A vida conta · Maria Dolores · Chico Xavier
Capítulo 29 de 34
Cercas
1 Alma querida, escuta:
Em tuas horas lentas De inquietação, insegurança e luta, Amargura e cansaço, Ouvimos nós, noutros campos do Espaço, As falas mudas que nos apresentas.
2 Muitas vezes, interrogas na oração De espírito espantado e sofredor: — “Se tudo o que esperei foi sonho vão, Por que amarei assim, sem ter amor? Por que me consagrar a filhos que amo tanto, Se me ofertam por triste recompensa A incompreensão imensa Que me encharca de pranto?
3 Por que me dedicar com tanto empenho Ao lar que me magoa No qual ninguém anota as lágrimas que eu tenho Nem considera a cruz que me agrilhoa? Que motivo me leva a entregar-me de todo A certo coração que me espezinha Que me cobre de lodo
4 “Depois de ironizar a esperança que eu tinha? Que razão me conserva a consciência Presa a determinado compromisso, Se aqueles que mais amo na existência Não querem saber disso?”
5 Dói-nos ouvir, no Além, a angústia com que indagas, Mostrando o coração aberto em chagas…
6 É um esposo distante, é uma esposa esquecida Do trabalho de paz que abraçou para a vida, É um filhinho doente, Gradeado num leito merencório, É um parente infeliz em sanatório, É uma pessoa amiga a gritar-nos em rosto Acusações sem base em vinagre e censura, A fazer-nos enfermos de desgosto Ou cansados de dor, às portas da loucura…
7 Inda que tudo isso te aconteça, Não fujas, alma boa, Tolera a quem te fira, ama, perdoa, Sem que a força do amor se te arrefeça.
8 Não fossem as prisões que nos guardam no mundo, Duros grilhões, sem formas definidas, Voltaríamos nós aos erros de outras vidas Em delírio profundo…
9 A prova que te oprime em ásperas refregas, O peso enorme dos tormentos teus, E a dor da obrigação nas cruzes que carregas São as cercas de Deus.
Maria Dolores