Rolando, uma vida de renúncia e trabalho · Rolando Ramacciotti · Chico Xavier

Capítulo 8 de 16

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Na próxima mensagem, com a saudade indisfarçável, vemo-lo acompanhando do Plano Espiritual o desenrolar do dia a dia da vida familiar e das Instituições.

Observa o que acontece e pondera sobre tudo, como fazia quando entre nós. E o Rolando que conhecemos.

A propósito, esse seu jeito de ser faz-me recordar um episódio que reflete o seu grande entusiasmo e a plena convicção por todo trabalho em que se envolvia.

Nos tempos de Garça, em 1961, o Dr. Mário Altenfelder Silva, ilustre diretor do Serviço Social de Menores do Estado, visitou a cidade para conhecer as entidades filantrópicas e estabelecer, entre elas e o poder público, projetos conjuntos, visando-se ao atendimento do menor carente na região da Alta Paulista. Entre os oradores que o saudaram, o Dr. Mário sensibilizou-se com a participação de Rolando e, em visita ao Nosso Lar, atendeu-lhe ao pedido de recursos para a aquisição de equipamentos, com o objetivo de modernizar a torrefação de café. No Livro de Visitas da entidade, deixou escritas as seguintes palavras, recordadas posteriormente pelo jornal Comarca de Garça, na coluna ‘Túnel do Tempo’, em sua edição de 2 a 8 de abril de 2001: — Rolando, meu caro. Esta sua casa é a casa que desejo a todas as crianças. Educação, amparo, formação no trabalho e moral.

É assim que se faz um homem! Deus abençoe a todos os que aqui trabalham.

* Mais tarde, já nos anos 1970, após a transferência do Nosso Lar para São Bernardo do Campo, participei de outra situação em que, ainda uma vez, pontificou a sua privilegiada antevisão de administrador. Sonhava ele aumentar a cota de sacas de café, então definida para as torrefações pelo órgão normativo do governo, o IBC – Instituto Brasileiro do Café. Falei-lhe de um meu amigo, Flávio Correia de Pinho, próximo ao presidente do IBC, Caio de Alcântara Machado. Sem delongas, meu pai pediu-me:

— Solicite ao seu amigo uma entrevista com o Alcântara Machado, pois vou requerer-lhe o aumento da nossa cota atual. Assim, faremos frente à concorrência.

Procurei o Flávio, que, atencioso, me respondeu:

— O Alcântara Machado estará na abertura da FENIT, a Feira Nacional da Indústria Têxtil, que ocorrerá nos próximos dias. Lá falaremos com ele.

Numa das noites seguintes, com o Pavilhão de Convenções do Anhembi lotado, animado por uma apresentação conjunta de Gal Costa e Raul Cortez, chegamos ao stand da Rhodia, empresa em que Flávio trabalhava, e ficamos aguardando a vinda do presidente do IBC. O Rolandão trazia consigo um pesado álbum em que havia de tudo: fotos das crianças, embalagens do Café Nosso Lar, os títulos de reconhecimento das atividades beneficentes da Instituição e muito mais… Seu sonho era conseguir ao menos 40 sacas mensais de café para a torrefação. Finalmente chegou a visita importante, e Flávio, com seu acentuado sotaque português, fez as apresentações.

Flávio e eu acompanhávamos a detalhada explanação que Caio de Alcântara Machado ouvia com surpresa.

Convencido pelos longos arrazoados, em determinado momento do 'papo', o presidente do IBC lhe perguntou:

— Duzentas sacas por mês está bom?

A oferta foi aceita com um largo sorriso, pois era cinco vezes maior que o desejado… A torrefação com isso deu um grande salto.

O passar do tempo acabou impossibilitando, por novas diretrizes do IBC, o funcionamento das pequenas torrefações, e Rolando, com amargura, abandonou a atividade pouco antes de falecer. Era assim nosso pai. Um leão na luta pelos direitos do Nosso Lar e do GEEM e na defesa dos filhos, o que o leitor sentirá na mensagem a seguir, em que abre seu coração e mostra como continua a acompanhar, da Vida Espiritual, os filhos e as atividades nas Instituições. TESOURO E CORAÇÃO (IV Mensagem)

1 Querida Alda, que o Senhor nos abençoe, com os nossos filhos queridos e todos os companheiros deste grupo de corações dedicados à fé.

2 Sou eu mesmo. Falo por tantos canais que já não sei enumerar a todos, porque falo também através daqueles fones que não se sabem utilizados por mim, na evolução e envolvimento de nossos serviços.

3 Sinto que vou passando por mudanças voluntárias. Alguns meses aqui, sem que ninguém me impusesse atitude alguma, fazem com que me veja mais extensamente.

4 E vou entendendo que a desencarnação é muito lenta, especialmente para os companheiros de minha condição, donos de uma vontade forte e de convicções ajustadas à própria lealdade, que um homem precisa conservar de si para consigo. Creio que, primeiramente, a criatura deixa o corpo pesado e, só mesmo vagarosamente, muda as ideias e concepções de que a personalidade se veste perante os outros.

5 Incapaz de sentir-me um bom espírita, agora ando alimentando o desejo de ser um Espírito melhor do que sou.

Compreendo que ainda sei claramente o que quero, mas observo que necessito aprender a querer, porque isso é diferente. É assim que me perco feliz na admiração e no reconhecimento a você e por todos vocês, filhos queridos presentes e ausentes. Vocês trabalham com tanta sinceridade no espírito do bem ao próximo que o Rolandão está modificando a própria situação dentro do time.

6 Querida Alda, nossos filhos não são ‘dinos’, qual os chamava, e sim dínamos de trabalho e abnegação, que eu amava e amo tanto e que começo presentemente a respeitar mais do que respeitava. Muito grato a todos, sem me alhear dos companheiros do GEEM, com as nossas tarefas em dia. O nosso Valente Cineas prossegue firme e, com Israel e todos os demais amigos, trabalha e trabalha, seguindo a conceituação do nosso Batuíra, que compreende no trabalho a sustentação da própria vida.

7 Agradeço ao nosso Caio as reflexões que me oferta. Temos ambos meditado bastante nos dias últimos. Acontecimentos se verificam que transcendem a nossa capacidade de escolha e orientação. Sei que o Caio e Thais desejam a paz de nossas tarefas no reino de serviço e compreensão que a Divina Providência nos concede, mas impulsos fortes da vida externa costumam alterar-nos os melhores projetos, e assim esperemos as ocorrências no tempo.

8 O País todo jaz na posição de casa em reforma, na qual tudo está certo, mas transitoriamente fora de lugar…

Nada se prevê, senão a nossa obrigação de prover a nós mesmos de entendimento e aceitação dos encargos que as circunstâncias nos reservem.

Todos estamos chegando de um passado entretecido de compromissos e lutas e nos achamos na estação da expectativa, para saber com segurança o que nos compete nos quadros do cotidiano.

9 Alda, peço a você tranquilizar a nossa Lúcia. Muitas crianças simplesmente não são destinadas à existência que almejam e são restituídas às suas posições de origem, sem que isso expresse deficiência nos pais.

10 E, sobre mediunidade, a nossa Lúcia pode compreender que a entidade espiritual consciente não pressiona o cérebro mediúnico para serviços de adivinhação.

Isso porque o companheiro que se comunica, conquanto possa estar conscientizado de muitas realidades que o médium desconhece, aprende a comportar-se como quem as ignora, de maneira a não violentar o campo sensorial da criatura que lhe serve de intérprete. Mesmo em nosso caso, não há necessidade de antecipações e nem de demonstrações fenomênicas; sendo necessário, por aqui encontramos ou improvisamos os meios para a realização disso ou daquilo.

11 Continuemos construindo para o bem, que o bem acabará nos construindo para a obra de Deus.

12 Os horizontes são imensos, e, em meio de tanta amplidão, encontrei, num estudo estreito que atualmente me ocupa quase todo o tempo, o estudo de mim mesmo.

Ando descobrindo tanta novidade em meu íntimo que não sei precisar a quantidade de matérias, nas quais me deva fixar com mais atenção para esse esforço de autoanálise. Mas, deixemos isso de lado e refiramo-nos a serviço.

13 Minhas felicitações ao grupo, na pessoa do Caio, pela marcha regular dos livros. Estamos plantando ideias, e isso é para mim uma bênção.

14 Peço ao nosso Plínio a sustentação da serenidade de que se necessita, a fim de viver na Terra de hoje, e, se ele puder, que se lembre das opções de que nos falava o nosso Batuíra através do Caio; de tantas opções que nos cercam, à maneira de portas abertas, sabemos qual a melhor.

15 Agradeço à nossa querida Silze por ter vindo até aqui com o nosso Virgílio. Olhem que a nossa filha Silze já pode aquilatar as diferenças que estou criando para mim próprio.

16 Alda, muito grato a você por toda a sua dedicação. Abstenho-me da lista de nomes para que o corujismo não me exponha em suas vitrinas, mas quero dizer que todos os filhos e filhas, netos e netas estão em meu carinho e reconhecimento.

17 A noite está ficando ruborizada, e eu também estou a me corar de acanhamento, por haver alongado assim tanto a minha carta, que se transformou em laudas e laudas para modelo de cartórios.

18 Querida Alda, em você abraço a todos e lhes dou a certeza do amor permanente e da gratidão sem fronteiras do esposo e pai, servidor e amigo, Rolando (18 de setembro de 1981)

COMENTÁRIOS 1) A mensagem reitera seu contato com todos, por comunicação mediúnica de alguns e pela intuição que transmitia a outros. Mesmo no outro lado da vida, Rolando não nos abandonava. 2) Foi um período em que eu o procurei muito em pensamento, em função de dificuldades circunstanciais que envolviam as Instituições e em decorrência de novas perspectivas de trabalho profissional, das quais desisti a seu conselho, reiterado pelas oportunas ponderações do Chico. 3) A filha estava bastante abatida, em função do insucesso da sua segunda gravidez.

4) Orientações à Lúcia, visando ao seu aprimoramento mediúnico. Havia, à época da mensagem, inúmeras solicitações dos que a procuravam, ansiosos por uma conversa com o Rolandão. 5) Ponderações ao Plínio a respeito de novos caminhos profissionais que buscava na área do Direito.

6) Silze, esposa de Virgílio, o filho mais velho.

7) Referência à manhã que já dava os sinais de sua presença no firmamento 'ruborizado' pelos primeiros raios solares.

Caio Ramacciotti