Revista Espírita · Allan Kardec
Capítulo 47 de 93
Para teu livro
Breve, criança, irás deixar O teto que te viu nascer, Pra correr mundo e enfrentar Seus riscos, e talvez morrer Sem ter chegado ao teu destino. Ante o fugir à nossa instância, Tal como outrora, escuto o trino Da voz que te guiou na infância. Ai, ai! meu filho, em teu caminho Logo talvez dificuldade Te ferirá a mão com espinho, Que venenoso de verdade Fará coxear teu pé ferido, Mais de uma vez em tua sina. Que importa, então!
Mais longe erguido, Seguirás luz que te ilumina, A marchar sempre, sempre avante; Sem tua pátria achar perdida, Teu lugarejo, o lar distante, E morrer sem chorar a vida, Se tinhas que perdê-la um dia, Pregando a todos por doutrina A caridade, a fé mais pia, Deveres só da lei divina; Em toda parte erradicando Falso saber, orgulho, egoísmo, Que amortalhar estão tentando O berço-luz do Espiritismo; Em repetindo isso que a voz De todos invisíveis mundos Parece revelar-te a sós Em seus murmúrios tão profundos; Sofrendo um século grosseiro, Que junta o insulto à injúria forte Quando te chama feiticeiro, Simples ledor da boa sorte; Em perdoando-lhe o desdém, Vai procurando, pela prece, Os seus amigos pô-los bem Em sua santa e humilde messe. E eu disse: Parte, filho, adeus; Tua tarefa é dificílima, Mas crê e espera em teu bom Deus, Ele a fará talvez facílima. Um Espírito Poeta.
Na sessão seguinte, de 18 de maio, o mesmo médium escreveu espontaneamente o seguinte: Resposta a uma crítica a meus versos: Para o teu livro, feita um tanto levianamente, sexta-feira última, por um desconhecido que aqui não vejo esta noite. Numa misteriosa mata, Oculta na folhagem nata De lilás, todos os anos Na primavera ufanos Trinos se escutam de graciosa Toutinegra em canção chorosa. Do bosque vizinho Cada manhã vêm suaves Se colocar bem perto dela Pra ouvir melhor o que revela Voz tão terna e acentuada, Com perfeição modulada, Com graça pura e indefinida. A multidão quase incontida Aplaudia a nobre diva Quando surge outro conviva, Um melro de plumagem negra De raiva a assobiar se alegra A monótona canção Que admirava sem razão. A toutinegra silencia, E diz-lhe, rindo, com ironia: Assobiais tão bem, tão bem deveis cantar. Não será um prazer então vos escutar? E o melro sem resposta, alou-se, foi-se embora. Por que? Adivinhai… Adeus! Vos deixo agora. Alfred de Musset.
[1]
[v. Alfred de Musset.]