Relicário de luz · Autores diversos · Chico Xavier
Capítulo 35 de 120
Trajetória - Augusto dos Anjos
I
1 Venho do núcleo imbele da albumina. Num milhão de sombrios avatares, Pólipo de comunas celulares Que a lei organogênica domina.
2 Avancei dos recôncavos da mina Ao charco morno que reveste os mares… E errei nas selvas multisseculares Com sede e fome de carnificina.
3 Venho do zero cósmico profundo, De pavorosas tenebras do mundo, Estrangulando os vínculos das eras.
4 E, nas lutas sem fim que me consomem, Tenho o orgulho bastardo de ser homem Sobre o instinto medonho das panteras! II
1 Mas, além do pretérito que humilha, Meu ser antropocêntrico em batalha, Surge um sol flâmeo e belo que se espalha Por celeste e ignota maravilha.
2 É o anjo-homem-Cristo que perfilha O homem-lôbo que, em mim, veste a mortalha Da fera que ainda ruge e se estraçalha Sob a treva em que a lágrima não brilha…
3 Desce, ó Divina Luz, aos meus escombros, Põe a cruz de verdade nos meus ombros, Prende-me os punhos ao calvário adverso!
4 Esmaga em mim a hiena taciturna, Arrebata-me aos pântanos da furna Para a glória divina do Universo. Augusto dos Anjos