoje é fruta embalsamada Em muita lata de tampa.
16 O santo quando saía Em procissão benfazeja, Todo o povo ajoelhava Dizendo: “bendito seja”!…
17 Quem fala hoje na fé A fim de salvar ateus Já sabe que em qualquer praça É pouca gente com Deus.
18 Negocião de hoje em dia, Mostrando riqueza aberta, É conversa clandestina, Com ladroagem na certa.
19 Cantador tem seu limite, Falar muito não me cabe, Se a Terra ainda tem conserto Só Deus, no Céu, é que sabe. Leandro Gomes de Barros