Revista Espírita · Allan Kardec

Capítulo 20 de 109

Lembrança

Dois jovens são: irmã e irmão, Juntos em noite de verão, Entram na choça. E a noite avança A passo lento, sem palrança, Por detrás deles, vaporosa Como uma sombra misteriosa. Já dorme o pássaro na mata, E o vento norte se recata; Tudo sonhava em doce arcano. E diz a irmã, baixinho, ao mano: Estou com medo; ouves, irmão Chorar um sino ao longe, então? É um dobre lúgubre a finados, A um morto, pois. Não assustados, Irmã, fiquemos, é uma alma Que sai da Terra e que com calma Reclama prece pra pagar No eterno além o seu lugar. Vamos, irmã, orar na igreja De laje cinza e poenta, seja Local em que de luto, um dia, Por trás do esquife em que dormia, A pobre mãe nós vimos pois. Vamos orar também, irmã; Bênçãos teremos amanhã. Vamos já, vamos! – Logo, os dois, De olhos em lágrimas, depois, Deram-se as mãos e, com carinho, Tomam, assim, logo o caminho Que ambos conduz à velha igreja. Segunda vez o sino harpeja E lhes oferta o triste adeus Do morto em busca de seu Deus, Cessando o sino o seu lamento; Mudos de medo e em desalento Caminham as duas crianças Co'olhar nos céus, têm esperanças. Da igreja, então, já quase à entrada Uma mulher viram sentada À sombra da pilastra triste Que a pia benta erguer lhe assiste. Tendo os pés nus, face velada, Pálida, louca e desgrenhada, Ela exclamava alto: Ó meu Deus! Vós que se adora aqui, nos céus, Em todo o tempo, em toda a Terra, E, no céu, pobre mãe se encerra Tremendo aos pés de vosso altar, Ante o amor vosso singular, Diante de vós, ouse a aflição De lamentar-se a estar então. Senhor! Não tinha eu mais que um filho, Um só; de um róseo e de um brilho Qual branco raio que colora Uma manhã de fresca aurora. O terno azul dos olhos seus Lembrava o azul dos vossos céus, E em sua boca um riso doce Fulgia assim como se fosse Dizer: Não chores em teu lar; É Deus que vem de me enviar. Vê, a tormenta, mãe, cessou; Espera! o céu limpo ficou; E eu esperava. Mas, infante, Tu te enganavas, inconstante. Do vento o sopro sobre a praia Tudo destrói e se desmaia, Senão caniços que deixando Ao pé das águas vão chorando. E quando a morte bate à porta De um lar, ela entra e então transporta Consigo tudo! E por reduto Só deixa a marca atroz do luto. Sabia eu pois que um belo sonho De uma manhã, finda tristonho, À tarde aqui; que a noite, entanto, Do sol inveja o brilho santo Que empalidece a sua sombra, Lançando um véu por toda a alfombra A escurecer seus mil fulgores, Fechando aos olhos esplendores. Sim, eu sabia; a mãe, porém, Ignora tudo; e não lhe vem O que ela espera crente em tudo; Bem para o filho, sobretudo. Toda uma vida de ventura, Eu não podia sem loucura Um dia ter felicidade? E outra é, Senhor, vossa vontade! Seja ela feita, assim suspiro, Só, neste humilde e atroz retiro, Onde eu já vi morrer-me o esposo, Onde, sem cor no ermo espinhoso, Eu recebi de um pai o adeus, Onde tirais da mãe os seus Últimos sonhos de esperança Diante do algoz de uma criança. Morte, que a vítima vigia Com cruel riso de alegria, Senhor! Eu lhe suplico a mão Que fere os meus, um dia, então, Da própria mãe não lhe poupar De o filho à terra reclamar. E o sino última vez badala, A estas palavras a voz fala Da alma do filho sobre a terra Consolo à pobre mãe encerra, Ao lhe dizer: Nos céus estou! Quando o casal de irmãos deixou A velha igreja logo à entrada, Veem a mulher inda sentada. Jean.