Revelação · Jair Presente · Chico Xavier
Capítulo 7 de 16
Carnaval
1 Procurando distração, Fui, contente, ao carnaval! Muito ouvia em torno dele E quis vê-lo ao natural.
2 Apelei para João Panca, Um prestimoso vizinho, Que não me deixasse a sós, Não queria estar sozinho.
3 João concordou comigo, Era sempre o companheiro… E lá nós fomos, os dois, Ao passeio, dia inteiro.
4 João falava na caridade, Mas a festa estava à espera; Era preciso seguir, Beneficência “já era”.
5 Já que falava em virtude Chamei-o a ver Dona Bela, Que nos atirou um vaso, Pingando água amarela.
6 Conquanto desapontado, Visitamos Dona Aninha, Que nos jogou sobre o peito, Duas “joias” de galinha.
7 João mostrava-se amargurado, E como alguém que se poupa, Regressou à própria casa, A fim de trocar de roupa.
8 Encontrei um grande praça, Léo, filho de Dona Esther; Ele pediu-me, alterado, Uma saia de mulher.
9 Todo amigo dava gritos, Nessa festa sem sentido, Afirmava Dona Clara, Ter a calça do marido.
10 Vi flautas e violões, Passando, em busca ao sem-fim, Muita gente me chamava, Ao lado dos tamborins.
11 Um homem que carregava, Dois chocalhos, uma vara, Não sei se foi por querer, Esmurrou-me a própria cara.
12 Carnaval representava, A festa do meu País, Por isso segui em frente, Tão forte quanto feliz.
13 Era justo conhecer Uma festa semelhante, Por isso aceitei sem mágoa, A agressão extravagante.
14 Fui buscar, querendo um grupo, O amigo Simão Veloz, Ele queria cantar, Mas “rugia” junto a nós.
15 Meus amigos sempre muitos, Pareciam-me doentes, No entanto, não quis deixá-los, Ao vê-los irreverentes.
16 Venci diversos empeços E fui ao Tino da Chalaça, Ele, porém, nem me viu, Estirado na cachaça.
17 O povo todo dançava, E eu olhava sem remoque, Achava muito esquisita, A orquestra chamada Roque.
18 Um homem sério abriu alas, Era o melhor dos Nicolas, Lembrava antigo palhaço, Exibindo Cabriolas.
19 Perguntei a um guarda amigo, Que a ninguém queria mal, Só desejava saber, Se estava no carnaval.
20 Ele disse:
Olhe as crianças, Todas dançam recordando Nossas futuras mudanças.
21 Vi um par, a longos beijos, Na sombra de velho muro, Como a dizer que o amor, Só se revela no escuro.
22 Disse o amigo:
— Se o senhor quer demorar-se, Procurando amigos maus, Dê-me logo oitenta paus.
23 Dentre os quadros que anotei, Vi o mestre Manassés, Que dançava e requebrava, Da cabeça até os pés.
24 Um conflito sucedeu, Vendo a filha de Nereu Nos braços de outra pessoa, Genuíno enlouqueceu.
25 Achei-me desencantado. Eu que entrara reverente. A fim de largar o grupo Precisava ser valente.
26 Retornei a nossa casa Meditando, por sinal, Se o carnaval que assistira, Que seria? bem ou mal?
27 Pensei em meu pai distante, Minha mãe falou: — Na vida, O carnaval é loucura, Doença desconhecida. Jair Presente