Somente amor · Maria Dolores / Meimei · Chico Xavier

Capítulo 17 de 33

Assunto de mulher

1 Notando um companheiro Trabalhando a chorar, Fraternalmente perguntei, Sem qualquer pretensão, Como podia eu suprimir-lhe o pesar, Através da oração…

2 Ele me respondeu, de sentimento aberto, — “Irmã Dolores, O meu drama por certo É um caso igual a muito caso triste…”

3 E como se fitasse o próprio centro Do romance de dor que trazia por dentro, Esclareceu, sereno:

— “Penso que amor de mãe é a luz maior que existe Depois do amor de Deus que nos envolve e aquece.

4 Pois, creia. Há doze anos Fui expulso Do ninho maternal para sofrer Terríveis desenganos Que nunca admiti me viessem testar A energia da fé e o perdão por dever; Benfeitores daqui me prepararam Para existência nova…

5 Cabia-me voltar à Terra, o educandário, Onde entraria em prova Para seguir, mais tarde, em novo itinerário.

6 Fui levado ao casal que me receberia; Ante a futura mãe que Deus me concedia, Enterneci-me tanto Que me desfiz em pranto De júbilo sublime…

7 Era uma jovem de maneiras ternas, De olhar meigo e profundo, Pareceu-me, em verdade, ao conhecê-la, Que viveria ao lado de uma estrela Em regressando ao mundo…

8 Amparado por nossos benfeitores, No preciso momento, Adormeci em branda anestesia, Depois, sem aflição, sem sofrimento, Não sei como me vi ligado a ela…

9 Tinha a ideia de estar num sonho de alegria, Restituído ao tempo de criança… Dormindo, descuidado, em pequenina cela, Junto à jovem mulher que me guardava, Não podia dizer se vivia ou sonhava…

10 Sentia-me crescer envolto de amor puro, Antevendo, feliz, o brilho do futuro…

11 Mas, quando tudo parecia Que estava retornando a novo dia, Senti-me deslocado, de repente, Sonâmbulo, inconsciente, Supliquei proteção naquele pesadelo…

12 Ninguém, ninguém me ouvia o repetido apelo, Reconheci, por fim, Naquele coração a que o Céu me entregara Um coração de gelo, Que me batera e me expulsara Infeliz, humilhado e semimorto, Num processo de aborto…

13 Por muito tempo andei numa nuvem estranha, Remoendo revolta e desesperação, Como quem despertava, a pouco e pouco, Até que, em certo dia, acordei quase louco, Padecendo terrível sensação…

14 Não quis ouvir qualquer aviso Que me induzisse à bênção do perdão…

15 Fiz-me um demônio de improviso, Duro perseguidor, Flagelando, a rigor Aquela que me dera o menosprezo e a morte, Aniquilando-me à vontade Em regime de plena impunidade…

16 Fui encontrá-la numa festa, Gritei-lhe em rosto o meu ressentimento, Ela não me escutou, na forma acostumada, Mas sentiu-me a presença envenenada, Sob a forma de culpa e de arrependimento…

17 Exagerei-lhe a dor, amargurei-lhe a vida, Dia a dia, hora a hora, em agressão comprida, Até que em meu desforço injusto e inglório, Vi-lhe a entrada num triste sanatório…”

18 E o companheiro transformado Em obreiro do bem que servia, a meu lado, Solicitou, comovedoramente:

— “Agora que compreendo O dever de ajudar pela bênção do amor, Já não sou mais o obsessor…

Preciso devolver-lhe o equilíbrio e a saúde, Fazer-lhe todo o bem que ainda não pude, Extirpar a raiz dos males que lhe fiz E auxiliá-la a ser feliz…

Hoje é o dia em que devo estar com ela Em visita de paz numa prece singela… Quer ir comigo, irmã?” — Falou o amigo. E lá me fui ao generoso abrigo Em que vive a doente…

Não posso descrever o quadro comovente, A dor que me feriu ao vê-la desgrenhada…

19 Ao sentir-nos de perto a pobre dementada, Agitou-se ferida na memória E recapitulando a própria história, Começou a gritar em penoso estribilho: — “Doutor, quero o meu filho… Onde ficou meu filho?…”

20 Tocados de emoção, Oramos pela paz da doente querida, Mas pensando na dor que geramos na vida, Roguei a Deus:

— “Senhor, quando eu voltar ao mundo Seja qual for o campo em que estiver, Não me deixes perder o sentido profundo Que puseste em amor, na missão da mulher!…” Maria Dolores