Retratos da vida · Cornélio Pires · Chico Xavier

Capítulo 20 de 21

Condenação e vida

1 Você procura notícias, Meu caro Nuno Serrão, Do que se diz no outro mundo Em torno à condenação.

2 Na luta em que vamos indo, Seu pedido, caro Nuno, Encerra assunto excelente Para debate oportuno.

3 Num mundo assim qual o nosso, Onde a luta nos cativa, Ninguém pode dispensar A crítica construtiva.

4 Se erro e se muitos erram, É preciso aparecer Quem nos aponte verdade Quem nos convide ao dever.

5 No entanto, a crítica nobre Que ampara, esclarece e guia, Traz consigo a segurança Dos golpes de cirurgia.

6 O médico em plena ação, Não corta, nem fere à-toa, Trata ou suprime a doença Sem desprezar a pessoa.

7 Nesse sentido assinalo Que aprendi desde menino, A saber o que é melhor Pelo socorro do ensino.

8 Mas censura por si só, Vertendo verbo infeliz, Lembra pedrada sonora De quem não sabe o que diz.

9 E já que a vida devolve Aquilo que se lhe oferta, Toda pedra que atiramos, Volta a nós rápida e certa.

10 Note o caso de Nhô Fábio, Moral de conversa brava, Morreu buscando prazer Na rua que detestava.

11 Nicota falando às soltas Acusava a mãe doente, Um dia fugiu de casa Para morrer delinquente.

12 Laurentino reprovava A trilha de Felisbela… Foi-se o tempo e ele finou-se Apaixonado por ela.

13 Jacó censurou o irmão Por desposar Nhá Siluva; Finou-se o irmão de repente… Jacó ligou-se à viúva.

14 Falava Artur que o cigarro É só veneno em consumo; Depois de tanto fumar Morreu no excesso de fumo.

15 Pregava contra a riqueza Nosso amigo Zé Romão, Ganhando na loteria, Desertou da pregação.

16 Perseguido injustamente Por jogo morreu Quim Cota… E o filho que o acusava Morreu na frente da sota.

17 Quirino Almeida zombava Dos passes de Nhá Mariana… Hoje, ele mesmo procura Vinte passes por semana.

18 A vida é assim, caro Nuno… Condenar não vale a pena, Porque a gente sempre cai Naquilo que mais condena.

19 Irritação e azedume Criam angústia e pesar; Perante qualquer ofensa O melhor é perdoar.

20 Julgar exige cuidado Pelos outros e por si. Não condene, ajude sempre, Que este assunto é isso aí. Cornélio Pires