Revista Espírita · Allan Kardec

Capítulo 25 de 122

Senhora de Chilly.

Lê-se no jornal Petite Presse de 11 de fevereiro de 1869:

O Sr. de Chilly; o simpático diretor do Odéon, tão cruelmente provado pela morte quase fulminante de sua filha única, está ameaçado por uma nova dor. Sua sobrinha, Srta. Artus, filha do antigo maestro do Ambigu-Comique, está neste momento, por assim dizer, à beira do túmulo. A propósito, o Figaro relata esta triste e comovente história:

“Agonizante, a Srta. de Chilly deu um pequeno anel a esta prima, cuja vida está hoje tão cruelmente ameaçada, e lhe disse: – Toma-o, tu mo restituirás.

“Teriam estas palavras ferido a imaginação da pobre menina? Eram a expressão desta dupla vista, atribuída à morte? A verdade é que, alguns dias após os funerais da Srta. de Chilly, sua jovem ficava doente.”

“O que o Figaro não diz é que, em seus últimos momentos, a pobre morta, que se agarrava à vida com toda a energia de seus belos dezoito anos, gritava de seu leito de dor à sua prima, que se desfazia em lágrimas num canto do quarto, teatro de sua agonia: – Não, não quero morrer! não quero ir só! virás comigo! eu te espero! eu te espero! não te casarás!

“Que espetáculo e que angústias para essa infortunada Srta. Artus, cujos esponsais se preparavam no momento mesmo em que a Srta. de Chilly se acamava para não mais se erguer!”

Sim, certamente estas palavras são a expressão da dupla vista atribuída à morte, e cujos exemplos não são raros. Quantas pessoas tiveram pressentimentos desse gênero antes de morrer! Dir-se-á que representam uma comédia? Que os niilistas expliquem esses fenômenos, se puderem! Se a inteligência não fosse senão uma propriedade da matéria, e devesse extinguir-se com esta, como explicar a recrudescência da atividade dessa mesma inteligência, as faculdades novas, por vezes transcendentes, que muitas vezes se manifestam no momento mesmo em que o organismo se dissolve, em que o último suspiro vai exalar-se? Isto não prova senão que algo sobrevive ao corpo? Já foi dito centenas de vezes: a alma independente se manifesta a cada instante sob mil formas e em condições de tal modo evidentes, que é preciso fechar voluntariamente os olhos para não ver.