Somente amor · Maria Dolores / Meimei · Chico Xavier
Capítulo 19 de 33
Verdade e amor
1 Era ele um cristão de crença pura, Caminhava na vida Mostrando fé vibrante e fronte erguida, Devoto da verdade e da bravura…
2 Escrevia e pregava em verbo ardente, Vergastava costumes e preceitos, Exigia no mundo irmãos perfeitos, Reclamava virtude em toda gente.
3 Alentava, no entanto, antigo anseio, Entretecido de carinho e luz, Nas súplicas ao Céu, dia por dia, Clamava e ansiosamente repetia Em alto devaneio:
“Quero encontrar Jesus! Quero encontrar Jesus!…”
4 Sonhava ver e ouvir o Mestre Amigo, Abraçá-lo, retê-lo, Depois, testemunhar-lhe todo o zelo Que trazia consigo A inflamar-se de amor…
5 Mas ei-lo a procurar, em andanças no mundo, Erros, falhas, defeitos, cicatrizes, A fim de levantar o látego infecundo Sobre os irmãos caídos e infelizes. Páginas primorosas escrevia Com lindas conferências de permeio, No intuito de afastar do campo alheio As nódoas que ele, acaso, percebia…
6 Tempos rolaram sobre o tempo mudo E nada mais fazia o cristão combatente… Entretanto, Em matéria verbal, sabia tudo, Tudo o que fosse amargo ou deprimente. Em nome de Jesus, erguia a frase rara, Qual bisturi que corta, poda e apura, Manejava a palavra fina e rara, Em constante censura.
7 Certa noite, porém, depois de muitos anos, Viu-se fora do corpo, a pervagar… De improviso, oh! surpresa!… viu Jesus Que nele punha o generoso olhar.
8 Notava que Jesus o fitava em silêncio, Dispondo-se, talvez, a partir sem demora, Ele gritou: — “Senhor, abençoa-me a fé, Espero, desde a infância, este encontro de agora…
9 Dize, amado Jesus, se estou certo em caminho, Quero apenas fazer aquilo que te agrade, Tenho feito da vida um combate sem tréguas, Mostro os erros do mundo e defendo a verdade!…
10 Ao meditar em ti, vejo em franca expansão, Os conflitos mortais que amarguram a Terra, Paixão, intemperança, orgulho, hipocrisia E a presença do mal trazendo a morte e a guerra!…
11 Irmãos dilapidando irmãos, estrada a estrada, Convertem-me a palavra em chicote violento, Grito, protesto, acuso e denuncio… Explica-me, Senhor, se tenho estado atento!…”
12 Mas Jesus respondeu: — “Agradeço-te, irmão, Quanto me tens doado em franqueza e rigor, Não olvides, porém, Que a construção do Bem, Solicitando, embora, a base da verdade, Nunca se elevará no apoio à Humanidade, Sem o teto do amor…
13 Não deixes de amparar… Anota as leis da vida, Esclarece, corrige, ensina, mostra, fala!…
14 Mas recorda: não basta apontar a ferida, Depois de conhecê-la, é preciso tratá-la.
15 Volta ao mundo e prossegue, Retifica sem fel e ajuda sem impor, Verdade que produz é aquela que auxilia, À maneira do Sol que acende a luz do dia E estende a vida ao chão em dádivas de amor!…”
16 O amigo despertou a desfazer-se em pranto, Inflamado de júbilo e de espanto, Ergueu-se novamente para a vida… Em seguida, Descerrou a janela junto dele…
Fitando a rua em frente, Viu homens construindo A se esforçarem, afanosamente, Doentes repousavam na calçada, Pobre mãe desprezada Passava carregando um pequeno enfermiço… Tudo era petição de amparo e de serviço… Não longe, uma criança sem ninguém Começou a chorar…
17 Nisso, ele ouviu de novo a voz do Mestre Amado, No íntimo do ser Qual se estivesse ali, respirando a seu lado, Presente a lhe dizer:
“Escuta, meu irmão Posso falar-te aqui na paz do coração!…”
18 Depois, disse baixinho:
— “Se queres atingir a luz do Eterno Lar, Eis, em teu mundo mesmo, os marcos do caminho: — Trabalhar e servir, servir e trabalhar!…” Maria Dolores